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Sniper Mask

Abro os olhos e sou atingido pela luz intensa do quarto. Piscar não adianta — meus olhos ardem e meu corpo, ainda que desperto, parece relutar em entender o que está acontecendo. Meus dedos se movem com facilidade sobre uma superfície macia... uma cama?

Como isso é possível? A última lembrança que tenho é o desespero... a dor... a voz dela.

Meus olhos, já acostumando-se à claridade, varrem o ambiente. É um quarto amplo, silencioso demais. Estou deitado numa cama de casal, lençóis limpos, ar parado. Tudo parece... calmo. Mas essa calma não me alcança.

— Kuon?

Seu nome escapa da minha garganta como um sussurro desesperado. Me sento de supetão e, ao lado da cama, um espelho. Me aproximo. As marcas... as feridas... desapareceram. Meu corpo está limpo, inteiro — quase como se nada tivesse acontecido. Me sinto forte, saudável. Só uma pessoa poderia ter feito isso.

Então por que ela não está aqui?

Ouço a porta se abrir. Me levanto, alerta, preparado para atacar se for preciso. Mas quem entra não é o inimigo. É a Yuri. Ela fecha a porta atrás de si devagar, os olhos baixos, o corpo tenso.

— Yuri... — murmuro, confuso. — O que está acontecendo? Onde está a Kuon? Como eu vim parar aqui?

Ela apenas balança a cabeça, evitando meu olhar. Seus olhos se enchem de lágrimas e ela se abraça como se tentasse se proteger de algo invisível.

Me aproximo e seguro seus ombros, quase implorando:

— Me diga o que aconteceu. Onde ela está? Cadê a Kuon?!

Quando caminho em direção à porta, Yuri segura meu braço com força surpreendente.

— Ela não está aqui, Yuka...

— Como assim?

— Nós... nós não sabemos onde ela está — a voz dela falha. — Ela fez um acordo com aquele homem. Ele disse que salvaria você... salvaria todos nós, em troca dela. E ela aceitou. Depois que você foi curado, ela desmaiou. Ele nos trancou com você e... depois disso, desapareceu com ela. Não sabemos para onde ele a levou. Nada...

A dor nas palavras dela se mistura com o desespero nos meus próprios pensamentos. Isso não pode ser real. Não... não ela. Não minha Kuon.

— ONDE ELA ESTÁ, YURI?! — grito, mesmo sabendo que ela não tem a resposta.

Yuri chora. Incontrolável. E eu... eu sinto a fúria me consumir.

Agarro a cômoda ao lado da porta e a arremesso contra a parede. Ela se despedaça com estrondo.

— MERDA!

As lágrimas escorrem sem que eu consiga conter. Minhas mãos tremem. O peito aperta.

Ela não devia ter feito isso. Não por mim. Ele... aquele desgraçado... ele vai destruí-la.

— Eu vou atrás dela. Agora.

Ignoro o corpo trêmulo de Yuri enquanto saio do quarto. Ao passar pela porta, percebo que ainda estamos no prédio onde eu era mantido prisioneiro.

Por quê? Por que ainda aqui?

Mas não importa. Nada mais importa.

Entro numa sala onde várias pessoas estão reunidas. Reconheço dois rostos: May e... Rika, o irmão da Yuri? Ele está aqui?

Todos se levantam ao me ver. Olhares tensos, esperançosos. Não tenho tempo para eles.

— O que está acontecendo aqui? — minha voz sai firme, impaciente.

Yuri entra atrás de mim, enxugando os olhos.

— Estávamos esperando você acordar, Yuka. Você dormiu por uma semana inteira. Nesse tempo... nos preparamos. Meu irmão nos encontrou. Ele veio atrás do Mamoru, o homem que levou a Kuon. Reunimos sobreviventes. Como sou próxima de Deus, consegui convencer alguns mascarados a se juntarem a nós. Todos aqui são confiáveis. Estamos planejando como resgatá-la.

— Eu não me importo com planos, Yuri. Eu só preciso achá-la. Aquele desgraçado... ele deve ter...

Minha voz falha. Não consigo dizer. Não consigo sequer pensar no que ele pode ter feito.

— Eu sei... eu penso nisso o tempo todo. Mas se formos sem estratégia, será o fim. Ele tem seus seguidores... e o Anjo da Guarda. Um dos nossos aliados está em campo, tentando localizá-la. Ele foi quem nos trouxe até aqui. Vamos salvá-la, Yuka. Mas desta vez, com um plano que funcione.

— Vocês não deviam ter voltado. Deviam ter me deixado. Se tivessem feito isso, ela não...

— Você conhece a Kuon. Ela teria ido de qualquer jeito. Eu só não podia deixá-la ir sozinha. Ela ama você, Yuka. Ela trocou tudo por você sem hesitar.

Minhas mãos se fecham em punhos. Um sorriso dolorido escapa. Meu coração sangra. Ela é tudo.

— Ela é minha prioridade. E eu vou trazê-la de volta. Nem que eu tenha que destruir tudo nesse maldito mundo pra isso.

— Yuka, quero que conheça meu irmão, Rika. Ele quer falar com você. Mas antes... precisa se alimentar. Você ainda está fraco.

— Não quero falar com ninguém. Preciso ficar sozinho.

Viro-me em direção às escadas, decidido a alcançar o terraço. Preciso de ar. Preciso pensar.

Mas uma mão pousa em meu ombro.

— Você não entendeu o que eu disse?

Me viro bruscamente e dou de cara com Rika.

— Yuka... preciso falar com você.

— Falamos depois. Sem querer ser rude, mas... não me importo com o que você tem a dizer. A menos que envolva a Kuon, guarde pra si.

A expressão dele muda. Parece surpreso.

— Nunca imaginei... ver você assim. Apaixonado.

Minha raiva explode. Agarro-o pela gola da camisa.

— Considere isso um aviso: me deixe em paz.

Empurro-o com força e sigo até o terraço.

Lá em cima, o vento bate forte no meu rosto. O céu parece mais escuro do que nunca. A cidade se estende abaixo, um mar de concreto e incertezas.

Kuon...

Onde você está agora?

Meu coração está em pedaços só de imaginar o que ele pode ter feito com você.

Mas me escute — onde quer que esteja — eu estou vindo.

Espere só mais um pouco.

Você é forte. Sempre foi. E eu estou a caminho.

Nem que eu tenha que vasculhar prédio por prédio desse inferno de mundo. Eu vou te encontrar.

E quando eu te encontrar, ninguém mais vai tirar você de mim.

The Other WorldOnde histórias criam vida. Descubra agora