- O que você pensa sobre o futuro? - ela me pergunta sorridente, enquanto caminhamos de mãos dadas pelo campus.
- Não sei... Na verdade, eu não quero ser advogado como meu pai quer - respondo, sem muita importância, apertando com firmeza sua mão pequena. O vento sopra forte, mas de um jeito acolhedor.
- Então o que você realmente quer ser? - ela pergunta animada.
- Pode parecer idiota, mas... - Sou interrompido.
- Não diga que seus sonhos são idiotas! Assim você realmente parece um idiota! Idiota! - Ela para de repente, me forçando a parar também. Um bico se forma em seus lábios. - Sasuke, nossos sonhos podem parecer estranhos, inúteis, impossíveis para os outros... Mas nunca devemos desistir deles! Afinal, eles são nossos, não dos outros.
- O que você quer dizer com isso? - pergunto, olhando-a intensamente.
- Que, seja lá o que você quiser fazer, apenas faça. Essa é a sua vida, não a do seu pai - conclui com aquele sorriso. O mesmo sorriso que me fez me apaixonar.
- Que bela namorada eu arrumei - comento antes de beijá-la, até o ar nos faltar. - Obrigado por me apoiar.
- Eu sempre vou te apoiar, Sasuke. Sempre. - E a beijo mais uma vez.
Acordo suado, com a respiração acelerada. Meu corpo dormente, minha mente em outro lugar.
Droga... Por quê? Por que sonhar com ela? Por que lembrar disso agora?
- POR QUE VOCÊ TEVE QUE APARECER NA MINHA VIDA?! - grito, passando as mãos pelos cabelos.
- Sasuke... tudo bem com você? - ouço uma voz feminina no corredor. Droga. A cabeça a mil e eu nem lembrava que ela estava aqui.
- Estou bem - respondo, sentado na cama. O quarto já está completamente iluminado pelo sol. - Ah... Que droga - sussurro para mim mesmo.
- Uhm... eu fiz café, se não se importa - ela diz do lado de fora.
- Não, claro que não. Obrigado - digo, me levantando. Caminho até a janela e observo a cidade. Nem parece o mesmo lugar que horas atrás estava encoberto pela chuva. Agora o sol se impõe, como se nada tivesse acontecido.
No banheiro, me encaro no espelho: cabelos assanhados, olhos inchados, rosto amassado. Essa é minha visão todos os dias depois de uma noite mal dormida. Entro no box e deixo a água escorrer pelo corpo, tentando me acalmar.
Como isso foi acontecer? Sonhar com aquela traidora depois de tanto tempo? Justo hoje? Por que ela ainda me atormenta? Por que ainda penso nela? Por que não encontro respostas para os meus porquês?
- Droga, Sasuke! - bato o punho contra os azulejos. Meus dedos latejam, a dor pulsa. - Droga! Droga! Droga! DROGA!
Batidas na porta.
- Ei... você tá bem mesmo? - a voz dela soa calma e mansa mais uma vez. - Se quiser que eu vá embora, é só dizer. Não quero incomodar...
- NÃO! - grito. - Você não está incomodando, eu apenas...
- Tudo bem. Eu entendo. Sei pelo que está passando... Já te contei o que aconteceu comigo - diz, pausadamente. - Se quiser desabafar, sou toda ouvidos. Afinal, você foi meu ouvinte ontem, quando falei do meu namoro furado por causa da formatura...
- Eu... eu quero desabafar - digo enfim. - Quero falar com alguém que não seja o Itachi.
- Eu estou aqui.
Eu sei que não deveria, mas meu coração palpitou por um breve instante com essa frase. Tão rápido que me forcei a esquecer.
[...]
Na cozinha, sinto o cheiro de café e panquecas. Aproveito e como um pouco - minha cabeça ainda é um caos. Por que sonhei com ela depois de tanto tempo? Já não bastava minha vida ser complicada, agora isso vem tirar a pouca paz que eu tinha. Estava bom demais pra ser verdade.
- E então... como você está? - Hinata se aproxima da mesa.
- Está muito bom. Você cozinha bem - digo, tomando um gole de café. Forte e amargo, do jeito que gosto.
- Eu não estava falando do café. Eu sei que sou uma boa cozinheira - brinca, sorrindo. Retribuo com um sorriso involuntário. - Perguntei como você está se sentindo. Melhor?
