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Yuka

Eu vou enlouquecer nesse maldito lugar.

Não é a falta de ar, de comida ou até mesmo de segurança. É ela.
Mesmo a quilômetros de distância, ela ainda consegue me dominar. Me tirar do controle. Me fazer sentir como se eu fosse explodir de dentro pra fora.

— Irmão?

A mão do Rika aperta meu ombro, tentando me ancorar na realidade. Mas tudo que eu sinto é o peso do que ela fez.

— Você sabe o que ela fez? — disparo, encarando ele como se ele tivesse culpa de algo.

— Não... mas tenho certeza que a Kuon não... — ele começa.

— Ela se arriscou sem necessidade, Rika! Ela podia ter morrido! Ela quase...

Ele me puxa bruscamente, obrigando-me a encarar seus olhos. Aqueles olhos calmos que me irritam ainda mais quando tudo dentro de mim está em chamas.

— Ela está bem, Yuka. A Yuri estava com ela. Elas sabem se cuidar. Então, respira. Confia.

Confia.
Se ele soubesse o que eu vi...
Se ele sentisse o que eu senti...

— Relaxar? Eu... eu jamais me perdoaria se... — a voz falha, engasgada com a frustração. — Isso está me matando, Rika. Eu não achei que fosse demorar tanto.

— Eu sei. Mas estamos perto. A base do Mamoru está próxima. Só mais um pouco, Yuka. Só mais um pouco e isso acaba.

Fecho os olhos e respiro fundo. Tento ignorar a dor latejante no peito, o vazio insuportável da ausência dela. Já perdi as contas de quantas vezes pensei em abandonar tudo e voltar. Só ver ela. Só uma vez.

Mas eu sei que ela está chateada. Que não quer falar comigo. Que me culpa pela forma como fui embora. Eu também me culpo. Conheço cada detalhe do olhar dela. Eu vi o modo como ela me evitou nas últimas ligações.

— Está bem, Rika... — murmuro, exausto.

— Afinal, o que foi que ela fez que te deixou assim?

Começo a contar. Sobre o sonho, sobre como a vi, sobre o que senti. Falar em voz alta é como aliviar um pouco do peso. Como se confessar tirasse parte da culpa das minhas costas.

— Mas ela... — Rika hesita.

— Sim. Ela consegue. Ela trouxe um anjo de volta. Mas isso destrói ela por dentro, Rika. E eu não sei o que isso vai causar. Não sei se tem um limite. Mas eu... eu não quero que ela se machuque.

Ele fica em silêncio por alguns segundos, absorvendo tudo.

— A Kuon é incrível. Talvez isso seja a chave pra tudo, Yuka. Talvez seja assim que os mascarados possam voltar a ser humanos. Viver em paz. Você entende o que isso significa?

Merda.

Ele não entende. Ele nunca vai entender.
Ele está pensando no mundo, na paz, em redenção.
Mas eu? Eu tô pensando nela.

Se pra salvar o mundo ela tiver que se sacrificar, então que o mundo se exploda.

— Eu não me importo com isso, Rika. Pensamos diferente. Não insista nesse assunto.

— Yuka...

— Vamos focar na missão. Estamos perto. Não quero discutir.

O silêncio dele é pesado. Mas necessário.

Só quero isso acabado. Só quero voltar pra ela.
E então, seremos só nós dois. De novo.

— RIKA! YUKA! ACHAMOS ELE!

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