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— EU SOU BONITO, SOU GOSTOSO, JOGO BOLA E DANÇO— cabelinho entra gritando na minha sala

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— EU SOU BONITO, SOU GOSTOSO, JOGO BOLA E DANÇO— cabelinho entra gritando na minha sala.

— cala a boca tio.

— ai vida calma — ele afina a voz.

— começa com suas viadagens não— ele fecha a cara.

— você é insuportável — ele mexe a cabeça de um lado para o outro com um dedo apontando para mim.

— TZ — grito e logo ele aparece — leva ele daqui.

— Cabelinho para de graça, o Ret, tem umas paradas ai para você olhar— mais problema.

— e a coisa é séria — cabelinho vira a tela de seu celular para mim, onde está escrito " eu vou buscar ela " — quem é ela?

Já sei até quem é, eu falei que isso não era bom, mas ninguém me escuta, falei que tê-la aqui ia dar nisso, mas Ret que é ruim nessa merda.

Saio da minha sala e vou até o salão onde ela trabalha. Sei que ela divide o espaço com aquela amiga dela lá, Mariana, conheço ela desde criança, mas nunca fomos tão próximos assim não. Diferente de mim e dos meninos, Cabelinho e TZ não eram do movimento quando entrei, tô nesse mundo desde moleque, minha mãe viciada me deu para os caras para pagar a dívida e o antigo dono do morro não aceitou, então matou ela e eu fiquei aqui pela favela sozinho com 12 anos. Quando tinha fome ia para dona Maricleide que me alimentava, ela tentou cuidar de mim, mas com o que tinha passado eu não deixava ninguém chegar muito perto de mim e com 18 entrei na boca, só vendia umas drogas, até matar um cara que ficou me devendo, o dono ficou sabendo e eu fiquei trancado em uma sala por 4 dias só bebendo água. Fiquei com tanta raiva que eu coloquei na cabeça que iria ser o dono dessa merda.

O Dogão já estava queimado com os aliados, então não tive muito trabalho para derrubar ele, assumir o morro com 22 anos e agora com 30 anos tenho respeito e estou na linha de frente dos morros que mais vende drogas no Rio De Janeiro. É irônico trabalhar com o que matou a minha mãe, mas ela que vá toma no cu, a vida é feita de escolhas, ela fez os corres errados dela e eu fiz os meus.

Quando entro no pequeno salão as velhas que estavam lá já ficam com olhar de pânico, juro que vi uma fazer o sinal da cruz.

Pode ter medo do Ret aqui, porque o monstro tá on.

— ei — chamo a atenção de Patrícia — vamo aqui fora.

— estou ocupada— ela aponta para a cliente em sua frente.

— não perguntei, estou mandando — digo e saio sem esperar sua resposta.

Me encosto da parede do lado de fora e a morena logo vem atrás de mim.

— tô aqui— ela faz posse de marrenta.

— ele falou que vai vim te buscar — ela vai de vinho para a água de tão transparente que ficou.

— você falou que não ia chamar ele — ela quase grita.

— fala baixo, eu não chamei ele, o maluco mandou mensagem pelo celular do Cabelinho.

— Ret, pelo amor de Deus, não deixa ele chegar perto da minha filha — ela implora.

— eu falei que só ia permitir vocês aqui por causa dela, vou manter minha promessa, ela tá segura aqui, mas não posso garantir do dia para noite que ele nunca vá chegar perto dela — ela tenta segurar as lágrimas.

— eu sei, esse é meu pesadelo diário — puxo ela para um beco ali do lado, a mina tá se desfazendo na minha frente.

O que fazer quando uma mulher chorar em sua frente?

— olha, não sou eu que vou dizer o que você vai fazer, mas fica ligada, começamos de pé esquerdo, mas tu é importando para meu mano Xamã, vou ajudar vocês, mas você sabe quem é ele, sabe o que ele é capaz de fazer mais do que eu sei— ela concorda com a cabeça.

— sim, eu vou ficar mais ligada, valeu mesmo — ela seca as lágrimas e respira fundo.

— olha, não queria você lá não, você vai se tornar meu maior B.O, mas vai ter churrasco na minha casa, chama aquela sua amiga maluca e leva a neném, vai se distrair, se ficar pensando de mais eu vou conseguir vê a fumaça sair da sua cabeça — digo dando de ombros.

— tá bom, chefe — ela sorri.

— respeito é bom e eu gosto — o sorriso some do seu rosto e ela fica seria — relaxa aí, tô zoando, mas relaxa muito não.

Dou as coisas para ela e volto para a boca, tenho muita coisa para fazer antes do churrasco.

— sim, doutor, tô ligado que não posso vacilar com as drogas, mas tenho que passar uns malotes para dentro do presídio até sexta que vem — falo ao telefone com o meu advogado/ fornecedor de arma.

— eu sei Filipe, até minha cabeça rola se essa droga não estiver lá, mas agora não tem como, com sua saída as coisas estão muito agitadas— mas que porra.

— tá bom Caio, vou vê o que faço aqui, mas pode acionar seus contatos, quero tirar um dos meus de lá até o fim do mês — passo o papo.

Já que estou lidando com o Matuê agora, tenho que ter alguém que o comece bem, quem é melhor que seu antigo braço direito, Teto.

Quando acabo de resolver as coisas por aqui já são 17 horas, TZ marcou o churrasco para as 20 horas, não íamos ter tempo para fazer no horário " correto", já não fazemos nada na lei mesmo, o que um churrasco de noite vai fazer.

De banho tomado coloco uma camisa do Fluminense, manto sagrado, junto com uma bermuda preta e correntes que não pode faltar. Os meninos já estão com tudo pronto, as carnes já estão assando e a cerveja geladinha.

— sai daí que você vai queimar tudo — tiro minha camisa e coloco na cadeira e vou ficar de olho nas carnes.

Vou nada deixar as carnes nas mãos do Cabelinho, carne tá cara para isso.

No Morro Filipe RetHistórias para pegar e não largar. Descubra agora