Cap 37

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Regina Mills
 
Emma termina de dizer tudo o que quer. A minha cabeça dá voltas, estou plantada no lugar, não consigo nem me mover. Ensaiei algumas palavras para dizer, mas a cada frase dela, eu perdia o ar e ficava ainda mais imersa em sua narrativa. Então ela já havia me notado antes? Como eu não tinha percebido.
— E você não se sentiu mal quando pedi que fingisse ser minha namorada para incomodar o Robin ? É tudo o que sai da minha boca.
— Eu já estive em seu lugar, Regina. Numa relação diferente, mas na mesma situação. Eu sei que é preciso tempo para aprender e superar as  dores do passado. Mas olhe só para você agora... Não consigo me olhar, não temos um espelho por aqui. Mas eu me vejo, nos olhos de Emma. E eu estou bem gostosona, em um vestido caro, cabelo arrumadíssimo e ainda seguro meu bom drink na mão esquerda. Eu estou um arraso mesmo! Ou será que estou ainda mais bela porque me vejo refletida em seu olhar?
— Agora você sabe quem é. Você, Regina Mills. Sem Robin  nem ninguém. Se redescobriu mesmo dez anos dizendo para si mesma que deveria ser uma boa namorada, uma boa companheira e aceitar tudo... e você sabe que esmagou o meu coração algumas vezes, no percurso, não é?
Esmaguei? Solto um gritinho. Ela corresponde com um sorriso de canto.
— É. Você ignorou mesmo algumas ligações que eu fiz. E me deixou preocupada, você parece um vulcão pronto para explodir.
— Acho que é o que acontece quando se guarda tanta coisa do passado...
— A propósito, eu comprei a Sweet Show. Saio do lugar e me desequilibro totalmente, preciso ser amparada por ela.
— 25% por 5 milhões de dólares. Ela diz. Eu não tenho nem palavras. É como se o tempo e espaço parassem naquele lugar e mesmo com uma multidão vindo para cá, só consigo fitá-lo.
Como assim?
— Você e as suas amigas são incríveis e eu tenho certeza de que esse negócio vai valer muito mais no futuro. Tome esse dinheiro como um investimento agora para contratar mais funcionários, aumentar a sua cozinha, alugar um local maior. Vamos levar a Sweet Show para toda Miami, depois para todos os Estados Unidos.
— Você ficou maluca?
— Você tem um sonho incrível, eu sou a mulher do dinheiro, esse negócio é rentável. Também tire umas férias e diminua sua carga horária, você precisa. Trabalhou duro todo esse tempo, merece uma pausa, para depois retornar com força total. Se antes eu não sabia o que dizer, agora até parece que esqueci como se fala. Entreabro a boca, mas nada sai. Mesmo quando tento construir um raciocínio, a boca falha. Não posso acreditar que ela fez isso...
— Você está feliz? Sinto suas mãos nas laterais do meu rosto. Feliz? Eu estou radiante, só não consigo me mover, parece que injetaram botox na cara inteira!
— Eu... nossa... não... eu... sim... quero dizer... eu estou feliz, Emma.
— Ótimo.
— Mas... espera... então quer dizer que você não vai mais me casar? Dou um passo para trás quando a vejo se ajoelhar diante de mim. Ela segura a minha mão e toca no anel que me deu.
