32. Labirinto, ponta solta e nosso não-final.

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Entrada de diário; 20 de maio de 2023, Nova York.

Estranho. Como trazer um animal novo para casa ㅡ uma criatura desconhecida e disforme, infiltrando-se nos espaços íntimos, com um cheiro quente e um gosto familiar. Grande demais para o meu banheiro; o topo da cabeça desponta por trás da cortina barata do box ㅡ uma que comprei por três dólares de uma hippie grávida no centro, só porque me lembrava mamãe. Os pés escapam para fora da cama, a paleta escura das camisetas se mistura às peças coloridas do meu armário, e as gavetas caóticas da minha roupa íntima agora abrigam cuecas dobradas com precisão técnica, organizadas meticulosamente por cores, em degradê.

A cidade toma um ar diferente, um tom que nunca percebi. Talvez seja a primavera chegando. Talvez seja um outro tipo de florescer; o das nossas vidas colidindo nesta casa de adulto. Talvez seja apenas o prisma temporário da sua chegada, alterando a minha doce perspectiva de crescimento, rápida, como girar um caleidoscópio.

O ritmo frenético do meu pensamento mal consegue acompanhar a lentidão do corpo, que ainda está tomando as devidas providências para acordar. Calculo que as horas dormidas na última noite não passaram de três.

Há um post-it na garrafa térmica de café, com uma letra cursiva cuidadosa e caprichada. Imagino-o curvado sobre a bancada pela manhã, pensando em uma piadinha sacana para me fazer rir no meio do expediente. Naquele, dizia:

"Estudos apontam que, a cada

gole de café desta garrafinha,

você poupa 5% da sua energia para ser

uma grande gostosa na minha

(sua) cama hoje à noite. "

Ainda estou me adaptando à rotina de tê-lo em casa. Meu apartamento, abrigando duzentos e quarenta e três vinis (duzentos e quarenta e quatro agora), meia dúzia de pares de sapatos e um homem de um metro e setenta e nove, que acorda cedo, prepara seus tênis esportivos e seu bumbum atlético para arrastá-lo por duas quadras do prédio, e então retorna, toma um banho gelado e começa o dia: preparando cuidadosamente minhas refeições enquanto posso dormir mais meia hora pela manhã.

O amor que me apavorou a vida inteira, na verdade, é manso; tem cabelo longo, fala dócil e gosta de beijos na nuca. Me acorda cantarolando meu nome, me chamando pelo apelido de criatura felina. O amor que me amedrontou desde o princípio trabalha na mesa da cozinha, concentrado, usando apenas seus óculos e uma cuequinha de escolha pessoal. Gosta de encher o apartamento com difusores de baunilha e velas aromáticas e cochila no meio do chão da sala à tarde, inofensivo, como um cãozinho de pelo preto.

Como conquistar esse garoto.Histórias para pegar e não largar. Descubra agora