- Ah... sim. Bem melhor - levanto e levo as louças até a pia. - Desculpa por aquilo. Não costumo surtar assim de manhã.
- Você teve um sonho ruim? - pergunta, ainda sentada.
- Digamos que sim - sorrio fraco. - Na verdade, foi mais uma lembrança.
- Com a sua ex? - apenas assinto. - Ainda quer desabafar?
Assinto de novo.
- Sou toda ouvidos - sorri.
- Conheci ela na faculdade. Em uma festa, pra ser mais exato. Ela era a garota mais linda do campus e, sinceramente, não sei o que viu em mim...
Hinata me observa em silêncio enquanto conto. Como descobri que nascia uma bela galhada de chifres em minha cabeça. Sua expressão não muda, não demonstra pena - e isso, curiosamente, me conforta.
Esses meses todos me perguntei: por que isso aconteceu comigo? Mas agora, olhando de outro ângulo, percebo que não sou o único que sofreu por amor. A verdade é que a dor é democrática. E mesmo assim eu fico lamentando algo tão comum, quase banal.
- ...E foi isso - concluo. Ela continua em silêncio, pensativa. - Eu sei, parece idiota ainda pensar nela, me deixar transtornado assim. Acredite, isso me assusta. Depois disso tudo, me fechei completamente para relacionamentos.
- Posso dar minha opinião? - pergunta, apoiando o queixo na mão. Concordo, e ela continua: - Bom... Eu acho que eles são dois babacas. Na verdade, você também é.
A olho incrédulo.
- O quê? Como assim? Eu fui traído, e sou o babaca da história?
- Pode dizer o que quiser, minha opinião continua a mesma - responde com calma. - E posso dizer o mesmo sobre você: também não me conhece. Por isso deixo passar. - Ela se aproxima. - Antes de tudo, eu perguntei se podia dar minha opinião. Você precisa aprender a ouvir mais.
- Como assim "ouvir mais"? Você me chama de babaca por ter levado chifres e espera que eu fique calmo?
- Abaixa a bola, vai - sorri com ironia. Retiro o que disse sobre ela ser doce. Nunca vi um doce tão amargo. - Posso terminar ou quer que eu vá embora, te deixando exatamente como está: parecendo um babaca?
Suspiro e me sento no sofá.
- Como eu dizia, eles são dois babacas pelo que fizeram. Mas você também foi. E sabe por quê? Porque continua vivendo no passado. Você se agarra à dor como se ela fosse parte de quem é. Você se colocou no papel de vítima e não saiu mais de lá.
- Então você acha que eu sou um covarde?
- Eu acho que você é um cara pessimista que teve o coração partido e agora se esconde. Você foi apaixonado demais por alguém que não te merecia. Mas isso não define quem você é.
Ela respira fundo e me encara.
- Eu tenho certeza de que, se você se permitir amar de novo, vai ser algo lindo. Não é porque alguém errou com você que todos vão errar. Quando alguém certo aparecer, você vai esquecer tudo. Porque, quando estiver com essa pessoa, o mundo vai parar. E só vai existir vocês dois.
Ela se levanta e vai até a mesa, pegando a bolsa.
- Preciso ir. Já te incomodei demais. E minha irmã deve estar furiosa comigo.
A vejo pronta para sair, de vestido lilás e bolsa em mãos. E então, sem pensar, a beijo.
Seus grandes olhos azuis me encaram, surpresos, quase assustados. Nem eu sei o que me deu. Mas em algum momento, ela retribui. Minhas mãos descem até sua cintura. Seus braços envolvem meu pescoço.
Eu nunca imaginei fazer isso. Não com uma desconhecida. Mas a sensação de solidão me deixou apavorado. E só a ideia de tê-la ido embora me fez agir.
Agora não tem volta.
VOCÊ ESTÁ LENDO
𝓕𝓸𝓽𝓸𝓰𝓻𝓪𝓯𝓲𝓪
RomanceVocê acredita em amor a primeira vista? Sasuke uchiha não, ele nunca foi o tipo de cara que sonhava em encontrar o amor da sua vida numa esquina, muito menos a primeira vista. Digamos que ele é até um pouco fechado em relação á sentimentos amorosos...
