Capítulo 2: Axis

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A rotina de Guilherme tinha o ritmo sufocante do trânsito de São Paulo. Dez anos haviam se passado desde que a Alvorada rasgou os céus, e o mundo, de certa forma, havia se acostumado com o impossível. A Calêndula alimentava as cidades e os Calêndulos, como eram chamados, eram o assunto de debates acalorados na mídia e sussurros nas ruas. Para Guilherme, no entanto, o maior desafio do dia era chegar ao trabalho na hora certa.

Ele trabalhava em um escritório anônimo no centro da cidade, um emprego que pagava as contas e nada mais. Ninguém ali sabia que, sob o estresse de uma planilha de Excel, ele às vezes sentia a gravidade ao seu redor ondular, como o calor subindo do asfalto. Ninguém sabia do esforço que ele fazia para manter os clipes de papel firmemente presos à sua mesa.

Seus pais sabiam. Eles o viram passar um ano e meio em coma após a Alvorada, apenas para acordar como se nada tivesse acontecido. Eles o viram levitar acidentalmente seus talheres durante um jantar, aos quinze anos. Eles o abraçaram e disseram que o amavam, da mesma forma que fizeram quando ele lhes contou que gostava de garotos. Para eles, seu poder era apenas mais uma parte do filho que eles adoravam. Era esse amor que o ancorava, mais forte do que qualquer força que ele pudesse conjurar.

Naquela noite de setembro, porém, a rotina foi quebrada. O caminho de volta para casa, geralmente um mar de faróis e buzinas, começou a ficar estranhamente silencioso. Uma névoa espessa e anormal para a estação subiu do chão, engolindo os postes de luz e abafando os sons da metrópole. Guilherme sentiu um arrepio. Não era um arrepio de frio. Era a sensação de pressão no ar mudando, uma distorção sutil que apenas ele podia sentir.

Ele parou, o coração acelerado. Figuras emergiram da névoa, cinco delas, posicionadas em um círculo perfeito ao seu redor. Usavam trajes táticos escuros que pareciam absorver a luz.

— Olha, Volt, esse é daqueles que acha que pode nos derrotar sozinho — zombou um deles, um homem magro cujas mãos pareciam tremer de energia contida.

— Cale a boca, Quill — respondeu uma mulher com um brilho elétrico nos olhos. — Estamos aqui para convidar, não para brigar.

Guilherme não esperou para ouvir o resto do convite. Seus instintos gritaram, e seu poder respondeu. Com um foco repentino de pânico e adrenalina, ele estendeu a mão na direção dos dois que falavam. O espaço entre eles se contraiu violentamente. Como se atraídos por um ímã invisível, Volt e Quill foram arremessados um contra o outro, caindo no chão em um baque surdo, inconscientes.

Ele se virou para correr, exultante e apavorado com o que acabara de fazer. Foi um erro de novato. Ele não viu o terceiro agente levantar a mão, nem sentiu o projétil de energia que o atingiu nas costas. Seu corpo travou, cada músculo paralisado por uma força invisível, e ele desabou na calçada. A última coisa que ouviu foi uma voz calma.

— Desculpe por isso. Mas nós realmente precisamos de você.

Ele acordou em uma sala branca e minimalista. Sobre uma mesa, havia uma bandeja com comida e um copo de suco. Sua cabeça doía, mas fora isso, ele estava ileso. Tentou invocar seu poder, mas nada aconteceu. Era como tentar gritar sem voz.

A porta se abriu, e um homem mais velho, de feições severas e ombros largos, entrou na sala. Ele emanava uma autoridade que não precisava de palavras.

— Nesta sala, os poderes Calêndulos são neutralizados — disse o homem, sua voz grave. — Você não é um prisioneiro, Guilherme. Está aqui para uma conversa.

— Sequestrar as pessoas é um jeito estranho de começar uma conversa — retrucou Guilherme, sentando-se na beira da cama.

O homem sorriu, um sorriso fino que não alcançou seus olhos. — A Corporation Rainbow monitora indivíduos com potencial extraordinário desde a Alvorada. Seu controle sobre campos gravitacionais é de um nível que raramente vemos. Nós não somos apenas uma empresa de energia. Somos a defesa deste planeta. E queremos que você se junte a nós.

Ele estendeu um tablet. Na tela, um contrato com um salário de tantos dígitos que fez Guilherme piscar. Benefícios para sua família, moradia, treinamento. Uma vida nova.

— O que eu teria que fazer?

— Lutar. Recrutar. Neutralizar ameaças que o mundo nem sabe que existem. Sua família estará segura, e você terá um propósito muito maior do que planilhas de Excel.

O peso da decisão o atingiu. A vida que ele conhecia, segura e morna, ou um salto no desconhecido, perigoso, mas com o poder de proteger aqueles que amava. Ele olhou para o homem e viu a resposta em seus próprios olhos. Ele nunca fora de ficar parado.

— Eu aceito.

Mais tarde, ele foi levado a um laboratório de alta tecnologia, onde uma jovem de cabelos coloridos e óculos vibrantes o recebeu com um sorriso que era o oposto da severidade do recrutador.

— Bem-vindo à Corporation Rainbow! Senta aí, vamos te cadastrar. Aqui, todo mundo usa um codinome. Nomes reais são uma bagunça e um risco de segurança. O chefe e eu somos os únicos que sabemos.

— Você? — perguntou Guilherme.

— Segurança Cibernética. E sou curiosa. Prazer, meu codinome é Ghost — disse ela, seus dedos voando sobre um teclado holográfico. — Então, vamos pensar em um para você. Seus poderes... são sobre o centro das coisas, o ponto que puxa tudo. Que tal... Axis?

Guilherme ponderou. Eixo. O centro. O ponto de equilíbrio. Ele gostou. Pela primeira vez naquele dia, sentiu que talvez pertencesse àquele lugar.

— Axis. Eu gosto.

— Ótimo! Bem-vindo à equipe, Axis — disse Ghost, finalizando o cadastro com um clique.

No exato momento em que seu nome apareceu na tela, sirenes vermelhas começaram a piscar por todo o complexo, e um alarme estridente soou. Ghost olhou para ele, seus olhos brilhando de excitação.

— Parece que você chegou bem a tempo da sua primeira missão. Se prepara.

Guilherme engoliu em seco. A vida de escritório tinha, definitivamente, acabado.

Protocolo Alvorada: O Despertar de EixoOnde histórias criam vida. Descubra agora