Cap 10: Uma semana

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Gulf hesitou o momento, mas já não sentia medo. Na verdade, o que acabará de acontecer com os ferimentos de Thorn colaborava com sua certeza e alimentava sua decisão de que devia ir embora daquele lugar. Os dois Suppasits a sua frente não lhe pareciam ameaçadores; talvez estivessem um pouco irritados com sua intenção de ir embora.

  — Então me acompanharam o castelo de meu primo?

  — É melhor que volte para o castelo – a voz firme de Mew soou as suas costas, e Gulf se virou para enfrentá-lo.

  — Decidi continuar minha viagem — Gulf o fitou nos olhos.

  — Pretendia partir sem escolta na calada da noite, e sem levar sua bagagem? — Perguntou o Mew.

  — Eu... — Sem saber o que dizer, Gulf virou-se para Thorn. — Por que você não seguiu com os outros que o uivam para a lua?

  — Uivar para a lua não é muito diferente de cantar ao Luar — respondeu Thorn com um sorriso, e Gulf cora ao se lembrar da ocasião em que fizera a sua higiene no bosque, antes do ataque dos ladrões.

  — Você me observava? Que coisa rude! Afastei-me da escolta à procura de privacidade.

   Neste momento, Mew o segurou pelo braço e olhou-o no fundo dos olhos:

  — Porque ia embora do Castelo?

   Gulf se sentiu pronto para dizer a verdade revelar que já sabia quem eram, mas as palavras não saíram. A maneira como eles o fitavam agora e sua tentativa de fuga demonstravam que compreenderá a verdadeira natureza do clã do Suppasits.

— Decidi que não queria mais jogar este jogo! Estava indo para o castelo de meu primo.

  — Sozinho no escuro da noite? – Questionou o Mew.

  — Me pareceu o melhor momento. Gulf percebeu imediatamente a própria estupidez. Afinal, fugir de Cambrum num dia de sol teria sido uma escolha muito mais segura. — Já expliquei que desejo conhecer nobres da corte, que tenho vontade de dançar em bailes elegantes, ser cortejado por cavalheiros e usufruir da vida social e dos galanteios que as senhoritas e cavalheiros ouvem quando...

   Neste momento, contudo, Mew ergueu-o e o atirou sobre o próprio ombro como se ele não pesasse nada. Em silêncio, ele passou a caminhar de volta para o castelo, sem dar atenção aos protestos dele. Gulf soltou as roupas que trazia enroladas e começou a arranhar-lhe as costas, mas o casaco grosso de Mew tornava inútil tal ataque. À distância, Gulf ainda notou que Thorn e Sky se divertiam com a cena, mas Mew seguiu imperturbável até o castelo e escada acima, e só tornou a colocá-lo no chão quando entraram no quarto.

   — Sei que sou teimoso, mas você não é diferente de mim. Porque tentar fugir as nossas costas? Que pensa ganhar a ouvir galanteio de cavaleiros que só estarão interessados na riqueza do dote que sua família oferecerá aquele que se tornar seu esposo? Será que não sabe que os nobres agem por interesse e para aumentar a própria riqueza e prestígio?

   Irritado, Mew se afastou e fitou o fogo que crepitava na lareira. Sem saber o que dizer, Gulf se manteve calado até ele voltar.

  — É melhor tirar o casaco e se preparar para deitar! — Mew falava num tom que não admitia contestação.

   Gulf não estava acostumado cumprir ordens, mas mesmo assim obedeceu. Quando ele tirou o casaco, entretanto, Mew se aproximou, tornou a erguê-lo e o deitou no leito. Em seguida, segurou seus braços de maneira a imobilizá-lo.

  — Vai ficar aqui. Eu o cortejarei até que concorde em casar-se comigo.

— Não seja arrogante... Pode me cortejar se quiser, mas isso não significa que aceitarei ser seu marido.

   Mew pareceu hesitar, como se lutasse para não seder a um impulso interior; no instante seguinte, contudo, suspirou como se perdesse a batalha e então se deitou sobre Gulf, aproximando o seu rosto do dele. Confuso, Gulf teve de admitir que aquele contato o excitava e que o calor do corpo do Lorde sobre o seu revelava que Mew estava longe de ser um morto vivo, e seu aroma masculino o deixava inebriado. Mas o pior era que agora ele exibia um brilho de desejo nos olhos que o tornava mais vivo que nunca, e Gulf reconheceu que também o desejava, mesmo preferindo que não fosse assim.

