Chego à casa dos meus pais tentando, em vão, esconder o incômodo por estar aqui. No fundo, eu gostava do bairro onde cresci - era tranquilo, cercado por pessoas simples e por memórias que resistem ao tempo. Mas, com o crescimento da empresa do meu pai, ele decidiu nos mudar para uma casa maior, em um bairro de classe média. Na época, desgostei profundamente da ideia. Todos os meus amigos de infância continuavam no antigo bairro, assim como minha escola, e, embora meu pai não tenha aprovado, insisti em continuar estudando lá até concluir o ensino médio.
Ele se recusou a me levar, então comprei uma bicicleta usada com o dinheiro do meu primeiro emprego de meio período numa loja de conveniência. Ele ficou furioso por eu estar andando com aquela bicicleta velha, mas eu não me importava. Eu a amava, apesar da tinta desgastada e dos pedais frouxos - ela foi a primeira coisa que conquistei com meu próprio esforço. Desde então, nunca mais quis nada dele. Não que meu pai recusasse a me oferecer coisas; pelo contrário, talvez até demais - mas era justamente por isso que eu preferia conquistar tudo sozinho. Gosto da minha independência, gosto de mostrar a ele que sou capaz de alcançar o que quiser com o meu próprio suor. Ainda que ele não aprove minha profissão, isso nunca me impediu.
Entro na sala de estar e me acomodo no sofá. Esta já é a terceira casa em que meus pais moram. A anterior, sobre a qual acabei de lembrar, também foi vendida para que comprassem esta - uma mansão, para ser exato. Fica em um bairro de classe alta, onde os vizinhos são empresários, políticos e celebridades. Um exagero, como tudo o que eles fazem. A casa é imensa para apenas duas pessoas... ou melhor, agora três, com o novo "irmão". Aposto que ele vai ficar tão espantado quanto eu fiquei da primeira vez. Sempre que venho aqui, há algum detalhe novo na decoração, algo que facilmente vale mais que todo o meu apartamento.
A governanta, cujo nome nunca me interessei em saber, me pergunta se quero algo enquanto informa que minha mãe não deve demorar.
- Não, obrigado. Estou com pressa. - respondo, educado.
Ela assente e se retira. Suspiro. Detesto vir aqui.
Alguns minutos depois, ouço a voz animada da minha mãe ao telefone. Respiro fundo. Eu sei que, a cada ano, fico mais ranzinza. Qual é o meu problema, afinal? Eles estão ajudando alguém e eu... fico irritado com isso? Quando ela me vê, sorri de forma discreta, desliga o celular e caminha com elegância até a sala. Senta-se na poltrona à minha frente.
- Oi, mãe.
- Oi. - responde, fria. Sei que está magoada.
- Vim pedir desculpas por ontem. - digo, firme. Ela apenas assente. - Eu me irritei por besteira... me senti mal por isso. Vocês tinham acabado de voltar de viagem e...
- Sasuke - ela me interrompe -, eu sei o que você tem passado nos últimos meses.
A encaro, surpreso. Como assim ela sabe?
- Você achou mesmo que eu, sua mãe, não perceberia... sobre o Naruto?
- Mãe, eu...
- Tudo bem. Eu entendo que é um assunto delicado e que você não gosta de falar sobre isso. Mas eu esperava que, como sua mãe, você me confiasse ao menos esse pedaço da sua vida. Ou me pedisse um conselho. - Ela suspira, desviando o olhar. - E por que você nunca me contou sobre ela? Sobre estar namorando na faculdade? Sasuke, como você pôde guardar tudo isso para si? Achou que eu iria te criticar?
- Não. Eu só... não queria que vocês soubessem. - passo a mão pelos cabelos, desconcertado. - Sei que não sou um bom filho, nem como o Itachi. Só não queria que vocês se preocupassem. Isso tudo é... uma parte dolorosa da minha vida. E, sendo assim, achei que deveria enfrentar sozinho.
- Eu entendo. Sempre me orgulhei da sua força, da sua independência. Sempre admirei isso em vocês dois. Mas, mesmo querendo viver sua vida do seu jeito, ainda somos seus pais. E você sempre poderá contar conosco. Para qualquer coisa. Porque nós te amamos, Sasuke. Nunca se esqueça disso.
Ela se aproxima e me abraça. E, sem dúvidas, esse é o melhor abraço que recebi em toda a minha vida.
- Eu sei, mãe. - respondo, sorrindo de leve.
- Agora me diga... o que foi que o Itachi disse pra te convencer a vir até aqui?
Fora ameaçar me quebrar a cara? Nada além disso.
- Nada demais. Só brigou comigo pelo meu comportamento.
Ela apenas acena com a cabeça, compreensiva.
- Mudando de assunto... durante o jantar, notei aquela moça. A irmã da Meyrumi. Muito bonita e educada. - É. Durou pouco a paz. - Você sabe o nome dela?
- Hinata.
- Hinata? Nome bonito. Combina com ela. Será que é solteira?
Reviro os olhos. É sério isso?
- Não sei.
- Hm... bem, eu vou descobrir. Gostei dela. Parece ser uma boa moça. Combina com você.
- Mãe, por favor. Não começa com essas suas ideias de casamento. Ela é cunhada do Itachi. É... estranho.
- Justamente. É cunhada. Isso não significa nada. Aposto que os signos de vocês são compatíveis. Acho que vou consultar uma xamã. - Ah, claro. Mikoto e seus horóscopos. - Vocês dariam lindos netinhos...
- A Mey está grávida. E tem os gêmeos. Já tem neto suficiente por agora.
- Não seja ridículo, Sasuke. Quero ver você com filhos antes de morrer.
- Vamos mudar de assunto, por favor. - digo, incomodado. - Com quem a senhora falava no telefone agora há pouco? Parecia animada.
- Com Xieon. Parece que a adoção será oficializada mais cedo que o previsto. Ele deve chegar na próxima semana. Ligou para contar.
- Que bom... - respondo, tentando soar neutro.
- Eu sei que você não ficou feliz com isso, mas ele é um garoto muito doce. Esperou por tanto tempo por uma família... ele nem acreditou quando demos a notícia. Adolescentes dificilmente são adotados. Ele já havia perdido a esperança. - Seus olhos ficam marejados. - Mas agora... agora ele está radiante. Você vai ver. Ele é incrível.
- ...
Não respondo. Qualquer coisa que eu diga agora será um erro.
- Bem, preciso ir. Estou atrasado pro trabalho. Tenho quatro sessões hoje.
- Tudo bem, meu filho. - Ela me abraça e beija meu rosto com carinho. - Vou avisar ao seu pai que você passou por aqui.
- Tchau, mãe.
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𝓕𝓸𝓽𝓸𝓰𝓻𝓪𝓯𝓲𝓪
RomanceVocê acredita em amor a primeira vista? Sasuke uchiha não, ele nunca foi o tipo de cara que sonhava em encontrar o amor da sua vida numa esquina, muito menos a primeira vista. Digamos que ele é até um pouco fechado em relação á sentimentos amorosos...
