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Sniper Mask

Eu sinceramente não sei há quantas horas estou aqui. Se já anoiteceu ou se ainda é dia, se passaram minutos ou horas. O tempo se torna uma ilusão quando não se pode ver o céu, e a única pista da passagem dele vem da fraca luz que escapa por uma brecha na porta. Acompanhada pelas sombras daqueles que me fizeram prisioneiro, essa luz me lembra, de forma cruel, que ainda estou aqui.

Eles foram... "hospitaleiros", digamos assim. Receberam-me com gentileza e consideração enquanto tentavam extrair qualquer informação sobre ela. Mas tudo em vão. Estou algemado a uma cadeira, com as mãos para trás e os pés presos. Além disso, correntes apertam meu torso, impedindo qualquer movimento brusco. Só que eles não entenderam algo essencial: não importa o que façam comigo, eu jamais falarei sobre ela.

Não estou ao lado dela agora, mas ainda posso protegê-la. Se tudo que me resta é garantir seu nome em silêncio, então assim será.

Droga. Como eu sinto sua falta.

Sinto falta do cheiro doce de seus cabelos, do brilho em seus olhos quando ela fala comigo, do calor do seu corpo próximo ao meu. Essa ausência é pior do que qualquer tortura que possam me infligir.

Algo escorre pelo meu rosto. Sangue, provavelmente. Merda. Tento me mexer, mas cada mínimo movimento aciona uma sinfonia de dores pelo meu corpo. Cortes superficiais ardem a cada lufada de vento, mas a verdadeira agonia está no meu tórax. Cada respiração parece um punhal atravessando minhas costelas, e, pelo tipo de dor, algumas delas estão quebradas. Se alguma perfurou um órgão, não vou durar muito tempo.

Mas eu não quero morrer, não posso morrer aqui.

Já desejei isso antes, mas isso foi antes de conhecê-la. Ela mudou tudo. Agora, só quero mais tempo ao seu lado.

Mesmo no meio dessa merda toda, só consigo pensar em Kuon. Será que ela está bem? Eu sei que ela deve estar sofrendo, mas precisa ser forte. Ela e as outras. Só quero que estejam a salvo. Minha vida? Pouco importa. Ironia do destino: matei tantos como mascarado e agora vou morrer pelas mãos de um.

Não vou deixar que isso aconteça tão facilmente.

Uma tosse violenta me sacode, e o gosto amargo do sangue enche minha boca. Cuspo no chão, sentindo a garganta queimar. Não posso desistir agora. Ainda não.

A porta se abre, e a luz forte me cega por um instante. Ele.

Aquele babaca está aqui novamente.

Depois de tudo, será que ele ainda não percebeu que não vai me fazer falar?

— Está confortável, Sniper?

Ele entra, fechando a porta atrás de si, e caminha até a janela. As cortinas são abertas, revelando que já é noite.

— Eu esperava mais das suas amiguinhas. Achei que fariam algo mais grandioso.

Ele se aproxima e, sem cerimônia, senta-se no meu colo. Se eu pudesse, arremessaria esse desgraçado pela janela.

— Já disse que está perdendo tempo. Elas **não** virão. Quantas vezes preciso repetir qu...

Disparos.

Meu sangue gela.

Não.

Não, não, não.

Que não seja Kuon.

Qualquer outro grupo pode ter invadido, mas não ela. Eu não quero esse homem perto dela. Não posso nem imaginar o que ele poderia fazer com ela.

— Falou cedo demais — ele diz, sorrindo. — Vou receber nossas convidadas. Te chamo para nossa pequena confraternização.

Não!

Luto contra as correntes, puxo, forço, tento me soltar de qualquer maneira, mas é inútil. Maldição!

Ele sai, e o silêncio se instala.

Mas agora, esse silêncio é pior.

Kuon pode estar do outro lado dessa porta, e eu não posso protegê-la.

Pela primeira vez em muito tempo, eu sinto medo.

Medo de perder a única voz que me acalma.

Medo de nunca mais sentir o carinho que ela me dá, de formas que nem precisa dizer.

Medo de que eu tenha demorado demais para perceber o que realmente sinto.

E então eu ouço.

— YUKA!

A voz dela. Kuon.

Eu a reconheceria em qualquer lugar, em qualquer situação.

Ela precisa de mim.

— SAIA DAQUI! VÁ EMBORA!

Foda-se meu corpo, foda-se a dor. Ela precisa de mim.

Eu preciso sair daqui.

Respiro fundo, aperto meu polegar com força e, rangendo os dentes, o desloco. A dor me atravessa como um raio, mas eu não hesito. Puxo as algemas, forçando minha mão ferida por entre o metal apertado. A pele rasga, mas não me importo. Só preciso chegar até ela.

Ouço passos.

A porta se abre.

Pena Branca.

— O que eles fizeram com você, meu amor? Vou tirar essas correntes, me perdoe por não ter vindo antes...

Ela corre até mim e começa a destravar os cadeados.

Filha da puta.

O último cadeado estala e, no instante em que as correntes caem, agarro seu pescoço e a pressiono contra a parede.

— Onde ela está?

— S-Sniper... está... me machucando...

Eu aperto ainda mais.

— Estou pouco me fodendo pra isso. Fale! Ou eu te mato.

O ódio me consome. Se não fosse por ela, Kuon não estaria correndo perigo.

— Pena... você poderia ter feito o que quisesse comigo. Mas colocar a única pessoa que me importa nesse mundo em risco? Isso eu nunca vou te perdoar.

Seus olhos azuis brilham com lágrimas, e ela começa a chorar. Eu a solto. Seu corpo desaba no chão.

— Eu te amo tanto... Por que você não entende? Eu fiz tudo por você! Você me amava!

— Eu nunca te amei.

Seus olhos se arregalam.

— Isso nunca foi amor, Pena.

Ela cambaleia e, num impulso, se lança sobre mim, agarrando-me. Meu corpo é sacudido pela dor. Tosses violentas me dobram, e sinto o sangue quente escorrendo da minha boca.

Pena se afasta, pálida. O pavor estampado no rosto.

Ela sabe.

Sabe que eu não tenho muito tempo.

Eu ignoro isso.

Empurro-a e cambaleio até a porta. Cada passo exige mais força do que eu posso dar.

Mas eu não posso fraquejar agora.

Ela está perto.

Preciso...

Meus joelhos cedem, e o mundo escurece ao meu redor.

Não.

Eu não posso morrer agora.

Preciso encontrá-la...

The Other WorldOnde histórias criam vida. Descubra agora