   Mew era um homem lindo, e Ainda que houvesse descoberto a verdadeira natureza daquele Lorde, seu corpo reagia automaticamente, impelindo o abraçá-lo e puxá-lo de encontro a si.

  — Juro que jamais o machucarei — disse ele, afinal rompendo aquele momento em que ambos pareciam enfeitiçar um ao outro.

  — E porque devo acreditar em tal juramento?

   Mew ainda o fitou por um breve instante, então beijou-o suavemente na testa, fazendo-o arrepiar-se com o contato daqueles lábios quentes e finos.

   — Creio que já acredita no que lhe digo. Penso que já sabe que está seguro ao meu lado, e que tanto eu como Thorn ou Sana e Sky o protegeremos dos perigos deste Castelo — Mew então inclinou ainda mais o rosto e beijou seus lábios com delicadeza.

   Porém Gulf não se rendeu a carícia. Mew tornou a distanciar o rosto, e Gulf respirou  fundo antes de falar.

— Talvez esteja a salvo com vocês, mas há outros no clã que não me querem aqui e poderão me ferir.

— Jamais permitirei que lhe façam mal!

— Ainda assim, não tem o direito de me manter prisioneiro.

  — Não pode ao menos conceder a graça e a gentileza de permanecer uma ou duas semanas com aqueles que lhe salvaram a vida?

  — Não é justo usar minha gratidão como argumento para me obrigar a ficar neste Castelo.

— Só peço mais alguns dias para me dar a chance de provar que minhas intenções são genuínas, e que não corre perigo comigo a seu lado. Não lhe Pedirei mas que uma semana.

  — Uma semana?

  — Sim. Amanhã enviarei o mensageiro ao castelo de seu primo para avisá-lo que você está sã e salvo aqui conosco.

  Gulf ainda ia retrucar que uma semana não o faria mudar de ideia, mas neste momento Mew colou seus lábios aos dele, impedindo-o de dizer o que quer que fosse. Ele jamais se vira em tal situação: um homem forte e atraente deitado sobre seu corpo e introduzindo a língua em sua boca, numa carícia quente e úmida, que o fazia arrepiar-se.

   Um imenso calor começou a tomar conta de seu corpo enquanto Mew aprofundava ainda mais o beijo. Gulf se sentia vivo como nunca, uma sensação inédita e agradável; o medo e aí irritação o abandonaram, substituídos por prazer e vontade de se entregar. Sem pensar, ele enfim entendeu e retribuiu a carência, permitindo que suas línguas se encontrassem num contato que nada tinha de pecaminoso ou errado. Mas a magia do momento logo terminou, e Mew se levantou, deixando aturdido sobre a cama. Gulf tinha a respiração ofegante, e o coração batia acelerado em seu peito. Mew apenas o fitava, em pé ao lado do leito.

   Nenhum homem me fez sentir isso antes, pensou Mew a olhar o corpo desprotegido de Gulf lutando contra o impulso de voltar a colar seu corpo ao dele. Era incrível mas aquele beijo tomara conta do seu ser, e tudo que pensava agora era que queria mais, que desejava tê-lo por completo. A repentina entrega e calorosa reação de Gulf demonstrava que ele era capaz de sentir e proporcionar uma paixão enorme; e agora Mew decidia que aquela paixão tinha de ser sua. 

  Contudo, era necessário dar tempo ao tempo e permitir que a união completa se consumasse apenas quando também Gulf o desejasse.

  — Já é tarde e você deve descansar, meu caro. — Mew ainda olhou-o de modo caloroso por um breve momento antes de partir, deixando-o deitado sobre o leito.

  Confuso, Gulf se levantou assim que se viu a sós. Estava irritado, mas algo lhe dizia que o verdadeiro motivo de sua zanga era o fato de Mew ter partido. Aquele homem trouxera um novo lado seu à tona, um lado que ele possuía sem saber.

  No fundo, Gostaria que ele voltasse e de novo o tomasse nos braços e o beijasse.        — Uma semana — murmurou para si mesmo enquanto trocava de roupa. — Somente terei de me manter afastado de sua sedução por uma semana, então estarei livre...

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