Capítulo 21

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A voz no alto-falante anuncia que chegamos ao Aeroporto Internacional de Tóquio. O voo teve algumas turbulências leves, o que me deixou bem agitada - quase catorze horas trancada num avião não é brincadeira. Não consegui pregar os olhos desde o embarque. Parte por medo de cair no meio do Pacífico, parte... por causa dele.

Minha formatura foi há dois dias. Eu sei que deveria estar animada por esse mérito, por estar a caminho de reencontrar minha irmã depois de anos. Mas não estou. Deidara foi embora sem ao menos se despedir - depois de uma noite de sexo. Eu queria entendê-lo, juro que queria. Mas não consigo pensar em outra coisa, a não ser que ele foi um covarde. Covarde por preferir sumir do que se despedir de mim.

Cretino. Eu sabia que isso não daria certo - mas, como sempre, faço exatamente o que não devo e acabo me ferrando. Parabéns, Hinata. Mais um troféu por ser a idiota do ano. Por imaginar um futuro ao lado do Maracujá Azedo, por ouvir suas histórias sem nexo e, ainda assim, sonhar com ele.

- Senhores passageiros, por favor afivelem os cintos de segurança e desliguem seus aparelhos eletrônicos. - A voz volta a nos orientar. Guardo meu celular, aperto o cinto com firmeza e tento relaxar. Para falar a verdade, nem avisei à Mey que meu voo foi adiantado. Quero fazer uma surpresa. Se não me engano, hoje é o aniversário de casamento dela com o Itachi. Hanabi comentou que fariam a renovação de votos num restaurante badalado daqui. Pois bem, vou aparecer lá de surpresa.

O avião pousa em segurança e, finalmente, sinto terra firme sob os pés. Já tinha até esquecido como é essa sensação. Caminho até a saída. Pode parecer exagero, mas juro que me sinto uma alma perdida em meio à multidão que vai e vem pelo aeroporto. O pior é que não faço ideia de onde vou ficar sem que a Mey descubra. Pego um táxi e procuro no Google alguma sauna ou casa de banho nas redondezas - só quero um lugar para largar minhas malas e tomar um banho. Eu realmente não aguento mais um minuto sem água quente.

Durante o trajeto, não consigo tirar os olhos da janela. Tóquio é de tirar o fôlego. Estaria mentindo se dissesse que nunca quis vir aqui antes. Agora que estou, quero visitar todos os pontos turísticos possíveis. O taxista me deixa em frente a uma casa de banho. Faço minha reserva, deixo as malas e finalmente tomo um banho longo e restaurador. Visto um vestido lilás que ganhei da Mey há alguns anos - por milagre, ainda serve. O tecido leve desce em babados até o joelho, uma fita marca a cintura e ele é tomara-que-caia. Simples e bonito, como ela.

Antes de sair, passo numa loja de conveniência. Compro um macarrão instantâneo - que, aliás, tem uma variedade absurda de sabores - e como sentada na calçada. Já percebi que aqui essas lojas estão em cada esquina e funcionam 24 horas. Um paraíso para quem vive no improviso, como eu.

Meu celular toca quando estou quase terminando de comer. Sorrio ao ver o nome na tela.

- Hello, falo com uma garota chamada Hinata?

- Acho que não... você ligou errado, Konan. - Escuto o sorriso abafado dela do outro lado.

- E então, como é Tóquio? Já foi a algum lugar legal? Tem muitos gatos por aí?

Dou risada imaginando suas caras e bocas.

- Ainda não tive tempo pra explorar. Mas a cidade é linda - digo, ouvindo um "hmm" de aprovação dela. - Estou agora mesmo comendo um macarrão instantâneo. Tem uns sabores bem diferentes por aqui.

- Sei... E como você tá?

Eu entendi o que ela quis dizer.

- Se está falando do lance com o Maracujá Azedo, prefiro não comentar agora - suspiro. - Estou a caminho da renovação de votos da minha irmã. Quero fazer surpresa.

