Dizem que a cerimônia de casamento é o clímax de uma história. Mentira descarada. O verdadeiro inferno mora nos bastidores, nas engrenagens invisíveis que giram sem parar muito antes do grande dia: preparativos intermináveis, familiares que metem o nariz onde não foram chamados, flores que — segundo alguma decoradora inspirada — "não combinam com a aura do casal", alfaiates que acreditam conhecer melhor meu gosto pessoal do que eu mesmo.
Nunca tive paciência para multidões, nunca precisei delas. Ironia do destino: vou me casar diante de uma.
A manhã começa com Itachi batendo na minha porta como se tivesse esquecido que não moro mais na casa dos nossos pais. Sempre esse jeito seco, autoritário, como se ainda tivesse o direito de atravessar todas as minhas fronteiras. Ele entra sem esperar resposta — um hábito irritante que cultiva desde que aprendeu a abrir portas sozinho.
— O alfaiate está esperando. — anuncia, com aquele tom de voz que transforma qualquer frase numa ordem militar.
Estou sentado na beira da cama, ainda de camiseta e calça de moletom, encarando a janela aberta. A cidade respira um ar pesado, e eu me sinto estrangeiro no próprio país.
— Não pedi alfaiate. — respondo, ríspido.
— Eu pedi. — ele rebate, ajeitando a manga do próprio terno impecável. Sempre pronto, sempre perfeito, como se até o ar ao redor dele fosse ensaiado.
Atrás dele, surge Shisui, recostado no batente da porta, braços cruzados, expressão curiosa. É diferente de Itachi — não tenta me controlar, mas observa como se eu fosse um experimento interessante. Me pergunto quantas versões minhas ele coleciona mentalmente, só para rir depois.
— Relaxa, Sasuke. — diz ele, com um meio sorriso, o tipo de sorriso que irrita justamente por parecer sempre no lugar certo. — É só uma roupa. Não vai te matar.
— Duvido. — resmungo.
O alfaiate entra sem cerimônia, acompanhado de um assistente que carrega tecidos caros como se fossem relíquias sagradas. O homem fala rápido, gesticula demais, me mede como se eu fosse um manequim mudo prestes a ser leiloado. Tento protestar, mas Itachi e Shisui se posicionam como duas sentinelas, bloqueando qualquer rota de fuga com seus olhares.
— Precisa estar apresentável. — Itachi sentencia, sem emoção.
— Não sou um manequim. — digo, tentando me afastar.
— Ninguém disse que é. — Shisui intervém, e por um instante quase soa conciliador. — Mas você vai se casar. Querendo ou não, as pessoas vão te olhar.
Essa última frase fica presa na minha mente. "As pessoas vão te olhar." Sempre olharam. Sempre houve olhares: de julgamento, de comparação, de expectativa. No fundo, nunca gostei deles. A diferença agora é que, pela primeira vez, não estou sozinho no centro do palco. Hinata também estará lá.
À tarde, seguimos para Kyoto. O templo escolhido pelos Hyuuga é tradicional, amplo, cercado por jardins meticulosamente cuidados. Há uma ordem quase cruel em cada detalhe: as pedras no caminho dispostas com precisão geométrica, as árvores podadas até perderem qualquer traço de selvageria. Flores de cerejeira salpicam o ar como neve cor-de-rosa, e eu me sinto parte de uma pintura na qual nunca pedi para estar.
Hinata está em meio a um círculo de mulheres — estilistas, decoradoras, primas opinativas e, claro, Hanabi, que parece liderar a tropa como uma general em campo de batalha. Ela segura uma prancheta, aponta, discute, e todos parecem obedecer sem questionar.
Fico parado à distância, observando. É estranho como Hinata se move nesse caos sem perder o equilíbrio. Parece até que o tumulto a atravessa sem tocá-la, como se fosse feita de outra matéria. Quando seus olhos encontram os meus, tudo silencia por alguns segundos. O barulho ao redor se dissolve, e o único som que resta é o riso suave que escapa dela.
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𝓕𝓸𝓽𝓸𝓰𝓻𝓪𝓯𝓲𝓪
RomanceVocê acredita em amor a primeira vista? Sasuke uchiha não, ele nunca foi o tipo de cara que sonhava em encontrar o amor da sua vida numa esquina, muito menos a primeira vista. Digamos que ele é até um pouco fechado em relação á sentimentos amorosos...
