Capítulo 48

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O céu londrino parecia carregar no cinza de suas nuvens todo o peso que começava a se acumular no meu peito. Enquanto dirigíamos pela estrada molhada, as gotas de chuva riscavam o vidro como se quisessem desenhar o desfecho do que estava prestes a acontecer.

Hinata estava ao meu lado, mãos cruzadas no colo, os dedos apertando-se uns contra os outros, nervosa, embora tentasse disfarçar com aquele autocontrole que, no fundo, sempre foi mais para proteger os outros do que a si mesma.

A casa que ela alugara há poucos meses - onde agora morávamos juntos - havia se tornado um refúgio. Uma espécie de espaço seguro onde podíamos existir sem os olhares, sem as expectativas, sem os fantasmas do passado. Mas agora, deixar aquele espaço significava encarar a realidade que vivia fora das quatro paredes que nos protegiam.

- Tem certeza? - pergunto, quebrando o silêncio. Minha mão desliza até a dela, que aperta meus dedos com força.

Ela respira fundo.

- Temos que fazer isso, Sasuke. Não dá pra viver fugindo. - Seu tom é firme, mas carrega um tremor sutil. - Meu pai... ele merece saber. E Hanabi... bom, ela provavelmente vai vibrar com a notícia.

Sorrio de canto. - Ela gosta de mim.

Hinata ri, breve, tensa. - Isso... é algo que até hoje me surpreende.

O portão da casa da família Hyuuga surge diante de nós. Estranhamente, ele parece mais imponente hoje. Mais alto. Mais pesado.

Estaciono, desligo o carro. Por um segundo, ficamos ali, olhando para a porta, sem nos mover.

- Vamos. - diz ela, soltando o ar como quem se prepara para pular de um penhasco.

Atravessamos o jardim bem cuidado, molhado pela chuva recente, e antes que pudéssemos tocar a campainha, a porta se abre.

Hanabi surge, os olhos arregalados de surpresa e alegria.

- Nee-san! - Ela praticamente se joga nos braços da irmã, e depois me olha, abrindo um sorriso largo. - Sasuke! Eu sabia que vocês iam aparecer. Tava achando estranho esse sumiço!

Ela nos puxa para dentro como se fôssemos velhos conhecidos - e de fato éramos, apesar de tudo.

Mas o clima muda quase imediatamente quando ouvimos a voz grave, firme e sempre impecavelmente controlada de Hiashi Hyuuga ecoar pelo corredor.

- Hinata. - Ele surge, sóbrio, vestindo aquele eterno terno cinza escuro, impecável. Os olhos austeros passam rapidamente por mim, pousam na filha, depois voltam a mim, como se quisesse calcular o que não estava sendo dito. - Sasuke.

- Pai. - Hinata responde, com uma reverência contida, educada, mas menos submissa do que teria sido anos atrás.

Hanabi observa tudo com aquele olhar perspicaz que ela domina como ninguém, percebendo que algo mais denso está prestes a ser colocado na mesa.

- Podemos conversar? - Hinata pede, direta.

- Claro. - Hiashi responde, seco, já caminhando para a sala de estar.

Sentamos. O silêncio que se instala parece mais alto que qualquer voz. Hanabi se senta no braço do sofá, cruzando os braços, curiosa.

Hinata segura minha mão - não discretamente, mas com a clareza de quem não pretende esconder nada.

- Pai... - ela começa, a voz levemente trêmula, mas firme. - Nós viemos aqui porque temos algo importante para te contar.

Os olhos dele se estreitam ligeiramente. - Estou ouvindo.

Ela respira fundo, como quem se arma internamente. - Eu e Sasuke... estamos noivos.

O silêncio que se segue é tão absoluto que chega a doer nos ouvidos.

Hanabi, primeiro, arregala os olhos, depois explode num sorriso genuíno. - Não acredito! Sério?! - Ela pula do sofá e se lança sobre nós dois, abraçando Hinata e me dando até um tapinha no ombro. - Eu sabia! Eu shippei desde o começo!

