Capítulo 50

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A decisão veio numa madrugada silenciosa, dessas em que tudo está em paz e justamente por isso você se sente à vontade para pensar no futuro sem medo. Hinata estava sentada na ponta da cama, os pés descalços no carpete, os cabelos presos de qualquer jeito num coque frouxo. Olhava o calendário com aquela expressão concentrada que me fazia lembrar por que eu me apaixonei por ela: porque até quando está perdida nos próprios pensamentos, parece saber exatamente onde está.

— Meyrumi tá com nove meses. — ela disse, mais pra si do que pra mim. — Se a gente fizer a cerimônia aqui... eles não vão conseguir vir.

— Nem deveriam tentar. — falei, me sentando ao seu lado. — Meu irmão surtaria se ela entrasse em trabalho de parto num voo.

Ela assentiu, os olhos fixos em algum ponto invisível à frente.

— E a maioria dos nossos amigos e familiares estão no Japão. Seria egoísmo pedir que todos viessem até aqui, só por nossa causa.

Ficamos em silêncio. O tipo de silêncio confortável, que não exige palavras porque tudo já foi dito no espaço entre os olhares.

— Então... vamos fazer lá? — perguntei, com calma. — Em casa.

Hinata virou o rosto devagar, e o sorriso dela foi quase um alívio.

— Sim. Em casa.

**

As semanas seguintes foram uma mistura caótica de malas, reservas, ajustes de última hora e despedidas temporárias. O pai de Hinata, Hiashi, nos acompanharia — o que, admito, me deixou tenso nas primeiras 48 horas. Mas ele tem sido mais silencioso que intimidador, e o fato de não ter tentado me decapitar com um olhar desde o anúncio oficial do noivado já é um grande progresso.

Hanabi veio também, animada, falando sobre flores, vestidos e playlists de casamento como se fosse a produtora executiva de um evento de gala. E talvez fosse. Eu aprendi, nos últimos dias, que subestimar uma adolescente apaixonada por organização é assinar sua própria sentença.

— Vocês têm que pensar nas fotos! — ela dizia, segurando o iPad com um painel de referências que parecia ter saído de uma revista internacional. — Eu achei uma pousada em Kyoto que faz cerimônias de primavera com vista pro lago. É poético. É tradicional. E tem sakuras, Sasuke. Sakuras.

— Você tá tentando me vender isso ou convencer a si mesma? — questionei, arqueando uma sobrancelha.

— Estou tentando te salvar de um casamento cafona com carpete vermelho e lustre de cristal.

Ela tinha um ponto.

**

O voo foi longo, mas silencioso. Hinata dormiu encostada no meu ombro quase o tempo todo. Em algum momento da viagem, entre turbulências e cochilos, eu me peguei observando as mãos dela sobre a barriga — um gesto involuntário, protetor, quase simbólico. E ali, no meio do oceano, com todo o resto suspenso no ar, me ocorreu que estávamos indo na direção certa. Que era isso: o retorno. À terra. À origem. Ao que realmente importa.

Chegamos ao Japão com o cheiro do verão antecipado misturado ao perfume nostálgico das estações passadas. Meyrumi ainda estava grávida, incrivelmente grávida, o suficiente para deixar Itachi andando em círculos, medindo contrações com o cronômetro do celular e gritando "isso foi uma contração real ou emocional?!"

Mas estavam bem. Estavam ali. E isso bastava.

Depois de sobreviver a Naruto em modo catástrofe e à diplomacia improvisada com meu pai, achei que o dia tinha rendido o suficiente. Mas Hinata insistiu para eu ligar pro Itachi. Disse que seria bom contar diretamente, antes que ele descobrisse por algum canal alternativo – tipo a mãe, o Shisui ou, pior, os gêmeos.

𝓕𝓸𝓽𝓸𝓰𝓻𝓪𝓯𝓲𝓪Onde histórias criam vida. Descubra agora