— Quando você aceitar se casar comigo de verdade algum dia, tenho certeza que irei me casar. Por enquanto me contento em ter transformado essa festa incrível, onde toda a alta sociedade de Miami está reunida, no enterro da Farrah, do governador Weiss e do meu pai. Ah, e do Robin  também. Ele mesmo fez algumas negociações duvidosas em nome da Farrah. Puxo a idiota do chão. Meu Deus, que cena! Chamou a atenção de todo mundo! Repreendo com os olhos e tento ignorar isso.
Então você também queria vingança?
— Temos isso em comum. Queríamos nos vingar. Você do seu jeito, eu do meu. E...
E?
— E no meio disso tudo, acho que descobrimos que temos algo muito mais em comum do que o ódio por pessoas abusivas.
— Eu não poderia concordar menos!
— Agora...  Emma toma minhas mãos e leva para perto do seu peito.
— Sobre a sua mensagem... saiba que eu também aprendi a te admirar e a te amar. Não foi mentira, Regina. Nenhum momento que eu vivi ao seu lado foi em vão. Da sua primeira vez na praia ou no iate... te ajudar a reparar seu coração e te ver criar ânimo e energia para seguir a vida... eu redescobri essa sensação que pensei que nunca mais poderia sentir...
Que sensação?
— Acho que você sabe. Você sabe que nada foi uma mentira. Eu estive de corpo e alma ao seu lado em todos esses momentos e cada um deles foi incrível. Hoje você é essencial para mim e eu não vou aceitar que saia da minha vida. Gosto mais de mim mesmo quando estou com você.
— Também gosto de você... Respondo.
quando está comigo. Você fica... legal. Emma abaixa o rosto e morde o meu dedo.
— Vai me tratar assim agora?
— Eu vou. Aprendi uns segredos para deixá-la aos meus pés e quero testá-los em você... Faço um bico.
— Eu já estou aos seus pés. Ela se aproxima do meu rosto e murmura em meu ouvido.
— E em breve vou estar em cima de você...embaixo de você... dentro de você... fora de você... Parece que ocorre um apagão em minha mente. Quando dou conta, meus braços estão envolvidos no pescoço de Emma e nossos corpos estão colados, quase que numa dança bem lenta e que faz nossos corpos se
aquecerem juntos. É como se cada um dos momentos que tivemos juntas nos embalasse nessa hora.
Ela cantando a música do filme “Uma Linda Mulher”, me carregando nas costas enquanto me levava para a praia, cuidando do meu dedo que cortei, jogando-me na cama após eu ter invadido seu quarto,
levando-me para ver o mar numa noite maravilhosa, comprando inúmeros vestidos caros para depois dizer que eu ficava linda com minhas roupas velhas... Sinto o perfume de Emma em seu peito, estou arrepiada agora, assim como estive da primeira vez que o senti. Também me recordo da primeira vez que a vi, pela janela, aquela obra de arte fazendo um verdadeiro show que eu experimentei e pedi por
mais... Isso é bem diferente do que senti um dia por Robin. Aquilo era só obsessão, medo por ser trocada, fúria pode ser  enganada... O que Emma me faz sentir é mais genuíno... e não depende só de
mim, o que me alivia bastante, ela se compromete e se comprometeu todo esse tempo a estar ao meu lado, cuidar de mim, rir comigo e não me julgar pelos meus defeitos e minhas fraquezas. Agora me sinto mais forte do que nunca. E pronta para amar de verdade.
 
