Capítulo 17

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A primeira coisa que me veio à mente no instante em que pisei na igreja foi: "Mas o que diabos estou fazendo aqui?" Sei que pode soar clichê demais, mas isso só tornava tudo ainda pior. O templo estava abarrotado de gente; conhecidos me acenavam com gentileza, enquanto rostos totalmente estranhos também me cumprimentavam - talvez pelo simples fato de eu ser o padrinho do noivo. Sentia os olhares curiosos sobre mim, julgadores, talvez tentando decifrar por que eu estava ali. A verdade é que a história sobre eu ter sido traído se espalhou entre os meus "amigos" de infância com a velocidade e crueldade de uma peste medieval. E sim, é incômodo. Ver todos fingindo desconhecimento, sorrindo com compaixão postiça, é um espetáculo patético.

Se eu não tivesse Hinata ao meu lado, provavelmente já teria fugido pela porta dos fundos. No fim daquela mesma noite, eu mandei uma mensagem dizendo que concordava com a ideia absurda de Itachi.

Confesso que, no dia seguinte, amaldiçoei a mim mesmo por ter aceitado embarcar nessa loucura. Mas agora... não parece tão ruim. Admito que, quando fui buscá-la na casa do Itachi, fiquei sem fôlego. Hinata estava deslumbrante em um vestido preto de seda, com um decote em "V" que delineava os seios - que, ouso afirmar, estavam livres por baixo do tecido - e uma abertura nas costas que revelava sua pele alva. Os cabelos cacheados caíam suavemente sobre o ombro direito, e a maquiagem destacava ainda mais seus olhos de um azul cristalino. Nos lábios, um vermelho sangue completava o conjunto com uma sensualidade gritante. Não vou fingir moralismo: qualquer homem ficaria tentado. E eu não fui exceção. Ainda assim, me proíbo de ir além desses pensamentos. Afinal, ela está aqui fazendo um favor - e dos grandes.

- Está nervoso? - ela pergunta, quebrando o silêncio e arrancando-me dos devaneios.

- Por incrível que pareça, não - respondo sem encará-la. Ela aperta de leve meu braço.

- Isso é estranho.

- O quê?

- Você não está nervoso, mas eu estou. Isso é mesmo estranho. - Ela sorri, passando a mão pelo rosto. - Eu nem conheço ninguém aqui.

- Talvez porque este seja o seu primeiro casamento - digo sem muito entusiasmo. - Acredite, cerimônias são entediantes. Quase dormi no casamento do Itachi.

- Bom, eu acho bonito. Declarar-se para quem se ama, diante de todos, mesmo sendo clichê... - Ela sorri de novo e me observa em silêncio por um instante.

- O que foi?

- Sua gravata está torta - diz, virando-se para mim. - Eu costumava arrumar a do meu pai.

Ela ajeita minha gravata vermelha - a que Itachi me deu. Eu realmente detesto gravatas, talvez por nunca saber como colocá-las corretamente.

- Vocês homens são tão desajeitados...

- Não costumo usar isso, me perdoe se ficou mal posto - murmuro, enquanto ela ajusta meu colarinho e retorna ao meu lado.

- Agora vamos desfilar por esse tapete vermelho e atrair toda a atenção possível - diz, num entusiasmo que me dá arrepios. Claramente, ela não entendeu que ser o centro das atenções está no topo da minha lista de horrores - especialmente hoje.

- Espera... vamos ficar por aqui mesmo - tento argumentar, cauteloso. Mas ela apenas sorri e puxa meu braço.

- Lembra do nosso acordo? Mostrar que você já está em outra? - sussurra perto do meu ouvido, e um arrepio me percorre. - Vamos mostrar a todos... ou prefere continuar vivendo essa sua vida miserável e solitária?

Ela se afasta devagar, sorrindo com um ar de provocação que não sei descrever. Claro que suas palavras não me passaram despercebidas. Ela está certa - foi por isso que aceitei esse teatro. E não vou recuar agora.

𝓕𝓸𝓽𝓸𝓰𝓻𝓪𝓯𝓲𝓪Onde histórias criam vida. Descubra agora