20. Indecifrável, incorrigível, irredutível.

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Às vezes eu sentia medo. Um medo gigantesco e disforme que tomava forma no escuro e outra vez, eu era só uma menininha assustada enfiada nos cobertores de uma cama de solteiro na casa nova enquanto o mundo lá fora parecia sombrio e ameaçador. Em um segundo estou ali, e no outro, tenho doze anos e estou perdida no meio de Busan, sem saber uma única palavra em coreano.

Os olhos mirando a direção que mamãe estava um segundo atrás, quando me distraí para ver peixinhos azuis e dourados em um aquário suspenso e retornei para chamá-la, no meio de um infinito de rostos desconhecidos, sem encontrá-la. Aquele primeiro segundo do reconhecimento solitário foi o mais assustador; olhar para trás e não vê-la em lugar nenhum, ter consciência de que eu não poderia recorrer a ninguém. Era uma memória antiga, mas ainda tão marcante.

Meus pés tropeçando na areia fofa, correndo em direção a praia de Gwangalli e chorando na areia, achando que ficaria sozinha para sempre.

Não consigo me lembrar direito do rosto do garoto, mas lembro de sua mão tocando meu ombro com delicadeza, seu inglês com sotaque engraçado em perguntas confusas.

— Está perdida? — ele perguntou, ajoelhando-se ao meu lado. Ouvir alguém falar o mesmo idioma que eu foi tão reconfortante quanto assustador. — Você entende o que eu digo?

Fiz que sim com a cabeça. Não conseguia verbalizar respostas para suas perguntas com honestidade, rasgada pelo soluço do meu choro amedrontado. Mas lembro dos detalhes; sua camiseta azul, das marcações numéricas no tecido, das suas pulseiras com contas de japamala enroscada no pulso, do seu bronzeado californiano em plena Busan e principalmente do seu mullet moderno.

— Eu não sei para onde minha mãe foi. — disse, com algum esforço.

— Tudo bem, podemos chamá-la pelo rádio da feira, como ela se chama? — Tentei limpar as lágrimas com as costas das mãos, a textura áspera arranhava o nariz. Os dedos estavam cheios de band-aids coloridos que River havia me dado de presente de sua coleção pessoal intocável, com a mudança para a Coreia, fez de tudo para não me ver triste, abriu mão até mesmo do que mais amava. Era do seu instinto, de sua natureza, abrir mão de qualquer coisa para me ver feliz.

— Ra-Rainbow.

— Rarainbow?

Rainbow. Só Rainbow.

Ele esticou a mão, segurando meus dedos entre os dele.

— Vou ficar com você até ela chegar, não precisa ficar com medo. — Seu rosto infantil se aproximou do meu; os contornos tão delicados, olhos brilhantes, os dentes frontais proeminentes por cima do lábio inferior, era como uma espécie de cartoon animado.

— Não precisa chorar. Não chora, não! — Seus dedos limparam as lágrimas escorrendo em minha bochecha. — Sua eomma deve estar procurando você também!

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