Mas Hiashi não se move. Nem uma expressão. Nada. Apenas aquele olhar gelado, cortante.

- Noivos? - repete, com a voz tão baixa que quase se mistura ao som do relógio na parede. - Seis meses... - murmura, quase para si. - Seis meses... e vocês acham razoável tomar uma decisão como essa?

- Pai... - Hinata tenta intervir, mas ele ergue uma mão, num gesto que pede silêncio.

- Não. - Sua voz sobe, controlada, mas dura. - Isso é precipitado, irresponsável. Vocês sequer se conhecem o suficiente para dar um passo desse tamanho.

- Não é verdade. - Minha voz sai mais firme do que eu pretendia, mas não recuo. - Eu conheço a sua filha melhor do que conheci qualquer pessoa na minha vida. E ela me conhece da mesma forma.

- Sasuke... - ele franze o cenho, e pela primeira vez vejo a fachada do homem inabalável começar a rachar. - Você vem de uma vida cheia de... sombras. Carrega histórias difíceis, traumas... e agora, de repente, quer assumir algo desse porte? Não acha que deveria, ao menos, esperar?

- Pai! - Hinata interrompe, firme, levantando-se. - Com todo respeito... não cabe a você decidir o que é cedo ou tarde na minha vida. Eu aluguei minha própria casa, assumi minha própria independência. Eu escolhi isso. Escolhi estar com ele.

- Você não entende, Hinata. - Hiashi também se ergue, a voz um pouco mais exaltada. - É a sua vida que está em jogo. Seu futuro. E, convenhamos, seis meses não são suficientes para...

- Não foram seis meses, pai. - Ela o interrompe, a voz agora embargada, mas cheia de convicção. - Foram anos. Anos em que estivemos cruzando caminhos, mesmo quando fingíamos que não. Anos em que eu aprendi quem ele é, e ele aprendeu quem eu sou. Só que agora... agora tivemos coragem de parar de fugir.

Ele fecha os olhos, respira fundo, leva a mão à ponte do nariz, como quem segura a própria frustração.

Hanabi, que observa tudo, se levanta, cruza os braços e diz, num tom bem mais leve, quase debochado:

- Pai... relaxa. Se tem alguém nesse mundo que pode aguentar o Sasuke, é a Hinata. E se tem alguém que pode colocar juízo na cabeça dele, também é ela.

Quase sorrio, mas me contenho.

Hiashi abre os olhos, olha para a filha mais nova, depois para Hinata... e, por fim, para mim. E é aí que percebo: o que vejo não é reprovação. É medo. Medo de perder a filha, medo que ela se machuque, medo que tudo desmorone.

Ele suspira, longo, pesado, como quem aceita uma batalha perdida.

- Se essa é sua decisão... - Sua voz baixa, mais branda agora. - Então eu só posso esperar que saibam o que estão fazendo.

Hinata se aproxima, segura a mão dele, e diz mais suave: - Eu sei, pai. Eu sei.

Ele aperta de leve a mão dela, sem olhar diretamente, e então se volta a mim. - E você, Uchiha... espero que entenda o que significa fazer parte desta família. E o peso da responsabilidade que está assumindo.

- Eu entendo. - respondo, firme. - E não pretendo falhar com ela.

O silêncio que segue não é mais cortante. É pesado, sim, mas agora carregado de aceitação, de algo que começa a se transformar, devagar.

Hanabi, como sempre, quebra o clima:

- Ok... agora que isso tá resolvido, podemos pedir comida? Eu tô morrendo de fome!

E, pela primeira vez naquela tarde, rimos. Não porque tudo esteja perfeitamente bem. Mas porque, às vezes, a vida precisa de pausas... até nas conversas mais difíceis.

𝓕𝓸𝓽𝓸𝓰𝓻𝓪𝓯𝓲𝓪Onde histórias criam vida. Descubra agora