Capítulo 5

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Despertei antes mesmo do sol, como de costume. A rotina atribulada há muito se impôs sobre mim, e, como em todos os dias, não seria hoje que ela cederia. Caminhei lentamente até o banheiro e, ao me encarar no espelho, deparei-me com a imagem habitual: cabelos desalinhados e o rosto levemente inchado - é sempre assim que me vejo ao amanhecer. Escovei os dentes, tomei uma ducha apressada e segui para o quarto. Vesti uma calça jeans preta, marcada por discretos rasgos, e uma regata azul estampada com um coelho. Prendi os cabelos num rabo de cavalo e dispensei qualquer maquiagem; o tempo urgia - logo, o trânsito caótico de Cambridge tomaria conta das ruas, e ficar presa nele jamais seria uma opção sensata.

Apressei-me para fora de casa e, sem alternativas, chamei um táxi. O MIT localiza-se do outro lado da cidade, e cada minuto economizado é uma batalha vencida contra o relógio.

A proximidade da formatura começa a trazer uma mistura agridoce de alívio e melancolia. A saudade da Inglaterra se faz mais presente: do meu pai, da Hanabi, do aroma familiar do meu quarto, da cama que há tanto tempo não sinto. E, embora o coração anseie por aquele reencontro, há uma certeza incômoda que insiste em permanecer - não será mais como antes. Três anos transformam pessoas, moldam pensamentos, redesenham vidas. Achar que tudo permanece imutável é ilusão... até eu já não sou a mesma.

Meus devaneios são abruptamente interrompidos pela voz do motorista.

- Senhorita, chegamos - anunciou com gentileza.

- Ah... sim, me perdoe. Estava distraída - respondi, um tanto sem graça.

- Não se preocupe - respondeu com um sorriso amistoso.

- Quanto ficou a corrida? - perguntei enquanto acomodava a mochila nos ombros.

- Quinze dólares.

- Aqui está. Pode ficar com o troco - entreguei-lhe o valor e desci do carro.

Segui em direção à entrada da universidade, e, para meu azar, deparei-me com ele - Deidara. Ah, céus, que ele não me note, por favor!

Tentei caminhar discretamente, reduzindo o passo, quase torcendo para que a terra me engolisse. Uma missão, contudo, fadada ao fracasso, considerando que aquele loiro de cabelos esvoaçantes parece possuir um radar específico quando se trata da minha pessoa.

- Aonde pensa que vai, Hinata? - Sua voz cortou qualquer esperança de invisibilidade. Ótimo, e o dia tinha tudo para ser promissor...

- Para a aula - respondi, mantendo o passo firme e ignorando-o.

- Isso eu sei, cabelo de ameixa. O que quero saber é... cadê o nosso trabalho? - insistiu, acompanhando-me pelos corredores.

A verdade, cruel e nua, é que, invariavelmente, sou eu quem faz todos os trabalhos. Ele, folgado que é, apenas se escora em mim - e eu, feito tola, sempre permiti. Mas não hoje. Hoje não.

- Não fiz - respondi com desdém, sem sequer parar.

- Como é que é, cabelo de ameixa? Você não fez o nosso trabalho? - Ele segurou meu braço, obrigando-me a encará-lo.

- Exato. Simples assim - sorri, carregando uma ponta de cinismo. - Ontem terminei de assistir My Love from the Star, e, convenhamos, foi impossível me concentrar. O final me fez chorar horrores - completei, sustentando a expressão zombeteira.

- O que deu na senhorita certinha? Resolveu dar umas voltas por Harvard Square? - ironizou, claramente surpreso.

Fingi não ouvir. Deidara, com seus comentários provocativos, às vezes é insuportável - e a melhor estratégia é ignorar.

- Pois é... talvez eu tenha dado mesmo uma voltinha. E, veja só, acabei levando o trabalho comigo. Uma pena, não? - Pisquei-lhe, divertida, antes de me acomodar na cadeira.

𝓕𝓸𝓽𝓸𝓰𝓻𝓪𝓯𝓲𝓪Onde histórias criam vida. Descubra agora