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Estamos a poucos minutos do nosso antigo esconderijo.

Faz meses desde que parti daqui... e sequer olhei para trás. Parte de mim queria acreditar que as coisas estariam do mesmo jeito, paradas no tempo. Mas outra parte, mais realista, sussurra que não. Que ela mudou. Que depois de tudo que passou, depois de tudo que eu fiz... não teria como ser diferente.

Estou nervoso. Com medo, talvez. Medo de encarar seus olhos de novo.

Kuon... eu estou voltando.

Só não achei que voltaria arrastando essa desgraça comigo. Se fosse por mim, ele teria sido enterrado naquele beco imundo onde o encontrei. Mas a Yuri contou tudo pro Rika. E, por mais que tenha doído saber que a Kuon me escondeu isso — e que a Yuri acobertou — eu conheço bem as duas pra entender os motivos. Mas entender não impede a mágoa.

Mesmo assim... tudo isso parece uma piada cruel.

Esse maldito... tem uma filha.

Uma filha. Uma garota. Como algo tão puro poderia vir de alguém como ele? Como esse monstro pode ter gerado vida? A cabeça gira com tantas perguntas, e o peito aperta de raiva contida. Eu só queria acabar com tudo. Mas agora... agora tem uma criança. E eu não sei o que fazer com isso.

— Anda.

Puxo a corrente que prendi no pescoço dele. Arrasto-o como se fosse um cão. Dou a ele apenas o suficiente pra mantê-lo vivo durante a viagem. Não por compaixão. Por necessidade.

O Yuka de antes jamais imaginaria tratar outro ser humano assim...

Mas isso... isso não é humano. É escória. Um parasita.

— Yuka, pegue leve, ou ele vai morrer antes de chegarmos lá — Rika fala atrás de mim, a voz calma, mas firme.

— Seria melhor pra todo mundo se isso acontecesse.

— Ainda preciso de informações. Já conversamos sobre isso. Estamos quase no acampamento. Ele tá imundo, coberto de sangue seco, cheio de marcas roxas... você o torturou todas as noites. Não podemos chegar com ele nesse estado.

Aperto a corrente com mais força, só de pensar na chance de ele escapar.

— Ele não vai a lugar nenhum. Olha o estado desse lixo. Mal consegue ficar de pé.

Chego perto dele. Seguro seu rosto com força, forçando-o a me encarar. Ele mantém os olhos no chão.

— Se você ousar fugir, eu juro... vou caçar você até o inferno. E vai implorar pra voltar aos dias em que só te bati.

Ele treme. Eu vejo. E não sinto nada.

Nada.

— Me responde, porra!

— S-sim... mestre...

A palavra dele ecoa dentro de mim. Algo se contorce em minha barriga — não sei se é satisfação ou nojo de mim mesmo. Talvez os dois.

É estranho. Ver esse verme se rebaixar, sentir um gosto amargo de justiça pervertida. Como se, humilhando-o, eu fizesse ele sentir um milésimo do que a Kuon sentiu.

Isso me torna igual a ele?

Entrego as correntes a um dos homens do Rika. Caminho com meu irmão até uma parte mais afastada. O silêncio entre nós pesa mais do que os passos.

— Eu não reconheço você — ele diz de repente.

Essas palavras martelam minha mente. Tenho pensado nisso ultimamente. Sobre o que me tornei.

— Também não me reconheço, Rika. Nunca achei que viveria isso. Nada disso.

— Eu não quero que você perca sua humanidade de novo.

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