Um Mês Depois
Kuon
— Kuon, vamos tomar café. O Yuka e o Rika vão estar presentes dessa vez.
A voz da Yuri me desperta como uma onda gentil. Me levanto depressa, o coração acelerado só por saber que vou ver o Yuka. Parece tolo, mas... faz tanto tempo desde a última vez em que dividimos algo simples como um café da manhã. Só nós dois, falando bobagens, trocando olhares... sorrindo.
Sei que ele está ocupado. Que ele e o Rika estão cada vez mais perto de encontrar o Mamoru. Mas quanto mais perto chegam, mais longe o Yuka parece de mim. Ele se envolve tanto, se afasta tanto... que às vezes me pergunto se um dia ele volta inteiro. Ou se ele está se quebrando por dentro, aos poucos, nessa obsessão.
Ele começou a dormir menos ao meu lado. No início, dizia que era só até eu dormir. Mas percebi — ele esperava eu adormecer para sair. Achou que eu não notaria, mas notei. E não disse nada. Não quero atrapalhar, não quero ser mais um peso em tudo o que ele já carrega.
Mas... a verdade? Sinto falta. Uma falta absurda de sentir o calor dele ao meu lado, do modo como ele me puxava pra perto quando eu tremia à noite. Sinto falta até da sua respiração calma, dizendo em silêncio: "estou aqui".
E talvez eu seja injusta em esconder isso. Mas como dizer pra ele? Que o que me machuca agora não é mais o que o Mamoru fez comigo... e sim o que o Yuka deixou de fazer desde então? Que me dói mais esse silêncio dele, esse toque que nunca vem, esse cuidado contido... como se eu fosse quebrar?
Eu também fui designada a algo. Um estudo. Rika descobriu que eu consigo acessar algo dentro dos mascarados... e quer entender se isso pode ser expandido. Ajudar outros. Salvar outros. Eu topei. Porque se eu posso fazer alguma diferença, então preciso fazer. Mas escondo isso do Yuka. Ele surtaria. Diria que é perigoso — e talvez seja mesmo — mas é o que me resta. Essa é a minha parte na luta.
Ele luta com armas. Eu luto com o que tenho. E, no fundo, acho que faço isso também pra me lembrar que ainda sou útil... que ainda sou forte.
Quando chego ao salão, há rostos que se tornaram familiares. Pessoas que antes eu evitava. Agora, sorrio pra algumas delas, troco cumprimentos. Não é fácil. Nada foi. Mas eu estou tentando, e isso é o que importa.
Vejo o Yuka sentado. Ele parece cansado. Há olheiras sob seus olhos e a expressão rígida de sempre. Me sento ao seu lado, meu coração aperta de leve.
— Oi... Saiu cedo hoje, né?
Ele vira o rosto e me olha com uma ternura que quase me desarma.
— Sim, Kuon... Desculpa por isso. Mas eu juro que está quase acabando. Quando eu conseguir resolver... o que preciso resolver... vou ficar mais com você. Eu prometo.
Sua mão toca meu rosto com suavidade. Fecho os olhos por um instante. Me permito sentir. Mas quando os abro, ele já tirou a mão. Voltou a olhar pra frente. Pro prato. Como se não tivesse acontecido.
— Me desculpa — ele diz, seco.
— Yuka... não tem problema. Eu só...
— Yuka, e aí? Descobriram mais alguma coisa com o Rika? — um colega corta.
Mas Yuka me encara, ainda com o olhar fixo em mim.
— O que você ia me dizer, Kuon?
Sinto os olhares se virarem em nossa direção. Não quero cena. Não agora.
— Nada. De verdade. Vocês podem continuar.
Afasto o olhar. Finjo que como. Eles falam sobre pistas, mapas, possibilidades. Tudo sobre ele. Mamoru. Sempre ele. Não importa o quanto eu tente fugir... ele ainda está aqui, em cada conversa, em cada plano, em cada noite que passo sozinha.
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The Other World
FanfictionA história segue a estudante Kuon Shinsaki que encontra-se perdida em um novo mundo onde incontáveis arranhas céus estão conectados por pontes suspensas e figuras mascaradas matam sem misericórdia outros humanos que também estão lá. Ela irá enfrenta...
