11. Sobre primeiras vezes, partes quebradas e tudo que não foi dito.

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Eleanor, pt

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Eleanor, pt. 1

7 horas antes do início do caos.

Era uma tentativa inútil, no fundo eu sabia, por mais que tentasse listar todas as coisas que ainda me lembrariam da garota que fui e das coisas que odiava em Jungkook, nada daquilo poderia parar o que sentia agora. Eu odiava algumas coisas sobre ele, e disso, eu ainda tinha certeza. Odiava sua mania de fazer piadas inapropriadas nas horas mais erradas, odiava suas camisas largas demais, sempre seguindo a mesma paleta neutra entre cinza, branco e preto, além daquele costume ridículo de esticar os braços para cima desajeitadamente e revelar mais do que era necessário saber, quando os tecidos de suas camisetas não cumpriam seu papel de mantê-lo em segredo, revelando sempre a ponta da tatuagem ali, na linha do quadril como uma constante lembrança de que eu sabia exatamente a textura dela.

Odiava a maneira como seu cabelo — sem corte definido — sempre caía perfeitamente alinhado e quase em câmera lenta, por cima dos olhos e como Jungkook sempre parecia inofensivo para mim, na grande maioria das vezes. O odiei em todas as vezes que me perguntei silenciosamente em que dimensão Jungkook se escondia, porque ele cruzou meu caminho na hora mais errada, no meio do meu próprio caos e ainda assim, não quis que eu movesse minhas peças quebradas para tentar caber no meio delas. Pela primeira vez me senti confortável em minha própria pele, e eu o odeio tanto por me machucar agora, justo agora, quando por um único momento, me senti completamente confortável ao lado de alguém, mas lembrar disso não facilitaria nada pra mim. O falso ódio não me impediria de gostar dele ainda mais, era tudo da boca pra fora.

Nas últimas 168 horas eu tinha me dado conta que estava, lentamente, pagando por cada um dos meus pecados cometidos em uma vida inteira. Por ter mentido pra mamãe na quarta série e dito que não entrei na piscina da escola mesmo resfriada, por ter escondido o boletim com notas vermelhas no ensino médio e ter jurado que ele tinha sido extraviado nos correios, por ter beijado Jungkook naquela noite e ter fingido que não era grande coisa, consequentemente me apaixonando naqueles minutos cruciais entre a negação e a raiva, enquanto me dava conta de que provavelmente eu estava fodida.

De alguma forma eu entendia que os castigos vem para coisas assim, que decisões tomadas por impulso sempre trazem resultados catastróficos que vão perdurar, se arrastar na sua consciência com o peso de uma bigorna por meses e anos, e talvez daqui a algum tempo, quando estiver um pouco mais velha e experiente, será o meu pesadelo lúcido, naqueles sete segundos antes do sono tomar conta do meu corpo, quando meu cérebro resolver me trapacear e definitivamente, seria esse momento, esse minuto que encaro agora quando eu me dou conta mais uma vez de que sou uma completa e total idiota.

— Juro por Deus que na primeira oportunidade que tiver, eu faço um chá com as bolas do Jungkook. — Trine diz, naquele meio tempo que leva para se aproximar da mesa do refeitório onde estou, trazendo seu almoço depois de ter ameaçado socar dois ou três garotos do time de baseball para avançar na fila e obviamente deixar metade das pessoas assustadas. Era normal para Trine sentir raiva e sair por aí como se o mundo inteiro fosse o grande causador da libertação de sua catarse, quando na realidade, daquela vez, a culpa era só minha.

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