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Kuon

Já faz pouco mais de um mês desde que o Yuka desapareceu — sem aviso, sem uma mensagem, sem sequer um olhar de despedida. A última lembrança que tenho dele é acordar sozinha naquele quarto escuro, depois da nossa primeira noite juntos depois de... enfim... senti o lençol frio ao meu lado onde antes havia calor. Lembro de passar a mão lentamente pelo colchão, ainda meio sonolenta, esperando encontrar o toque quente do corpo dele... mas só encontrei vazio.

Esperei por ele. Me convenci de que talvez tivesse saído para tomar um banho, ou resolver alguma urgência. Me enganei. Me agarrei à esperança por trinta minutos que pareceram horas, até que precisei admitir: ele não voltaria tão cedo. Então vesti minha roupa e fui procurá-lo.

Mas, ao abrir a porta, dei de cara com Yuri e May. As expressões delas entregaram tudo — mesmo antes que qualquer palavra fosse dita, eu já sabia. Algo estava errado. Senti um aperto em meu peito quando as vi parada ali, já sabia o que tinha acontecido e a escolha que ele tinha feito.

Foi nesse instante que o peso da verdade caiu sobre mim: depois de tudo o que dividimos, depois de abrir meu coração e mostrar todas as minhas cicatrizes e planos, depois de tudo que ele prometeu... o Yuka simplesmente... me deixou. Sem explicações. Sem se importar com o estrago que deixava para trás.

Ele foi atrás de Mamoru, movido por uma ideia absurda de vingança em meu nome. Como se minha dor fosse um gatilho justificável para que ele mergulhasse de cabeça em algo tão suicida. Mas isso é só uma desculpa — eu sei. Algo mais o está guiando... e, sinceramente, estou cansada. Cansada de tentar entendê-lo. Cansada de esperá-lo. Cansada de colocar o bem dele acima do meu. Eu queria que ele ficasse, que eu fosse motivo suficiente pra ele ficar, mas não sou.

Dessa vez, eu escolhi não ir atrás.

Decidi que não atenderia às ligações, não responderia às mensagens, não mandaria recado. Ele fez a escolha dele. Agora, era minha vez de fazer a minha — mesmo que doesse, mesmo que a saudade gritasse dentro de mim. Eu precisava ser um pouco egoísta.

Mas, claro... acabei quebrando minha própria promessa. Ele estava longe cada dia que passava eu perguntava a Yuri se tinha notícias dele, se estava tudo indo bem, só não queria que ele soubesse disso.
Cinco dias depois, minha raiva já tinha começado a se esvaziar, sendo substituída por uma ansiedade sufocante. Então liguei. Só para ouvir sua voz. Só para ter certeza de que ele ainda estava vivo. E assim que ele atendeu... desliguei. A dor voltou mais forte. Não queria prolongar aquela conversa. Precisava me proteger. Sabia que se continuássemos conversando eu o perdoaria e esqueceria toda a dor que ele me fez sentir.

Desde então, foquei no trabalho com o Doutor. Mergulhei nos estudos, nos testes. Tudo para manter minha mente longe dele. E funcionou, por um tempo, mas bastava eu voltar para o meu quarto ou caminhar sozinha por aí para me lembrar dele, compartilhamos muito momentos juntos então tudo fazia eu me lembrar dele e não ter ele ali doía mais do que eu conseguia expressar e sempre que sentia isso voltava para o trabalho.

O Doutor acredita que minhas habilidades estão ligadas diretamente às emoções que carrego — quanto mais intensas, mais forte me torno. Algumas delas eu já consigo acessar naturalmente, mas as mais poderosas vêm da dor, do amor, do medo.

Hoje, colocaremos a teoria à prova.

— Kuon, tem certeza disso? — a voz de Yuri me puxa de volta à realidade. Já adiamos muito.

Ela está preocupada. Claro que está. Mas isso é algo que eu preciso fazer.

— Sim — respondo com firmeza, enquanto prendo meu cabelo.

— Quer que eu avise o Yuka? — pergunta May, com uma sobrancelha arqueada.

— Não. Não conte nada a ele. Vamos só... fazer isso.

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