Depois de tomar banho e vestir uma roupa qualquer, estou reunindo coragem para encarar a Hinata depois da cena mais constrangedora da minha vida. Ela está sentada na sala com uma caneca nas mãos, entretida no celular. Tão distraída que, de alguma forma, me acalma.
Vou até a cozinha, coloco pães na torradeira e espero o café ficar pronto na máquina. Ela sorri de algo que vê no celular. Meus olhos voltam para ela - está com o vestido preto de novo, cabelos soltos, pés descalços. As sandálias largadas ao lado do sofá, como se esperasse pacientemente eu me manifestar para levá-la embora.
E, quando menos espero, flashes do sonho da noite anterior invadem minha cabeça. Me fazem desejar nunca ter dormido. Cada detalhe parece mais real do que deveria: seus beijos, os olhos me encarando tão de perto, as pupilas dilatadas pela adrenalina... Sinto um arrepio desconfortável. O estalo da torradeira me traz de volta à realidade, e agradeço mentalmente pelo susto.
Pego meu café e me sento à mesa, tomando-o devagar. A observo de longe. Ela ainda digita no celular, soltando risadinhas abafadas. A caneca repousa agora sobre a mesinha de centro. Pela leveza do sorriso, deve estar falando com alguém próximo. Então, meu celular vibra. Olho a tela: Itachi.
- Fala - digo, mastigando o último pedaço da torrada.
- Bom dia pra você também, irmãozinho - responde com sarcasmo. Consigo até imaginar a expressão dele.
- Ah, fala logo, Itachi.
- Sempre tão simpático.
Suspiro. Ele nunca vai direto ao ponto.
- Para de enrolar. - Termino o café. - O que foi?
- Bom... meu sogro chegou de viagem. Está esperando a filha do meio, sabe? Seria bom que vocês chegassem logo.
Ele suspira, e a voz abaixa num tom mais sério:
- É sério, temos algo importante pra conversar.
Levanto, coloco a louça na pia e me apoio na bancada.
- E isso significa...?
- Significa que é importante. Vocês têm que estar aqui em trinta minutos. - E desliga.
- Filho da mãe... - murmuro, indo até a sala.
- Pronta? - pergunto, me aproximando. Ela desliga o celular e assente com a cabeça.
- Vou pegar as chaves.
Estaciono o carro em frente à casa. Uma garota de uns quinze anos, claramente parte da linhagem Hyuuga, está na porta. Hinata sai correndo em direção a ela e a abraça. Deve ser a irmã mais nova. Ela tem os traços delicados e firmes da Meyrumi - cabelos longos castanhos escuros e os olhos azul-claros, quase translúcidos como os da Hinata.
Fico observando de longe enquanto Hinata fala, animada, e a garota sorri, visivelmente feliz. É bom ver esse tipo de conexão entre elas. Me afasto e ouço a voz do Itachi me chamar.
- E então? Bonitinha, né? - comenta, se aproximando. Reviro os olhos.
- Qual é o assunto importante, afinal? - pergunto, desconfiado do sorriso dele.
- Vem comigo buscar nossos pais no aeroporto - responde casual, como se não tivesse dito nada demais.
Suspiro. Tinha esquecido desse detalhe: dona Mikoto está voltando. Preciso preparar meu psicológico pra isso.
- Esqueceu, né? Típico de você, Sasuke.
- Não me enche - resmungo, entrando no carro.
- Irmãozinho tolo... Quando vai amadurecer?
- Do que você tá falando?
- Nada. Você não entenderia.
- Tá estranho desde hoje cedo. Aconteceu alguma coisa?
Ele não responde. Apenas sorri e muda de assunto:
- O que você e a Hinata fizeram ontem?
Ignoro o comentário.
- Ok, tudo bem. Não vou insistir. Me acorda quando chegarmos no aeroporto - digo, fechando os olhos. Não é que eu vá dormir. Só não quero continuar ouvindo a ladainha do Itachi.
Ligamos o rádio. A viagem passa em silêncio até que, ao chegarmos, ele me dá um tapa no peito.
- Aí! - grito, irritado.
- Vamos logo - responde sorrindo. Ele definitivamente está animado com algo. E isso me incomoda.
- Se fizer isso de novo, eu te soco.
- Como é possível que um cara de 21 anos ainda seja tão infantil? - solta, de repente.
- O que você tem hoje, hein? Quer mesmo levar um soco?
- Nada de mais. - Ri. - Como foi o casamento do ano?
- Chato, como o seu.
- Como foi mesmo?
Ele enfatiza, e eu entendo o que ele quer dizer.
- Naruto não parecia nada bem. O Shikamaru disse que ele mudou muito desde o que aconteceu... Eles não se viram mais. A tia dele morreu, e ele foi pra Coreia. Estava abatido, cabelo grande, barba por fazer... Acho que só foi por causa da Karin. Parecia perturbado.
- E ver ele assim... não te fez feliz?
- Acho que não.
- Bom... isso não é de todo ruim. O tempo se encarrega de tudo. Como a mãe sempre diz.
E falando nela...
O vozeirão da dona Mikoto ecoa quando ela sai pelos portões, logo atrás vem meu pai, como sempre com aquela expressão impassível.
- Lá vamos nós - murmura Itachi.
Ele corre até ela e é recebido com beijos, abraços e aquela típica euforia maternal. Fico ali por um tempo, observando. Quando meu pai chega perto, me aproximo e o abraço - é o máximo de afeto que ele demonstra, e eu entendo. Talvez por isso eu também seja assim.
- Meu filho! - Mikoto me envolve num abraço apertado.
- Oi, mãe.
Ela me beija o rosto, passa a mão no meu cabelo.
- Está tão bonito... mais alto... parece forte!
Itachi ainda conversa com nosso pai, enquanto ela continua animada.
- Tinha tanta moça bonita no cruzeiro... peguei até o número de algumas pra você...
- Mãe - corto rapidamente. - Que tal irmos logo pra casa do Itachi? Vocês devem estar cansados da viagem.
Ela concorda. Ufa. Escapei.
- Os meninos estão com saudades da vovó e do vovô - completa Itachi, piscando pra mim.
- Awn, meus netinhos! - exclama ela, caminhando animada com Itachi.
Fico com meu pai.
- Como anda o trabalho?
É quase surpreendente ouvir isso dele. Sei que ele nunca engoliu minha desistência da faculdade de Direito, muito menos o fato de eu virar fotógrafo. Mas... é o que escolhi.
- Está indo bem - respondo firme.
Ele apenas assente, e começa a caminhar. Fico parado por um momento, depois o acompanho.
- Obrigado por perguntar - murmuro, só pra mim.
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𝓕𝓸𝓽𝓸𝓰𝓻𝓪𝓯𝓲𝓪
RomanceVocê acredita em amor a primeira vista? Sasuke uchiha não, ele nunca foi o tipo de cara que sonhava em encontrar o amor da sua vida numa esquina, muito menos a primeira vista. Digamos que ele é até um pouco fechado em relação á sentimentos amorosos...
