Capítulo 46

66 6 3
                                        

Dois meses depois...

Concluo o empacotamento de mais uma caixa, enquanto Naruto se ocupa em guardar os últimos resquícios de sua antiga vida - atirando pequenos objetos na caixa com a expressão de quem não sabe se está fazendo o certo ou apenas cumprindo um protocolo inevitável.

- Você acha mesmo que isso vai dar certo? - pergunta, hesitando um instante antes de empilhar mais algumas quinquilharias na caixa de papelão. - Sinceramente... vai mesmo dar certo? Porque, veja bem... eu não sou bom com crianças. Nem sei se vou ser um bom pai... - confessa, nervoso, lançando um olhar inquieto ao quarto praticamente vazio, cujas paredes ainda guardam ecos silenciosos de outro tempo.

Antes que eu possa responder, Shikamaru surge, como sempre, com sua placidez cínica, equilibrando uma bandeja de latas de tinta como quem carrega o peso do mundo com indiferença.

- Se você repetir isso mais uma vez, juro que te chuto até de madrugada - declara, com a serenidade de quem anuncia a previsão do tempo. - "Eu não sou bom com crianças..." Que pena... Você não é bom com crianças, que tragédia... mas, meu amigo, agora você é pai. Não tem volta.

Ele solta uma baforada de fumaça e respira fundo, como se expulsasse junto dela todas as ansiedades que não ousaria confessar em voz alta.

- Naruto... sinceramente... isso não é um problema tão grande. Nossos pais também não sabiam ser pais, e, veja só, estamos todos aqui... vivos, bem ou mal. Você vai aprender. Não tenho dúvidas disso. Você é engraçado pra caralho, completamente despirocado... essa criança vai ter um dos melhores caras como pai.

Naruto nos olha, silencioso, e apenas assente. Sorrio de canto, satisfeito, enquanto pego a última caixa e sigo para o andar de baixo.

A casa do velho Jiraiya... agora, enfim, parece um lar. Menos um mausoléu de memórias, mais um abrigo silencioso para novos começos.

Na cozinha, pego algumas cervejas e volto para o quarto, onde Naruto e Shikamaru já começaram a pintar as paredes com um tom suave de rosa-claro. Aposto todas as minhas fichas que foi a Sakura quem escolheu a cor - afinal, será o quarto da filha dos dois, para quando vier passar os fins de semana com o desmiolado do Naruto.

Ainda guardo na memória, com nitidez, o dia em que ele me ligou, dois dias após conhecer a filha: eufórico, com aquela alegria genuína que há tempos eu não via nele. Tinha finalmente conseguido, após idas e vindas, firmar com Sakura o tão desejado acordo: teria tempo exclusivo com a menina.

No começo, ele visitava a casa dela, passava algumas horas... mas logo ficou claro que aquilo não era sustentável. Sakura, compreensivelmente, parecia desconfortável com a presença quase diária do Naruto, sempre estendendo suas visitas além do razoável.

Foi então que surgiu a ideia: reformar um dos quartos abarrotados de quinquilharias e velharias acumuladas por Jiraiya. E cá estamos nós... eu, por algum motivo, presenciando a cena dos dois, se atrapalhando ao pintar paredes cor-de-rosa, enquanto aguardamos os móveis que transformarão aquele espaço num recanto seguro para a filha do Naruto.

- Uchiha, você vai ficar só olhando? - Shikamaru me provoca, notando minha presença silenciosa na soleira da porta.

- Eu trouxe cerveja... E, para sua informação, Nara, passei a manhã toda empacotando coisas. Minhas costas estão implorando por misericórdia. Então, sim... vou só ficar olhando. - digo, estendendo as garrafas com a dignidade de quem cumpre um papel essencial.

- Idiota... - resmunga, aceitando a cerveja.

- Ah... isso aqui tá bom pra caralho! - exclama Naruto, após o primeiro gole, com aquela espontaneidade que é só dele. - Era isso que faltava... Eu sei que ainda não parece pronto, mas termino tudo hoje.

𝓕𝓸𝓽𝓸𝓰𝓻𝓪𝓯𝓲𝓪Onde histórias criam vida. Descubra agora