O Instinto do Atirador

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Eu não sei o que está acontecendo.

Por que essas lembranças me atormentam tanto?

Talvez seja essa rachadura em minha máscara.

Desde que ela apareceu, fragmentos de memórias invadem minha mente como se tentassem me lembrar de algo que eu não deveria saber. Algo que perdi quando fui forçado a colocá-la.

Não sei quem eu era antes. Se tive amigos, uma família... se eu era um bom homem. Agora, sou apenas um assassino.

Eu deveria seguir em frente e ignorar esses pensamentos, mas eles insistem em me perseguir.

Sigo meu caminho pela ponte suspensa entre os prédios.

Olho para baixo.

Droga.

Eu nunca parei para reparar o quão alto estou.

Meus dedos apertam as cordas com força.

Droga, droga.

Eu tenho medo de altura.

Engulo seco e continuo devagar. Cada passo precisa ser preciso. Meu corpo sabe o que fazer, mas minha mente grita para eu recuar.

Eu respiro fundo.

Preciso me lembrar...mas nada me vem...

***

Dias depois

A voz dentro da minha cabeça ainda não sumiu.

Mas algo mudou.

Eu posso controlá-la melhor.

Normalmente, quando há um problema com a máscara, a consequência é uma só: a morte. O usuário enlouquece e se mata.

Mas eu continuo vivo.

Por quê?

Mesmo assim, ainda sou incapaz de desobedecer completamente às suas ordens.

Atravesso mais uma ponte e chego ao prédio ao lado. Respiro aliviado. Já está escurecendo.

Preciso de um lugar para dormir.

Acendo um cigarro e sigo meu caminho.

Acho que vou para o prédio de sempre. Está organizado, seguro.

Mas há algo que não posso ignorar.

Com essa máscara rachada, os outros anjos me veem como um inimigo.

Eu não sou um deles.

E também não sou humano.

O que diabos eu sou?

Sento-me no chão, observando o pôr do sol.

Os últimos raios iluminam a cidade silenciosa.

Por um momento, não há gritos.

Por um momento, não há morte.

Fecho os olhos e trago o cigarro aos lábios.

O que seria de mim sem eles?

Minha mente tenta encontrar um pouco de paz, mas ela nunca vem.

Eu perdi a conta de quantas pessoas forcei ao suicídio.

Sei que não foi minha culpa.

Eu não tinha controle.

Mas isso não significa que eu não me sinta responsável.

A imagem da jovem que se jogou recentemente ainda está presa em minha cabeça. Seu rosto, seu desespero.

Droga.

Eu não posso continuar vivendo assim.

Preciso parar.

Talvez seja melhor desistir de tudo.

Me livrar dessa máscara.

Me livrar de mim mesmo.

Passos.

Meus músculos se enrijecem.

Olho para cima.

E lá está ela.

A garota do prédio de dias atrás, a colegial...

— Você está bem?

Ela me pergunta com esses olhos grandes, brilhantes e curiosos que me analisam dos pés a cabeça.

Ela ficou maluca?

Ela não sabe o que um mascarado como eu pode fazer com ela?

Aponto minha arma para ela.

Ela levanta as mãos, assustada.

Está tremendo, seu peito sobe e desce rapidamente.

Ela não devia ter vindo.

Me perdoe, garota. Mas por sua ingenuidade, você merece morrer.

A máscara vibra em minha mente.

"Ação desnecessária. Não atacar os que estão próximos de Deus."

Meu dedo vacila no gatilho.

Como assim "próximo de Deus"?

O que essa droga de máscara está tentando me dizer?

"Os anjos estão aqui para ajudar os humanos a atingirem o patamar de Deus. Logo, matar um deles é uma ação desnecessária."

— Senhor...

Abaixo a arma e encaro a garota.

Ela suspira aliviada.

— Você não devia estar aqui.

Seus olhos se enchem de lágrimas.

— Finalmente...

Eu estreito os olhos.

— O quê?

Pergunto ainda confuso e vejo seus olhos encherem de lágrimas enquanto me encara sorrindo como uma maluca.

— Ei... não chore.

— Estou tão feliz que você consegue me entender e falar comigo. Eu estava tão sozinha todo esse tempo...

Ela dá dois passos em minha direção.

Eu recuo instintivamente.

— Eu me chamo Kuon Shinsaki. Como se chama?

Meu olhar se estreita.

Me viro, pegando meus pertences.

— Onde você vai? Por favor, não me deixe sozinha!

As palavras dela me atingem como uma lâmina.

Por um instante, vejo uma cena diferente.

Um garoto pequeno, chorando.

"Por favor... não me deixe sozinho."

Agarro minha cabeça.

Essas memórias... elas doem.

— Me desculpe. Você está bem?

A voz de Kuon me puxa de volta.

Ela se aproxima de novo.

Ela realmente não entende o perigo?

Eu sou instável.

Eu posso machucá-la sem perceber.

— Se sente, por favor.

— Não atrapalhe, mulher.

Ela me encara.

É então que noto seus botões quebrados.

Sua saia rasgada.

Ela passou por muita coisa.

Solto um longo suspiro.

Droga.

Acho que não posso ignorá-la dessa vez.

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