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Sniper Mask

O céu já tingia os prédios de tons alaranjados quando me dei conta de quanto tempo estive parado aqui, no terraço, encarando o horizonte como se fosse possível adivinhar onde ela está. Kuon... Em qual desses malditos prédios você foi levada? O que estão fazendo com você? O que você está sendo forçada a suportar?

Droga...

Por mais que eu tente acalmar a mente, respirar fundo e pensar racionalmente, é impossível. Um turbilhão de imagens cruéis me assombra. Minha cabeça gira como uma arma engatilhada, pronta para disparar contra qualquer pensamento que me tire a esperança — mas eles continuam vindo, um a um.

Estou enlouquecendo. Não posso mais ficar aqui parado, esperando um barulho, um grito, um sinal de vida qualquer. Essa espera está me matando devagar. Eu só quero salvar ela... Só isso. Que se dane o plano, que se dane a lógica. Se for preciso vasculhar cada prédio desse maldito lugar, um por um, então que assim seja.

— Yuka?

A voz me faz virar, irritado, mesmo antes de ver quem é. Claro... é ele de novo.

O irmão da Yuri.

Esse cara simplesmente não desiste? Ele parece saber tudo sobre mim, meu passado, minhas falhas... E, ainda assim, insiste em se aproximar como se isso significasse algo agora. Se ele não tem notícias da Kuon, então não temos o que conversar.

— Já disse que não quero papo. Eu só...

— Encontramos ela.

As palavras dele me atingem como uma bala — mas dessa vez, no coração. Fico em silêncio, pasmo, como se meu corpo não tivesse absorvido ainda o que ele acabou de dizer. Meu coração dispara. É como se o mundo parasse por um segundo.

— Vamos nos preparar para buscá-la. Só vim avisar.

Não pode ser... É real?

Um sorriso escapa antes mesmo que eu perceba. Sinto os olhos marejarem e, sem pensar, me aproximo e o abraço. Um gesto simples, impulsivo — mas carregado de tudo que estou sentindo.

— Obrigado...

Ele parece surpreso, mas não recua. Apenas retribui o gesto, silencioso.

— Venha. Vou te explicar os detalhes. Não temos tempo a perder.

***

Levamos um dia e meio. Caminhando sem parar. Sem dormir. Sem reclamar. O caminho foi longo — 180 quilômetros de inferno. Mas eu nem sinto o cansaço. Cada passo que dou é um a menos entre mim e ela. E é só isso que importa.

O plano do Rika foi arriscado, mas certeiro. Ele sabia que os aliados do Mamoru voltariam para recolher os rastros deixados às pressas. Um dos mascarados apareceu. Um dos nossos o seguiu. E foi assim que chegamos aqui.

O prédio. Cercado. Lotado de mascarados armados até os dentes. É evidente que não querem ninguém entrando — ou saindo. Mas essa prisão vai cair hoje.

Me abaixo e ajusto a mira. Vasculho cada janela, procurando um vislumbre dela... Nada.

— Sem atirar, Yuka — diz Rika, me lembrando do plano.

Assinto, mantendo os olhos no alvo.

— Eles não vão facilitar. Mas todos sabem o que fazer?

Vejo os outros confirmarem. Não somos muitos — May, Yuri, Rika, duas mascaradas e quatro humanos aliados. Um deles é um médico, um Próximo de Deus. Nem sabia que existia esse tipo de gente até pouco tempo atrás. Agora parece que brotam do chão.

O plano é simples: distração pela frente, invasão pelos fundos, cobertura ao redor. Simples, mas arriscado. Rika é bom nisso — liderança parece natural pra ele. E, sinceramente? Se ele não estivesse aqui, estaríamos ferrados.

— Aguente só mais um pouco, meu amor... Estou chegando.

— Vamos nos dividir. Assim que o sinal for dado, entramos — ordena Rika.

Eu, Yuri, May e ele nos posicionamos. Esperamos. A tensão é insuportável. Então, o som: um disparo. Todos os mascarados se viram, distraídos.

Atiro. Dois caem. Os outros se movimentam e nosso grupo avança. Yuri chega à porta.

— Espera! — Rika a alerta. — Quando atirarem de novo, arrombe. Cuidado com o barulho.

Ela faz exatamente isso. A porta cede sem alarde. Estamos dentro.

— Essa foi a parte fácil — diz Rika. — Agora vem o mais difícil: encontrar a Kuon. Precisamos de um humano, os mascarados não vão colaborar.

— E aquela sua "amiga", Yuka? — pergunta May, com um olhar carregado de dúvida.

Ela só pode estar falando da Pena. Aquela traidora...

— Sem chance. Confiar nela seria dar um tiro no próprio pé.

— Tudo bem — responde May, sem insistir.

— Faremos o seguinte — continua Rika. — Yuka, Yuri e eu abrimos caminho. May, você vai procurar a Kuon. Corpo a corpo é com você.

— Não! — explodo, instintivamente. — Eu preciso vê-la. Eu...

May se aproxima, segura meu braço com firmeza.

— Yuka, confie em mim. Eu prometo que vou encontrá-la e trazer até você. Mas agora, o melhor que podemos fazer é seguir o plano. Por favor.

Os olhos dela são firmes. Ela acredita no que está dizendo. Respiro fundo. Engulo o medo.

— Assim que achar... me chame.

Ela assente e se afasta. E eu fico ali, parado por um segundo, antes de ouvir a voz de Rika:

— Vamos, Yuka.

Endireito a postura. Preciso focar. Preciso confiar. Ela vai trazer a Kuon de volta. Eu sei que vai.

Mas antes disso...

— O Mamoru é meu. Entenderam? Ninguém encosta nele. Eu tenho... assuntos pendentes.

Os irmãos me olham, surpresos, mas não questionam. Sabem que não estou brincando.

Mamoru vai pagar. Pela perseguição. Pela dor. Pela Kuon.

Ele é um homem morto.

***

Passamos um bom tempo ali dentro. Nenhum sinal do Mamoru. Nenhum sinal do anjo que o seguia. Covardes. Abandonaram o próprio time. Mas isso não basta.

— Ele não está aqui, Yuka. Vasculhamos tudo. Sumiu.

— Não é o suficiente — respondo, ofegante. — Eu preciso ach...

— YUKAAAAA!!!

É a May.

Quando me viro, vejo ela ao longe, correndo. As mãos... cobertas de sangue. O mundo para.

— Kuon?

Corro como nunca corri antes. Cada batida do coração ecoa nos meus ouvidos.

— May! Cadê a Kuon?! Esse sangue... de quem é?

Ela me encara. Olhos marejados. A respiração falha.

— Yuka... é a Kuon...

É como se o mundo desabasse sob meus pés.

Tudo fica mudo. Tudo se dissolve. E eu...

Eu não consigo me manter em pé.

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