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Kuon está deitada sobre meu peito. Seu corpo encaixado no meu como se fosse o único lugar possível. Seus cabelos escorrem como um rio escuro sobre minha pele, espalhados, leves, serenos. Ela parece dormir em paz... mas não está. Eu sinto.

Não sei explicar, mas algo nela mudou. Está mais silenciosa por dentro, mais... apertada. Seus gestos continuam os mesmos — o toque, os olhares, os beijos que me desmontam por inteiro — mas tem algo escondido nos espaços entre essas coisas. Um silêncio desconfortável. Uma hesitação nos olhos. Como se ela estivesse tentando me manter distraído.

E está funcionando.

Porra... que tipo de homem eu sou, afinal? Me entrego tão fácil, cedo tão rápido. Ela me beija e eu esqueço tudo, todos os sinais, todos os alarmes. Como se bastasse o calor do corpo dela pra silenciar minha intuição.

Mas não dá mais. Eu conheço a Kuon. E se ela não vai me contar o que está escondendo, então vou descobrir por conta própria.

Sinto ela se mexer. Viro o rosto para ela.

A luz da manhã entra pelas frestas, desenha seu rosto em sombras suaves. Seus cílios longos, as bochechas coradas, os lábios entreabertos. Parece uma pintura feita à mão. Uma calma que não condiz com o que sinto em mim.

— Yuka?

Sua voz me alcança como um sussurro tímido. Ela toca meu rosto com dedos hesitantes, quase com medo da minha reação. Inclino a cabeça e beijo sua testa com a delicadeza que ela merece.

— Bom dia, dormiu bem?

Ela assente, mas seus olhos se enchem d'água de repente.

O quê?

— Kuon, o que aconteceu?

Me aproximo, toco seu rosto com o maior cuidado do mundo. Como se ela fosse feita de vidro e eu tivesse medo de quebrá-la. E, de certa forma, tenho mesmo.

— Nada. Eu só... estou muito feliz. Tive medo de acordar e não ver você aqui comigo de novo...

Essas palavras atravessam meu peito como estilhaços. Ela realmente pensou que eu fosse embora. De novo. Que idiota eu fui em tê-la deixado sem nenhuma explicação, em tê-la abandonado no pior momento da vida dela. Tudo por causa de um plano. Um maldito plano que parecia certo na teoria, mas que custou demais pra ela.

— Me perdoa por isso, não vai se repetir.

— Promete pra mim?

Aquela voz frágil. Aqueles olhos cheios de sentimento. Como é que eu poderia dizer não?

— Prometo.

Beijo sua testa outra vez, e ao vê-la sorrindo, como se aquilo fosse suficiente pra reconstruir o mundo, sinto o chão sob mim ceder. É por ela que continuo tentando ser melhor.

— Quer comer algo?

— Sim, estou morrendo de fome.

Normalmente, a Kuon não come muito de manhã. Mas ver o apetite dela voltar é um bom sinal. Ou pelo menos, assim eu acho...

...

Estamos reunidos ao redor da mesa. Lena entre nós, Yuri, Rika, May... até alguns dos nossos aliados estão ali, tentando manter um clima agradável no meio de toda essa bagunça que é a vida. Histórias, risadas tímidas, uma sensação estranha de normalidade.

Até que alguém resolve perguntar:

— O que vão fazer com aquele cara?

O silêncio toma conta da mesa.

Meu humor afunda. A simples menção dele — aquele desgraçado — faz meu estômago revirar. Como fomos capazes de trazê-lo pra cá e ainda mantê-lo vivo?

— Ainda estamos interrogando — respondo com dificuldade. — O doutor cuidou de alguns ferimentos. Estamos tentando arrancar o que der dele.

E então:

— Meu papai?

A voz pequena. O olhar molhado.

Todos olham para Lena. A garotinha parece prestes a desabar.

— Meu papai tá machucado?

Kuon tenta conter a reação da menina, mas ela está além do controle. As lágrimas escorrem, e o choro explode como uma represa rompida.

— Quero ver o papai. Eu quero ver ele...

É como levar um soco no estômago. Como se estivéssemos sendo julgados ali mesmo. Mas não é sobre um pai distante. É sobre um monstro disfarçado de pai. E essa criança... essa criança não sabe disso ainda.

— Rika... será que tem como levar ela até ele? Só pra ela ver. Prometemos isso há dias...

Sei que isso custa pra Kuon. Ela se apegou à Lena. E justamente por isso, não suporta vê-la sofrendo.

— Acha uma boa ideia, Yuka?

Rika me pergunta. Mas eu não tenho mais cabeça pra decisões lógicas. Só sei que estou com raiva, preocupado, e frustrado.

— Confio na sua decisão, Rika.

Ele se levanta, dá ordens. Vão preparar o "pai" da Lena para o encontro. E eu fico parado, digerindo tudo isso. Quando Lena vira pra Kuon:

— Irmã Kuon, eu vou ver o papai. Preciso me arrumar pra ele ver que eu tô bem. Você pode me ajudar?

Kuon confirma e a acompanha, mesmo visivelmente abalada.

Quando tento puxar assunto com Yuri, tentando arrancar alguma coisa que possa me ajudar a entender o que está acontecendo com a Kuon, May se antecipa e a arrasta dali com um olhar fulminante pra mim.

Filha da puta. Estão todos escondendo algo de mim?

Olho pro prato, mas perdi completamente a fome.

Me levanto e vou atrás da Kuon.

Quando entro no quarto, ela está saindo do banheiro e começa a vomitar.

Corro pra segurar seus cabelos. O cheiro ácido sobe, e o som dela se afogando no próprio mal-estar me deixa em alerta máximo.

— Yuka... se afasta... eu...

— Para com isso. Eu tô aqui. Já vai passar...

Seguro seus cabelos e acaricio suas costas. Fico ali até ela terminar, até o corpo dela ceder de exaustão.

— Lena, pega um copo d'água pra irmã Kuon, por favor.

Ela corre. Volto meu olhar pra Kuon. Ela parece prestes a desmaiar.

— Kuon? O que tá sentindo?

— Não é nada. Só essa situação...

— Vamos ao doutor.

— Não, eu...

— Não foi um pedido. A gente vai agora. Entendeu?

Ela apenas assente, derrotada. Eu odeio falar assim com ela. Mas não tenho escolha. Preciso fazer algo por ela, mesmo que ela não queira.

A Lena volta com o copo e entrega com um cuidado quase adulto.

— Lena, vou levar a irmã Kuon ao doutor. Vou pedir pra irmã Yuko ficar com você, tudo bem?

— Ela tá bem... e o bebê?

O mundo congela.

O tempo para.

Eu olho pra Lena. Depois pra Kuon. E o silêncio entre nós pesa como uma tonelada.

— Que bebê, Kuon?

Ela me encara por um segundo. E então, como se o corpo não aguentasse o peso da verdade, desmaia nos meus braços.

A seguro antes que ela caia.

— Lena, vem com a gente. A irmã Kuon vai ficar bem... eu prometo.

Mas por dentro... eu não sei mais de nada.

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