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Kuon

Ver o Yuka depois de tanto tempo... Eu achei que estava preparada. Me disseram, avisaram, repetiram várias vezes que ele estava voltando, que logo estaria aqui, mas nada disso me preparou. Nada me preparou pra esse turbilhão que tomou meu peito no instante em que ele ficou parado ali, diante de mim.

Ele está bem. Ele está aqui. Vivo. E os meus pés parecem flutuar, minha cabeça gira, meu coração aperta e eu sinto como se estivesse me desmanchando. Tocar nele, sentir o cheiro dele, ouvir a voz... Eu não sabia o quanto precisava dele até esse momento. Eu... estava me segurando com os pedaços que restaram de mim, e agora que ele voltou, tudo que eu quero é me perder nos braços dele e esquecer que o mundo existe.

Mas não posso.

Porque dentro de mim carrego um segredo. Um que cresce a cada dia e que me assusta mais do que qualquer inimigo que já enfrentei. Estou grávida. E ninguém contou a ele. Por minha escolha.

Todos concordaram em respeitar meu tempo. Me disseram que essa era uma decisão só minha. Que enquanto eu não me sentisse pronta, ninguém falaria nada. Mas é difícil me sentir forte quando tudo ao meu redor está desmoronando. Eu sei que estou sendo egoísta... fraca... Mas não posso. Não ainda. O médico foi claro — os três primeiros meses são delicados. Ainda é cedo. Ainda posso... perder.

E se isso acontecer, se eu perder esse bebê... como vou olhar nos olhos dele depois de contar? Ou pior, se ele duvidar que o filho é dele? Se ele se afastar de mim? Eu não suportaria. Quero ele. Quero meu bebê. Quero os dois, mesmo sabendo que talvez eu tenha que escolher. E isso me destrói.

Então, quando o vejo se agachar diante da Lena, minha mente se obriga a focar no presente.

— Você sabe quem eu sou, Lena?

Ela me olha de relance antes de olhar pra ele, os olhinhos castanhos atentos e inocentes.

— Namorado da irmã Kuon?

Yuka sorri, e aquele sorriso, por um instante, me transporta pra uma época mais simples. Uma época em que nós dois éramos só nós dois.

— Pode-se dizer que sim...

— Não entendi...

Ela olha de um pra outro, franzindo o cenho. E eu vejo nele o esforço que faz pra não rir.

— Ela é o amor da minha vida. Então, o que você acha que somos?

Lena sorri, envergonhada, e cobre o rosto com as mãos.

— Que brega! O senhor parece o meu papai...

E naquele instante, o sorriso do Yuka se apaga. É como se o ar sumisse do ambiente. O peso da realidade volta a esmagar meus ombros, e eu dou um passo à frente, instintivamente colocando a mão na cabeça dela.

— Não diga nada, Yuka... por favor.

Porque sei o quanto aquilo deve doer. Porque eu também escutei Lena falar com carinho de um pai que não existe. De um homem que nunca conheceu. De um monstro que a marcou.

Yuka se levanta devagar, sua expressão tensa, mas controlada. Ele não diz nada. Apenas respira fundo. Eu sei o quanto isso custa pra ele.

— Vou procurar o Rika. Precisamos conversar.

Mas eu seguro sua mão. Forte. Firme. Eu não quero que ele vá. Não agora. Eu preciso dele.

— Você precisa mesmo ir?

Ele hesita, olha pra mim, e é nesse instante que a Yuri surge, do jeito escandaloso de sempre, jogando-se nos braços dele. E logo atrás dela, a Mayuko, como uma sombra silenciosa.

— Yuri, se controle — ele diz, tentando se afastar.

— Deixa de ser chato, Yuka — ela responde, como sempre fazendo piada de tudo.

— O que você quer?

— Vim ser a melhor irmã do mundo.

Ele franze o cenho, confuso, e eu também. Mas então ela se abaixa, pega a mão da Lena e sorri.

— A irmã Kuon e o irmão mais velho Yuka precisam conversar. Vamos dar uma voltinha?

Lena me olha como se pedisse permissão. Seus olhos parecem procurar segurança em mim.

— Vai ficar tudo bem, Lena. Eu prometo. Já já eu vou até você, tá?

— Promete?

— Prometo.

Ela solta minha mão devagar e vai com a Yuri. Quando a porta se fecha, o silêncio parece gritar entre mim e Yuka.

— Yuka, eu sei que você deve estar...

Ele não me deixa terminar. Seus braços me envolvem, e o queixo dele repousa sobre minha cabeça. Me acolhe. Me guarda.

— Não quero falar sobre ninguém agora. Quero falar sobre você. Sobre nós. Como você está? Como foram esses meses? O que você andou aprontando sem mim, hein?

Sua voz está carregada de ternura, mas dentro de mim há um nó apertado. Eu não quero mentir. Mas também não posso dizer a verdade.

— Yuka... onde ele está?

Ele se afasta um pouco, me encara.

— Você não ouviu o que eu disse?

— Ouvi. Mas não podemos fingir que ele não existe. Precisamos decidir o que fazer.

— Kuon... por que você quer tanto falar disso agora?

Porque se eu falar do Mamoru, talvez não precise falar do que carrego. Porque se eu me esconder atrás da raiva, da dor, da responsabilidade, posso adiar o inevitável.

— A Lena pergunta dele o tempo todo... preciso de uma resposta.

— Diz a verdade. Que ele é um desgraçado. Um monstro. Ela precisa saber disso.

— Você acha mesmo que eu consigo dizer isso pra ela?

— Ela vai sofrer mais se continuar presa nessa mentira.

— Onde ele está?

— Com o Rika.

Ele está cansado. Eu também estou. Mas o medo ainda é maior. Medo do que está por vir. Medo dele olhar pra mim e me ver diferente.

— Kuon... tem alguma coisa errada? O que aconteceu?

Nego com a cabeça. Me jogo em seus braços. Enterro o rosto em seu peito. Preciso dele mais do que consigo explicar.

— Eu amo você, Yuka. Por favor, não me deixa mais.

Ele me aperta com mais força. Me ergue e me leva até a cama, senta comigo em seu colo. Me embala como se eu fosse feita de vidro.

— Não vou mais deixar você, Kuon. Você é tudo pra mim. A pessoa que eu mais amo no mundo. Olha pra mim.

Eu não consigo. Não quero que ele veja a verdade nos meus olhos.

Mas ele toca meu queixo, levanta meu rosto. E quando os olhos dele encontram os meus, tudo dentro de mim grita por ajuda, por perdão, por amor.

— Eu amo você, Kuon.

E então ele me beija.

E eu o beijo de volta.

Com tudo que tenho, com tudo que sou, com tudo que perdi e que ainda tenho medo de perder.

— Eu...

Queria dizer. Eu estou grávida. Mas não posso.

Encosto minha testa na dele. Sinto a respiração quente contra meu rosto.

— Eu amo você, Yuka.

Uma lágrima escorre, ele a enxuga com cuidado.

— Kuon... tem alguma coisa acontecendo, por favor, me con...

Beijo-o de novo. Antes que eu diga qualquer mentira.

Antes que eu confesse qualquer verdade

The Other WorldOnde histórias criam vida. Descubra agora