19 - Eu vou matar o Josh

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Eu não consegui responder de pronto. Meu peito fervilhava com a ideia de que ele estava mostrando aquele corpo para outro cara, e o sentimento ácido embrulhava meu estômago. Eu sentia meus dedos tremendo e o resultado disso é que eles batiam contra a mesa de modo intermitente. Eu queria xingar, chutar, esbravejar, e depois rasgar as roupas dele e foder aquela boca que me encarava semiaberta. 

Eu sabia que estava fora de controle, e o motivo não era apenas Diego. Ele era uma desculpa, na verdade. O motivo era a quantidade de merda acumulada ao longo da minha vida. Era muita coisa guardada para que eu atribuísse toda a culpa a um cara que conhecera há três meses e com quem trepara uma única vez. Meus traumas do passado, o abandono do meu pai, a morte de Daniel e toda uma trajetória de mágoa e culpa regada a vícios como sexo, opioides e álcool, tentativas vãs de fugir da dor, me trouxeram até aqui. Diego não era o culpado direto, mas no momento era o único alvo disponível.

— O que tem a oferecer que já não tenha desperdiçado com o seu atendimento anterior? – ralhei.

— O quê?

Ele ficou surpreso com a pergunta. Eu também fiquei, mas a porta já tinha se escancarado e a mágoa foi sendo despejada em parcelas. 

— Por que você só entrou hoje? Cinco dias depois?

Ele demorou um tempo a responder. Meu turbilhão interior só fazia crescer e crescer, e eu me vi querendo me vingar, ferir, atingir o único que parecia se importar.

— Qual é a tua, Samuel?

Eu olhei para ele e tentei enquadrá-lo na categoria dos garotos estupradores do banheiro da escola pública de Paulínia. Eu estava cansado de ser ferido. Eu queria exterminar essa coisa viscosa que se agarrava às minhas entranhas e ameaçava molhar meus olhos. Eu não ia ser dominado por ninguém. Nunca. Fiz uma contribuição e ordenei, altivo.

— Tira a roupa. 

Vi quando uma sombra passou pelo seu rosto. Vi quando ele deixou de ser Diego e se tornou Josh. Vi como ele usou o personagem como uma capa protetora para não ser ferido e isso me magoou e me colocou no meu devido lugar: um monstro, insensível e desprezível. Monstros não precisam se preocupar em machucar. Essa é sua natureza. Eles não precisam carregar culpa por seguir seus instintos pois ninguém espera nada melhor deles. 

— E agora? — ele perguntou, inexpressivo.

— Bate uma pra mim. 

Ele segurou o próprio pau. Pensei que vê-lo sem roupa e de pau duro me traria de volta a um estado de normalidade ou algo perto disso, mas não foi o que aconteceu. Meu corpo não reagiu. Eu estava morto da cintura pra baixo porque meu peito havia cortado o fluxo de vida que ia para lá. Tudo estava concentrado acima, no meu coração, e enquanto ele estivesse sangrando sem controle, não sobraria nada para regar qualquer outra parte de mim. Eu sofria com essa constatação quando o ouvi declarar.

— Aproveita enquanto pode, Samuel. Essa é a última vez que você vai me ver por aqui.

As palavras entraram como uma lâmina e enregelaram tudo dentro de mim.

— Você vai passar a recusar meus convites? – perguntei. Diante de mim pendia a rejeição que tanto temi.

— Não. Eu vou matar o Josh.

Senti minha mente bugar. Eu fiquei tão irado que peguei o notebook e, num rompante de fúria, o joguei contra a parede. 

Se ele pensava que ia me tratar assim, estava muito enganado! Ele não tinha esse direito! Ele não podia cortar meu fio de prata e sair andando. 

Quando percebi, estava tirando o SUV da garagem. O prédio dele ficava a uns 15 minutos da minha casa, eu tinha certeza de que poderia fazer o trajeto em menos de oito minutos, então acelerei.

Do lado de cá (romance gay)Onde histórias criam vida. Descubra agora