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Kuon Shinzaki

Meus olhos se abrem devagar, como se pesassem uma tonelada. Tudo ao redor está em silêncio, exceto por alguns ruídos abafados do outro lado da porta. Meu coração dispara e instintivamente me encolho na cama, como se isso fosse me proteger do mundo lá fora.

A dor entre minhas pernas é insuportável — uma ardência profunda, constante, como se meu corpo quisesse me lembrar a cada segundo do que aconteceu. Sinto algo escorrer pelas coxas. Sangue. De novo.

Tento me mover, mas o menor esforço faz com que tudo dentro de mim queime. Desisto. Ficar imóvel talvez me mantenha inteira, ou pelo menos me impeça de desmoronar ainda mais.

Ele me usou. Mesmo desacordada, ele...
Como alguém pode ser tão cruel? Eu pedi, implorei... eu disse que estava com dor. E ele não parou. Não se importou.

A maçaneta gira. O som me faz estremecer. Eu me encolho mais ainda, como se pudesse desaparecer entre os lençóis sujos. Está começando de novo...

— Mestre, por favor... eu só... eu só quero um banho...

— Kuon?

Congelo. Essa voz... Não pode ser. Estou imaginando. Preciso estar. É a minha cabeça pregando peças, tentando me dar um alívio inexistente.

— Kuon, sou eu... May.

Levanto o olhar lentamente. Ela está ali. De verdade. May. Se aproximando com cuidado, com os olhos cheios de algo que eu quase não reconheço: esperança.

— Não se aproxima! Vá embora, May! Por favor!

Eu não quero que ela me veja assim. Não suporto. Não posso permitir. Estou imunda. O que ele fez comigo... me tirou tudo. Dignidade. Liberdade. Voz.

— Kuon, você está sangrando... eu preciso te ajudar, por favor...

— NÃO! NÃO ENCOSTA EM MIM!

Minha voz sai fraca, falha, mas cheia de desespero. Sinto os olhos queimarem, lágrimas deslizando em silêncio. Ela não sabe... ninguém sabe o que aconteceu aqui dentro. Cada gemido forçado, cada ordem sussurrada com aquele sorriso asqueroso...

— Kuon... eu só vou perguntar uma vez... tá?

Ela se ajoelha ao meu lado. Seus olhos encontram os meus. Há medo neles, mas também força. Ela sabe. Ela já entendeu.

— Ele estuprou você?

A palavra me quebra. "Estuprou." Nunca tinha dito em voz alta. Mas foi isso, não foi? Foi isso... e mais. Ele me reduziu a nada. Me fez rastejar... implorar...

Eu choro. Choro de um jeito que nunca chorei antes. Meus pulmões ardem, minha garganta se fecha. Queria sumir. Queria nunca ter existido.

— Vai ficar tudo bem, Kuon. Eu prometo. Você vai superar isso.

Como? Como superar o medo constante de ouvir passos do lado de fora da porta? Como olhar para qualquer homem sem pensar que é ele? Como dormir de novo? Como confiar de novo?

— May... eu...

— Eu vou tirar essas correntes, tudo bem? Só isso. Eu prometo.

Assinto com um leve movimento de cabeça. Ela se aproxima com delicadeza. Mesmo assim, meu corpo se enrijece ao toque. Ela sabe disso. Ela respeita isso.

As correntes caem uma a uma: punhos, tornozelos... e por fim, o pescoço. A coleira. Aquilo me fazia sentir menos do que humana e ainda bloqueou meu poder.

— Pronto.

Abraço meus joelhos, tentando me esconder de tudo. May tem sangue em suas mãos. No vestido. Meu sangue.

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