Kuon
A voz distante me chamava de algum lugar escuro. Aos poucos, a névoa na minha mente começou a se dissipar. Pisquei algumas vezes, confusa, até que uma luz suave atingiu meus olhos. O rosto do Doutor surgiu embaçado à minha frente, e um cheiro forte e enjoativo preencheu minhas narinas. Franzi o cenho, instintivamente afastando o frasco que ele segurava.
— O que aconteceu...? — murmurei, a voz arrastada.
— Como está se sentindo? — ele perguntou com gentileza, me ajudando a me sentar.
— Um pouco tonta... está tudo bem? — minha cabeça latejava, e o peso do corpo parecia maior do que o normal.
O olhar do Doutor era cuidadoso, atento, quase paternal. Eu sabia que minha aparência devia estar um caos.
— Está sim. O Yuka me disse que você estava vomitando antes. Isso é completamente normal, então tente não se preocupar.
Yuka?
Meu coração deu um pulo no peito.
Não! Não! Não!
— Podemos ver algo para aliviar o enjoo... — ele começou, mas eu o interrompi.
— Ele... ele sabe?
O Doutor respirou fundo, tentando manter a calma que eu havia perdido.
— Kuon, se acalme. Ficar assim não faz bem pra você.
Tentei me levantar da maca com as mãos trêmulas, mas ele me conteve.
— Onde ele está? Eu preciso falar com ele... preciso explicar tudo isso!
— Ele saiu. Depois que eu lhe garanti que você acordaria em poucos minutos, ele levou a Lena. Deve voltar logo.
— Por favor, me deixe ir atrás dele... eu não posso deixar as coisas assim...!
As lágrimas começaram a rolar. O desespero crescia no meu peito como uma onda prestes a me engolir.
— Eu não estou pronta pra perder ele. Eu não quero... Eu preciso dele agora. Preciso me desculpar... preciso que ele entenda...
— Kuon, se acalme, por favor. Isso não faz bem pra você nem pro seu bebê.
Minhas mãos apertavam os lençóis da maca com força. Tentei inspirar fundo, mas o ar não vinha. Meu peito ardia, meu coração disparava como se quisesse fugir do meu corpo. Eu não conseguia respirar.
— Deite, rápido. Você está tendo uma crise de ansiedade. Vai ficar tudo bem, mas preciso que tente se acalmar. Confie em mim.
Deitei, obedecendo, mas minha mente estava em pânico. Eu sentia as mãos do médico pressionando certos pontos no meu corpo, mas não conseguia me concentrar. Só conseguia pensar nele. Onde ele estava agora? O que ele pensava de mim? Será que já me odiava?
Não era assim que eu queria que ele descobrisse. Não era assim que eu queria que as coisas acontecessem.
Yuka...
Como ele vai lidar com isso? Com um bebê... e com a chance de não ser dele?
De um monstro que ele odeia...
— Kuon, me escute — a voz do Doutor era mais firme agora —, ansiedade em excesso pode prejudicar a saúde do seu bebê. Você entende? Pode levar a um aborto ou parto prematuro, por conta da pressão arterial. Por favor, tente se acalmar.
Meu mundo desabou com aquela frase.
— Eu... posso estar fazendo mal ao meu bebê... porque não consigo controlar nada... nem minhas emoções? — minha voz saiu falha, embargada de culpa.
— Eu não sei como controlar isso... me desculpa... — sussurrei, cobrindo o rosto com as mãos.
Eu estava exausta. De tudo.
Nada dentro de mim parecia estável. Ainda não me curei de tantas feridas... me sinto frágil, quebrada, sensível. E a gravidez parece ter multiplicado isso.
Será que eles acham que isso é fraqueza?
Será que... eu sou fraca?
VOCÊ ESTÁ LENDO
The Other World
FanfictionA história segue a estudante Kuon Shinsaki que encontra-se perdida em um novo mundo onde incontáveis arranhas céus estão conectados por pontes suspensas e figuras mascaradas matam sem misericórdia outros humanos que também estão lá. Ela irá enfrenta...