- Que legal! Manda a foto do seu cunhado! Você disse que nunca o viu. Quero saber se ele é bonitão. - Ela gargalha, mas ao fundo ouço algo caindo e alguém xingando. - Droga! Yahiko! Como você consegue ser tão desastrado? E agora, como vamos limpar isso?

- Tá tudo bem?

- Não! O Yahiko derrubou várias tintas de tatuagem no chão. - Ela suspira. - Desculpa, ameixa. Preciso desligar. Te ligo depois, preciso limpar a bagunça que esse idiota fez.

- Vai lá. E faz ele limpar tudo com a língua.

Ela ri e concorda.

- Boa noite pra você, então.

- Bom dia pra você. Tchau. Te ligo amanhã.

Ela desliga. Sorrio, um pouco triste, e termino meu macarrão.

[...]

Entro no enorme restaurante onde Hanabi disse que seria o evento. Na recepção, explico o motivo da minha visita e um funcionário me conduz até um espaço reservado. Sento-me numa mesa mais afastada. O ambiente é entediante - ou sou eu que estou de mau humor. Um garçom me serve doces e champanhe. Bebo por falta do que fazer. Me pego pensando: como fui parar aqui? Pessoas refinadas circulam ao redor, rindo e conversando. Parecem importantes. Me sinto deslocada.

Talvez eu sempre tenha sido assim. Não muito sociável. Sempre na minha. Quando me mudei para os Estados Unidos, tentei mudar isso. Não queria continuar sendo a garota tímida que ficava vermelha por qualquer coisa. Eu era estúpida. E tenho pavor de voltar a ser aquela pessoa fraca que todos olham com pena. Quero mostrar ao meu pai - e às minhas irmãs - que sou mais do que isso. Que posso ser alguém com voz. Alguém que faz suas próprias escolhas. Quero ser eu mesma. E vou ser.

Tão absorta estou que levo um susto quando um homem alto, de cabelos negros presos num rabo de cavalo baixo e terno impecável, senta-se à minha mesa. Ao lado dele, está outro homem, mais jovem, muito parecido - uma câmera na mão. Fico confusa. Ele sorri e se apresenta:

- Então finalmente posso conhecer alguém da família da minha esposa.

Demoro um segundo para entender: ele é o meu cunhado. Sorrio, tentando recuperar a compostura.

- Prazer, Itachi. A Mey fala bastante de você quando me liga.

Ele sorri e lança um olhar discreto para o rapaz ao lado. Percebo que o mais novo me encara profundamente. Sorrio de volta. Ele desvia o olhar.

- Hinata, certo? - pergunta Itachi. Assinto. - Fiquei sabendo do que aconteceu na véspera do nosso casamento. Quantos dias você ficou desacordada?

Sério? De todas as perguntas possíveis, ele escolhe essa? Finjo não me abalar. Sorrio com educação e respondo, como se ele não soubesse exatamente o que aconteceu. Ele percebe o deslize, coça o rosto e tenta mudar o rumo da conversa:

- Que estraga-prazeres eu sou. Desculpe tocar nesse assunto logo no nosso primeiro encontro.

Ele se volta para o homem ao lado.

- Deixe-me apresentar: esse é meu irmão mais novo, Sasuke.

Olho para ele. Seus traços são tão perfeitos que parecem desenhados à mão. Ele tem o semblante de quem está entediado - como eu. Ele me encara. Penso: preciso ser mais ousada. Tomo a iniciativa:

- Prazer, Sasuke. - Estendo a mão. Ele aperta rapidamente, soltando em seguida.

- Prazer, Hinata. Não sabia que a Meyrumi tinha uma irmã.

Sorrio. Isso vai ser interessante.

𝓕𝓸𝓽𝓸𝓰𝓻𝓪𝓯𝓲𝓪Onde histórias criam vida. Descubra agora