Confusão e Desejo

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Sniper Mask

O som do chuveiro preenche o silêncio do apartamento, e sei que a jovem mulher está finalmente tomando banho no meu antigo quarto.

O que diabos estou fazendo? Eu deveria estar descansando, me preparando para o que vem a seguir. Em vez disso, estou aqui, lidando com essa garota de cabelos azuis que parece viver em um conto de fadas.

Ela acredita nas pessoas.

Mesmo depois de tudo o que passou, ela ainda tem fé.

Sinceramente, não sei o que ela tem na cabeça. Ela já deveria saber que esse mundo não é um lugar para ingenuidade. Me pergunto qual é o limite dela. O que precisa acontecer para que ela finalmente perceba que não existe bondade gratuita?

Solto um suspiro cansado e me encosto no sofá. Esse prédio é um dos lugares mais tranquilos em que já estive. Os apartamentos são pequenos, mas confortáveis. Era um refúgio só meu. Agora, tem outra pessoa aqui, no meu espaço.

Preciso esfriar a cabeça.

Um banho vai ajudar.

Depois que descansarmos, vou levá-la até as outras colegiais e seguir meu caminho. Preciso encontrar aquele garoto. Ele pode ter respostas sobre mim, sobre quem eu era. Será que eu tinha uma família? Será que eu era uma boa pessoa?

Não sei se a Kuon conseguirá convencer a outra garota de que eu não sou um inimigo. Afinal, eu tentei matá-la mais de uma vez. Mas talvez... talvez essa maluca de cabelos azuis consiga explicar para ela.

— Sr. Mascarado?

A voz suave me tira dos meus pensamentos. Viro o rosto e a vejo parada perto de mim. Seu cabelo ainda está úmido, e ela veste uma blusa grande que encontrou no guarda-roupa, o tecido fino caindo até a metade de suas coxas.

Seu cheiro é agradável. Sabonete fresco.

Ela tem noção do quanto está bonita agora?

Merda.

— Sr. Mascarado, está bem?— Ela se aproxima, a expressão preocupada.

Mulher insistente.

— Estou. Preciso tomar banho. Quero que fique no banheiro.

Ela congela.

E então, seu rosto explode em um vermelho intenso.

Espera.

O que foi que eu disse?

MEU DEUS.

Ela está cobrindo o rosto com as mãos.

— N-não! Eu quis dizer do outro lado da porta!— Tento me corrigir, mas já é tarde. — Se algo acontecer, se ouvir qualquer coisa estranha, me chame. Só isso!

Ela pisca algumas vezes antes de finalmente concordar, ainda completamente vermelha.

— Vem.

Levo-a até o banheiro no meio do apartamento e paro na porta.

— Fique aqui e não saia, entendeu? Qualquer som suspeito, me chame na mesma hora. Está me ouvindo mulher?

— EU SOU A KUON!

Fecho a porta, abafando a pequena explosão de raiva do lado de fora.

Solto um suspiro pesado e encaro meu reflexo no espelho. A cicatriz no meu rosto me encara de volta.

Não faço ideia de como a consegui.

Será que fui um soldado? Um lutador? Um criminoso?

Não sei.

E não saber me irrita.

Retiro a máscara e me jogo debaixo do chuveiro. A água quente relaxa meus músculos, lavando o cansaço acumulado. Eu estava precisando disso.

A Kuon parecia não tomar banho há dias, e ainda assim continuava cheirosa. Como isso é possível?

E então, sem aviso, sinto algo enrijecer entre minhas pernas.

Droga.

Minha cabeça lateja com memórias fragmentadas. Meu corpo jovem, minha mão deslizando por ele. Mulheres. Sexo. O toque quente de outra pessoa contra mim.

É por isso que estou assim?

Por causa da Kuon?

Nem pensar.

Ereção significa estar excitado. Pode ser aliviada por distração, contato com algo frio ou...

Eu não pedi explicação.

A voz na minha cabeça não poderia simplesmente calar a boca?

O problema não é entender o que está acontecendo comigo. O problema é que está acontecendo por causa dela.

Escuto um barulho alto dentro do apartamento.

O QUÊ?!

Saio do chuveiro, pego a toalha e amarro na cintura. A máscara volta ao rosto num piscar de olhos, e abro a porta.

Kuon está curvada na frente do banheiro.

— Que merda foi essa?

— Me desculpa...

Ela nem se move.

Seguro seus ombros e a forço a se endireitar.

Há um pequeno galo surgindo em sua testa.

O que essa garota aprontou agora?

Meu instinto é rir. Preciso me conter, mas é difícil.

— O que aconteceu? Eu mandei você não sair da porta.

— E-eu só... queria esquentar água para os meus pés...— Ela murmura, sem coragem de me encarar. — Estão doendo muito, e eu não quis atrapalhar seu banho... Fui pegar a panela, mas estava muito alto... Quando puxei, caiu na minha cabeça...

E então eu não consigo segurar.

Começo a rir.

— PARA! — Ela esconde o rosto com as mãos, furiosa.

Eu tento, mas é impossível.

— Vem.

Agarro-a levando até o outro cômodo e a sento no balcão da cozinha. Ela solta um pequeno ruído surpreso, sem tempo para reagir.

Abro a geladeira, pego uma bolsa de gelo e a pressiono contra o galo na testa dela. Kuon continua imóvel.

— Está tudo bem?

Ela só concorda com a cabeça, os olhos grudados no chão.

— Aconteceu mais alguma coisa?

Ela abre a boca para responder, mas hesita.

O que está escondendo?

— Você acha que sou estúpida?

A pergunta me pega de surpresa.

— Do que está falando?

— Eu sei que fiz algo errado, e me machuquei... Mas eu não sou criança. Eu me cuidei sozinha antes de você...

Ah, pelo amor de Deus.

Primeiro, ela desobedece. Depois, deixa uma panela cair na cabeça. Agora, quer me convencer de que é independente?

Eu poderia simplesmente dizer que ela está errada.

Mas...

Ela está tentando se provar.

Quer que eu veja nela algo mais do que uma garota fraca.

Respiro fundo.

Segurar essa bolsa de gelo contra sua testa é mais fácil do que segurar a paciência com ela.

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