Lura
— Quantas vezes eu preciso dizer que os lençóis ficam aqui nesta gaveta de baixo?— berrou Antonieta enquanto a nossa patroa passava por nós, abaixei o olhar em redenção para ela mas a vontade de dar uma coça naquela velha rabugenta fazia as minhas têmporas pulsarem.
— Eu achei por bem deixar nesta gaveta de cima para ser mais fácil a Antonieta alcançar, sem ter que abaixar.— respondi sincera.
— E lá tu és paga para pensar? — perguntou em retórica.
— Não, eu sou paga para lhe auxiliar.— retruquei num tom afável mas por dentro eu estava a ser sarcástica.
— Ainda me respondes? — berrou, olhei para ela com ódio de morte lembrando-me da minha antiga patroa, as memórias azedas das atrocidades que passara naquela casa faziam o meu sangue ferver, apeteceu-me tirar o avental e ir embora mas eu sabia que era isso que ela queria. — Vá, desaparece da minha frente! — ordenou chateada, segurei no cesto da roupa limpa que acabava de tirar do estendal e retirei-me em direção a área de serviço onde as peças seriam passadas, as lágrimas de raiva balançavam em minhas pálpebras inferiores mas não iria chorar por causa dela.
Antonieta ficara uma semana em casa enquanto se recuperava da Malária, Dona Sílvia sugeriu que ela continuasse em repouso por mais alguns dias mas ela se recusou temendo que fosse um pretexto para dispensa-la de vez. Aproveitei a deixa e comecei a fazer algumas modificações na gerência da casa dos Mbalate agradando a nossa patroa de todas as formas que podia, tomei a liberdade de comprar flores para colocar em alguns vasos de decoração na sala de estar, troquei as cortinas para um tom mais alegre, pesquisei na internet sobre uma nova dieta para adequar as refeições ao estado de saúde do patrão.
Quando Antonieta voltou ela percebeu as mudanças e isso a assustou, a relação com a Dona Sílvia havia melhorado muito e mesmo depois dela ter retomado ao seu cargo, Silvia me encarregou de continuar a preparar o pequeno-almoço e planear os menus das refeições para a semana toda com a sua aprovação, claro. Antonieta estava fula da vida e ela arranjava todo tipo de justificação para se chatear com o meu trabalho, mas se ela pensava que me iria conseguir intimidar com berros e constrangimentos na presença de Sílvia estava muito enganada.
A verdade é que Antonieta não sabia o que iria fazer sem aquele emprego, porque como havia descoberto recentemente ela já se sentia a dona e proprietária da casa quando não passava de uma simples empregada como todas as outras.
Perdida em meus pensamentos esbarrei com Nwando no corredor dos fundos, o cesto caiu no chão, pedi desculpas e agachei-me rapidamente, não para apanhar o cesto, mas porque queria esconder as lágrimas que ameaçavam cair a qualquer momento.
— Você está bem?— ele agachou-se também e nossos olhares se cruzaram, seu semblante preocupado fez os meus braços vacilarem e uma lágrima espertinha escorreu pela bochecha, apressei-me em limpa-la, tudo que eu menos queria era que ele me visse daquele jeito.
— Eu estou bem. Obrigada patrão.— enfatizei a palavra "patrão" sarcástica levantando-me de seguida e continuei a caminhar para a área de serviço no fundo do corredor, achei que ele tivesse desistido, não olhei para trás para checar, retirei a chave em meu avental para abrir a porta, com o cesto apoiado numa das coxas destranquei a porta e entrei de seguida colocando o cesto encima da banca.
— Você não me parece estar bem.— assustei-me ao vê-lo entrar pela porta, eu tentava fingir mas a presença de Nwando quando estivéssemos sozinhos entre quatro paredes ainda me afetava.
— Nwando por favor me deixe trabalhar.— falei cansada, já tinha problemas demais, e não precisava da sua presença aterradora para confundir os meus sentimentos ainda mais.
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Lura
RomanceLura é uma jovem mulher de grandes ambições, desde pequena seu maior sonho sempre fora abandonar a aldeia em Inhambane e conhecer o mundo e ela fará de tudo para alcançar os seus objetivos... Tudo! Vendida pelos pais como empregada doméstica para um...
