Capítulo 3

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Acordei com alguém esmurrando a porta do meu apartamento, e juro - com todas as minhas forças - que, se não estivesse em pleno juízo, teria assassinado a criatura que ousava fazer isso. Nunca gostei de acordar cedo, e menos ainda de ser arrancado dos meus sonhos no meu precioso e merecido dia de folga.

Caminhei até a porta com o humor de um cão raivoso, apenas para evitar que aquele ser humano surtado a arrombasse de vez.

- Quem, em nome de todos os demônios do submundo, está destruindo a minha porta logo cedo? - gritei enquanto girava a maçaneta com fúria. - Itachi? Ótimo. Tinha que ser meu irmão.

- Em primeiro lugar, não é mais "cedo". Já são 14h54min - respondeu, consultando seu ridículo relógio de pulso como se fosse o próprio Senhor do Tempo. - Em segundo lugar, eu preciso da sua ajuda. Urgente.

- Pra quê? Você sabe que hoje é a minha folga, né? Me deixa em paz. Tô exausto! - disse, já tentando fechar a porta na cara dele, mas, como sempre, ele não deixou.

- Deixa de ser um pé no saco, Sasuke! Tô com pressa e realmente preciso de você. Vai logo se trocar, sem drama! - Odeio a maneira como ele fala comigo. Sempre dando ordens como se fosse meu pai.

- Não, Itachi. Não tô nem aí se você tá com pressa ou se precisa salvar o mundo. Agora dá o fora e me deixa voltar a dormir, antes que eu perca o resto do bom humor que ainda me resta! - retruquei, empurrando a porta. Mais uma vez, ele a segurou.

- Sasuke, eu não vou pedir de novo. Vai se trocar. É importante.

- Que saco, cara! Já vi que, se eu não for, você vai ficar me perturbando até o fim do dia... Tá bom, vou tomar um banho rápido e a gente vai. - Odeio dar o braço a torcer. Mas, entre a paz e a insistência do meu irmão, fico com a paz.

Tomei uma chuveirada rápida, vesti uma camisa social preta e uma calça jeans da mesma cor. Um pouco de perfume e fui até a sala, onde Itachi me esperava impaciente - o que só confirmava o quanto ele realmente estava aflito.

- Vamos logo, Itachi. Quero voltar antes do jogo de basquete. - resmunguei, já na porta.

- Leva sua câmera. Você vai precisar. - disse ele, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

- Você quer que eu trabalhe pra você hoje... como fotógrafo? - perguntei, tentando entender se aquilo era mesmo sério.

- É por aí. - respondeu, já caminhando até a porta. - Te espero lá embaixo. - e saiu, como se tivesse encerrado um contrato.

Peguei a câmera, desci, e fomos no carro dele até um restaurante não muito longe da empresa "Uchiha", da qual ele agora era presidente. Assumiu o posto há cerca de sete meses, logo após nosso pai decidir que era hora de pendurar o terno.

Durante o trajeto, minha mente fervilhava com a dúvida: por que, exatamente, ele quase arrebentou minha porta?

- Posso saber qual é o motivo desse alvoroço todo? - perguntei, com os olhos semicerrados.

Itachi permaneceu em silêncio por alguns instantes, até que finalmente respondeu:

- Hoje é meu aniversário de casamento... e eu tinha me esquecido. Tive que improvisar tudo de última hora. - Olhei pra ele e balancei a cabeça, rindo.

- Agora faz sentido. Mas você não podia simplesmente levá-la pra jantar à noite? Sei lá, cinema? Um fondue romântico? - disse, sem muita empolgação.

- Era o plano. Mas tenho uma conferência em Nova Iorque daqui a seis horas. - disse com seriedade, enquanto estacionava diante do restaurante.

- Uhm... e o que exatamente eu tenho que fazer? - perguntei, já saindo do carro.

- O que você faz de melhor: tirar fotos dos convidados. - respondeu, entrando como um general no salão de guerra.

- Ok, mas quero ser bem pago por isso. - reclamei, seguindo atrás dele.

- Isso é óbvio. Não te arrastei aqui à toa. - disse, já cumprimentando o recepcionista.

- E quero fotos como as do meu casamento, viu? - completou, enquanto éramos conduzidos por um atendente.

O restaurante estava relativamente calmo. Nada de decoração espalhafatosa, nem ambiente reservado exclusivamente para eles - o que me surpreendeu um pouco. Esperava algo mais... Itachi.

Ele parecia nervoso. E só o vi assim uma vez: há seis anos, exatamente nesse mesmo dia.

Na época, estava em pânico porque Meyrumi, sua noiva, havia se atrasado. Jurava que ela fugiria. Foi, sem dúvida, o momento mais divertido da minha vida.

- Seus momentos estão em boas mãos - murmurei, com um leve sorriso.

Havia uma parte reservada no restaurante onde os convidados se reuniam. Dei uma boa olhada ao redor, procurando nossos pais, mas aparentemente não estavam ali. Itachi não conseguia esconder o incômodo. Meyrumi estava atrasada... de novo.

- Relaxa, cara. Mulheres gostam de fazer o homem esperar, é um clássico. - falei, jogando o braço por cima de seus ombros.

- É... eu sei. Mas nunca me acostumei com isso. - respondeu, rindo sem graça e afastando meu braço. - Vou ligar pra ela. Vai tirando as fotos.

- Beleza. Mas relaxa, vai dar tudo certo. - disse, sorrindo enquanto ele saía.

Segui com minha função. Tirei fotos de convidados conhecidos, desconhecidos, bem-vestidos, mal-vestidos, sorridentes, entediados... até que, de repente, minha câmera captou alguém que eu ainda não tinha notado. Uma mulher.

Não sei explicar como ou por quê. Mas bastou vê-la através das lentes, e tudo ao redor pareceu emudecer. O tempo parou.

E foi ali, naquele instante entre um clique e outro, que eu senti: amor à primeira vista.

𝓕𝓸𝓽𝓸𝓰𝓻𝓪𝓯𝓲𝓪Onde histórias criam vida. Descubra agora