Capítulo 10

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Abro a porta do meu apartamento, e logo atrás de mim Hinata adentra o espaço. O céu, encoberto por nuvens densas, ameaça desabar a qualquer instante.

Volto meu olhar para a esquerda e percebo seus olhos azuis percorrendo, com minuciosa atenção, cada detalhe da sala de estar.

- Uau... seu apartamento é enorme - comenta, enfim.

- É... eu também acho - respondo, enquanto sigo em direção à cozinha. Minha garganta anseia pelo gosto familiar do álcool. - Quer beber algo? Uma cerveja, talvez?

- Sim, por favor - diz com um leve aceno. - Para um homem solteiro, você até que é bem organizado.

- Nem sempre - digo, entregando-lhe uma latinha. - Nas minhas folgas, costumo passar o dia inteiro deitado, sem fazer absolutamente nada. Por isso, arrumo toda a bagunça no dia anterior.

- Uma boa estratégia - responde, levando a cerveja aos lábios. - Você se livra do problema antes, pra poder curtir seu descanso do seu jeito.

Dou um longo gole na minha latinha antes de retomar a conversa.

- Itachi me disse que você mora na Europa. Posso deduzir que é inglesa. Como fala tão bem japonês?

- Bem, na verdade morei bastante tempo por lá. Na Inglaterra, para ser mais precisa. Mas tenho descendência japonesa. Meu pai nasceu e cresceu aqui. Já minha mãe era inglesa, de sangue puro - dá mais um gole. - Ele sempre que podia nos ensinava japonês, mas eu diria que não sou assim tão boa.

- Para alguém que não mora aqui, você fala muito bem - comento, observando mais uma vez aquele sorriso sereno se formar em seus lábios. - Sua irmã não vai ficar chateada por você ter saído?

- Provavelmente. Mas não me senti confortável no meio de tantas pessoas desconhecidas - responde, aproximando-se de mim e estendendo a latinha vazia.

- Eu também sou um desconhecido... e, ainda assim, você parece à vontade comigo.

- Você não é exatamente um desconhecido. Já tinha ouvido falar de você - diz, caminhando até o sofá, onde se senta com tranquilidade. Acompanho seu gesto e me acomodo no outro sofá, de frente para ela. - Você é Sasuke Uchiha, 21 anos - quase 22, se não me engano -, fotógrafo e cunhado da minha irmã mais velha - afirma com um sorriso perspicaz.

- Uau, você sabe mais sobre mim do que eu imaginava - retruco, retribuindo o sorriso. - Já eu... só sei o seu primeiro nome.

- Agora quem está surpresa sou eu. Você diz que não sabe nada, mas falou sobre minha faculdade, o curso que fiz, até o país onde moro. Fora o chute certeiro sobre eu ser inglesa.

- Isso é verdade... mas ainda não sei sua idade ou seus ideais - digo, fitando-a com atenção.

- Meus ideais? - repete, confusa. - Nunca parei para pensar nisso... talvez eu não precise de ideais, apenas de sonhos.

- E quais seriam esses sonhos? - pergunto, curioso. Apesar do pouco tempo que passei ao lado de Hinata, ela parece despertar em mim uma série de dúvidas, reflexões e sentimentos inesperados - tudo isso em uma tarde banal de sábado.

- Sonhos comuns, eu diria - responde, passando a mão pelos cabelos.

- Comuns, tipo... encontrar um cara legal, casar e ter um monte de filhos, comprar uma casa enorme com vista para o mar em algum lugar tropical, abrir seu próprio negócio e juntar dinheiro suficiente pra bancar a faculdade de todos eles. E, quem sabe, aos cinquenta, se aposentar e passar o resto da vida viajando o mundo num cruzeiro da terceira idade? - despejo tudo num único fôlego, e só depois percebo o absurdo do que acabei de dizer. Merda. Ela deve achar que sou um idiota que fala besteira. E, sim, eu sou esse idiota.

𝓕𝓸𝓽𝓸𝓰𝓻𝓪𝓯𝓲𝓪Onde histórias criam vida. Descubra agora