Emma Swan
 
 
Para poder sair daquele inferno, Regina e eu precisamos atravessar praticamente uma procissão, de tanta gente. Um empurra-empurra infernal. Acho que esses ricos metidos nunca ficaram tão grudados uns nos outros. No meio do caminho acabo esbarrando em David.
Achei você! Trago Regina para sua direção.
— David, quero que conheça a Regina. Regina, esse é o meu tio David.
— Queria poder tê-lo conhecido em um momento melhor, senhor David.  Regina sorri com gentileza.
— O momento é apropriadíssimo, na verdade. David contrapõe. Ele está vestido do seu jeito clássico: óculos escuros, chapéu Fedora e com certeza o terno mais caro que se pode encontrar em Nova York, azul marinho que foi feito sob medida. Ao seu lado, deslumbrante, com os cabelos amarrados e uma coroa de flores brancas e um vestido que contorna seu corpo, sua esposa, Mary Margareth Booth.
— É um prazer conhecê-la, Regina. Ouvimos muito ao seu respeito. E em nada a sua presença decepciona. Mary Margareth lhe dá dois beijos na face.
Obrigada?  Regina parece confusa, mas se sente à vontade diante do casal.
— Essa é a minha casa! Me soltem! Todos nós paramos para assistir o senhor Farrah ser varrido dali por uma escolta do FBI, dois dos maiores homens precisam arrastá-lo, ele se nega a ir. Como, afinal de contas, eu iria destruir seu reinado sem seus súditos?
Nós tínhamos um acordo! Ele rosna quando passa por mim. Até me surpreendo que nessa situação ele consiga me distinguir na multidão.
— Pelo amor de Deus! Tio David, a voz do bom senso, parece calar todos.
— Nós somos americanos. Não fazemos tratos com corruptos e terroristas. Varram esse homem daqui! Ele aponta com a mão para que sigam. A proposta do senhor Farrah teria sido tentadora para a minha antiga eu. Eu me sentiria deslumbrada com novas migalhas: retornar para casa e ser tratada como alguém da família. Era o que eu queria... até descobrir que família, muitas vezes, não precisa ser a de sangue. Mas a que forma laços concretos contigo. Pessoas que sem nenhuma obrigação decidem te acolher, te aceitar e te amar. Pessoas que não pedem nada em troca, não precisam tecer acordos e que jamais e em hipótese alguma tentam te afastar das outras pessoas que você ama... O acordo sairia caro demais para mim. E eu não queria arcar mais uma vez com uma coleira em meu pescoço, fazendo o que queriam de mim. Assim como Regina, precisei quebrar a ilusão de que estava sendo amada, desejada e valorizada, por uma pessoa que na verdade só queria me usar e me destruir por dentro, para que fosse sempre fácil me coagir com suas vontades. Eu tinha as minhas próprias vontades. E eu não abriria mão de continuar íntegra em meus valores e ter Regina ao meu lado.
Esse é o momento apropriado para te dizer algo! David estala os dedos e me puxa pelo ombro.
Sim?
— A sabedoria sempre diz que algumas coisas só devem ser ditas no momento apropriado e acho que esse é um deles. Ele explica.
— Tudo o que você diz, sempre é bem-vindo, tio David.
— Eu não me tornei um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos para permitir que qualquer projeto de espertinho destrua nossos valores e manche nossa pátria, Deus do céu. Ele reclama enquanto assistimos a família Weiss ser escoltada para fora dali.
— Você destruiu o melhor dia da minha vida! Gabriela grita para mim. Que bom. Fiz a minha boa ação do dia, tomara que o Karma seja gentil.
— Sim, tio David?
— Pessoas de mentes pequenas se deslumbram com o poder. E seduzidas por ele, abandonam quem elas são, para se prostituir pelas regalias que o poder ilusoriamente te faz acreditar que tem.
— Certo. Muita coisa para absorver.
Mas... David dá ênfase nessa parte.
— Sabe a coisa mais importante que aprendi em todos esses anos? Estava ansiosa para ouvir.
— A primeira coisa que faço quando acordo, não é pensar: puts, eu sou um dos caras mais influentes dos Estados Unidos e Mão Oculta do GTI. Não. Não é isso o que eu faço. Primeiro eu me preocupo com a minha esposa, que está ali ao meu lado, se ela dormiu bem e se ela aceita ter o dia mais incrível da vida dela ao meu lado, naquele dia. Regina encostou a cabeça para ouvir, pareceu bastante interessada.
— Depois nós vamos ver se nossos filhos estão bem. E se a nossa grande família está bem. E se nossos amigos estão bem. E se nossos funcionários parecem bem. De que adianta o poder se não tiver com quem dividir? O poder por ir e vir. Ele te seduz, mas também te abandona... a sua família, a sua real família, as pessoas que te amam de verdadeiro coração, não. Regina praticamente ficou no meio de nós dois, só ouvindo.
— Você vai amar e vai odiar a sua família, porque eles são reais e não vão disfarçar quem são para que você os aceite. Se apegue às pessoas reais ao seu redor. A aquelas que te amam e que é recíproco, pelo menos. Todas as coisas no mundo vão passar, até mesmo o poder e o dinheiro. Mas os laços que nos unem... eles que são capazes de te fazer se reerguer, querer lutar e viver da melhor forma possível.
— Obrigada, tio David. Regina balança a mão dele, para seu espanto.
De nada?
— Agora se divirtam! Isso não era para ser uma festa?  Mary Margareth se afasta, junto com seu esposo.
— Preciso ver se a minha mãe e irmã estão bem. Aviso Regina.
— Tudo bem, eu te espero, ou posso ir com você. Ela não titubeia.
— Depois vou voltar para Nova York para passar a noite com Henry. Vim rápido só resolver um assunto e preciso voltar.
Que assunto?
— Eu voltei por você, Regina. Eu disse que estaria aqui por você. Ela abaixa o rosto, consigo ver que está corada. Mesmo em meio à multidão, é impossível prestar atenção em outrem senão ela. Algo nos
conecta, algo nos atrai, algo nela me deixa em paz e ao mesmo tempo em guerra. E eu aprendi a saborear esses sentimentos confusos em mim, quando estou com ela.
— Quero ir com você para Nova York ver o Henry. Estou preocupada com ele.
— Tudo bem. Obrigado por se importar.
Ei!  Regina segura em minhas mãos e as sacode.
Sim?
— Eu vou estar aqui por você também.

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