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Sniper Mask

Kuon caminha silenciosamente ao meu lado, passos leves como se cada centímetro do caminho estivesse carregado de pensamentos. Sei que sua mente deve estar um caos. E no fundo... a culpa é minha. Eu devia ter sido mais claro. Devia ter explicado tudo desde o início.
Ela já demonstrou antes como se sente em relação à Yuri. E mesmo assim, na hora, eu simplesmente agi por impulso. Idiota. Um completo idiota.
A verdade é que, se eu estivesse no lugar dela, também me sentiria traído. Afinal, quem imaginaria que Yuri e eu somos irmãos? Até eu ainda estou tentando digerir isso.

— Kuon... — minha voz sai mais baixa do que eu esperava. — Me desculpa por antes. Eu devia ter esclarecido tudo, não queria que você ficasse confusa, muito menos magoada.

Ela balança a cabeça lentamente.

— Está tudo bem, Yuka. De verdade... acho que eu também exagerei um pouco...

— Não! — interrompo com firmeza, parando os passos. — Você não exagerou em nada. Se fosse ao contrário, você sabe que eu teria reagido muito pior.

Vejo um pequeno sorriso se formando no canto dos seus lábios. É quase imperceptível... mas está lá.

— Como você está se sentindo? — pergunto, tentando aliviar o clima.

— Um pouco cansada... mas bem. E você?

Eu me forço a lembrar: ela acabou de passar por algo terrível. Ainda está machucada, por dentro e por fora. Precisa de tempo, descanso, cuidado. Não posso simplesmente tratá-la como se nada tivesse acontecido.

— Vamos encontrar um lugar para você descansar — sugiro.

Mas antes que eu possa dar outro passo, sinto sua mão segurar suavemente a manga da minha camisa. Olho pra ela, surpreso.

— Yuka... O que você queria me dizer antes? Você parecia nervoso, quase ansioso.

Seus olhos me atravessam como se enxergassem cada pensamento que tentei esconder. Como se vissem tudo — até o que nem eu compreendo direito.

— Eu... não era nada demais — minto.

— Me diga, por favor.

Respiro fundo. Olho para o rosto dela — curioso, confuso, doce. Seus olhos estão mais brilhantes do que nunca. Como posso dizer algo assim pra ela? E se ela me olhar diferente? Se recuar?

— Você lembra... do dia seguinte em que nos conhecemos? Quando estávamos naquele apartamento e você me fez várias perguntas que eu não consegui responder?

— Lembro sim... — ela franze o cenho. — Por quê?

— Bom... — dou um passo em direção a ela, nervoso. — Olá, eu sou Yuka Makoto. Estou aqui há alguns meses... e... tenho 26 anos agora.

O silêncio que segue é breve... mas intenso. Então, para minha surpresa, vejo seu rosto se iluminar. E logo em seguida, ela se aproxima, envolve meus braços com os dela e encosta a cabeça no meu peito.

Fico paralisado.

— Kuon...? Tá tudo bem?

— Eu me lembro desse dia. Quando falei aquilo, era porque queria que a gente se conhecesse melhor, queria que ficássemos próximos... — sua voz é um sussurro abafado contra meu peito. — E agora estamos aqui. Mesmo depois de tudo, ainda mais próximos do que eu poderia imaginar.

Sinto meu coração acelerar.

— Você não me acha... velho demais pra você?

Ela ri baixinho, depois se afasta só o suficiente para me encarar.

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