O voo a bordo do Corvo Um era diferente desta vez. Na primeira missão, a ignorância de Axis o protegia com um fino véu de normalidade. Agora, esse véu estava rasgado. Cada zumbido dos motores, cada vibração do casco furtivo parecia ecoar as palavras do viajante do tempo. Anomalia. Futuro. Guerra. Ele não era mais um recruta; era um presságio ambulante, e o peso dessa revelação o pressionava contra o assento mais do que qualquer força G.
Bane, como sempre, era uma estátua de prontidão tática. Ele inspecionava seu rifle de pulso, cada movimento preciso e econômico. Ghost, por outro lado, prosperava no caos de informações. Diante dela, uma série de janelas holográficas tremeluzia, exibindo diagramas moleculares e plantas arquitetônicas censuradas. Ela estava desenterrando o cadáver digital da Kingdom Corporation.
— É fascinante — disse ela. — A Kingdom foi a pioneira. Mas o minério deles... o que eles chamavam de Radianita... era diferente. — Um holograma de duas estruturas cristalinas apareceu. Uma, "Calêndula", brilhava com um núcleo roxo estável. A outra, "Radianita", era um emaranhado caótico de energia verde-esmeralda. — Os arquivos da Kingdom falam da Radianita como se fosse viva. Volátil. Reativa à emoção. A queda deles não foi uma surpresa, foi uma inevitabilidade. A Corporation Rainbow aprendeu com os erros deles. A Calêndula é a versão domada.
— E Mercer? — perguntou Axis.
— Elias Mercer era o sumo sacerdote dessa religião — respondeu Ghost. — Chefe da Divisão de Biologia Exótica. Ele não queria apenas usar a Radianita. Ele queria se fundir com ela. Seus últimos artigos falavam em "ascensão", em "transcender a forma humana". Então, ele e seu laboratório desapareceram do mapa.
O Corvo Um começou a desacelerar. — Aproximando-se do alvo. Encontramos turbulência anômala. Preparem-se para uma inserção difícil.
A ilha no meio do Pacífico estava envolta em uma tempestade perpétua e de cores estranhas. Relâmpagos sem trovão iluminavam o contorno de uma montanha vulcânica escarpada. O ar do lado de fora era pesado, carregado com o cheiro de ozônio.
— As leituras de energia aqui estão fora de escala — disse Ghost. — É Radianita. Pura. O ar está saturado.
Eles pousaram em uma clareira de areia negra. A vegetação da ilha era um pesadelo botânico, árvores retorcidas com veios de cristal verde brilhando sob a casca. Eles encontraram a entrada do laboratório na base da montanha: portas de aço maciças, corroídas e entreabertas, com o antigo logotipo da Kingdom Corporation quase apagado pelo tempo.
O interior era uma cena de crime congelada no tempo. Marcas de batalha marcavam as paredes — não de garras de monstros, mas de armas de energia avançada, deixando sulcos profundos e vitrificados no metal. Equipamentos estavam violentamente destruídos. Havia manchas escuras e secas no chão que não deixavam dúvidas de que uma luta brutal acontecera ali. O laboratório não fora evacuado; fora purgado.
— Isto não foi uma falha de contenção — disse Bane, sua voz grave ecoando no silêncio mortal. — Foi uma operação de limpeza. Profissional.
Ghost se aproximou de um painel de servidores principais. A carcaça estava aberta, os discos de dados derretidos em uma massa disforme. — Servidores fritos. Um pulso eletromagnético direcionado. Eles não queriam deixar nada para trás.
Enquanto Bane e Axis checavam o perímetro, Ghost continuou seu trabalho, seus dedos dançando sobre um scanner portátil. Ela passou o aparelho sobre uma parede em branco, aparentemente sem nada. Um bipe suave soou.
— Interessante. Blindagem eletromagnética. Atrás da parede.
Bane se aproximou e, com um puxão de força bruta, arrancou o painel de metal. Atrás dele, havia um pequeno nicho contendo um único servidor, intacto, com uma luz piscando lentamente. Um cofre de dados que os agressores não encontraram.
— Um interruptor de homem morto — sussurrou Ghost. — Programado para se isolar da rede principal em caso de ataque. Mercer era paranoico. E inteligente.
Ela conectou seu dispositivo. — A maior parte está criptografada em um nível absurdo, vai levar semanas. Mas tem um arquivo. Aberto. Sem proteção. Parece uma mensagem. O último registro pessoal dele.
Ela projetou a imagem no centro da sala. O holograma de Elias Mercer piscou, ganhando vida. Ele estava em seu laboratório, mas não o cientista calmo e presunçoso de sua foto oficial. Este Mercer estava aterrorizado, o suor brilhando em sua testa, os olhos arregalados de pânico. Alarmes soavam ao fundo.
"Se... se alguém está vendo isso, então é tarde demais. Eles não entendiam... a Radianita não era só poder, era potencial! A chave para destravar a verdadeira natureza dos Calêndulos!"
Ele ergueu um cilindro contendo um líquido que brilhava com a mesma luz verde-esmeralda da Radianita. "Eu consegui! Um catalisador! Um soro capaz de amplificar permanentemente os poderes de um Calêndulo a níveis... divinos. Quebrar os limites impostos pela natureza!"
O terror em seu rosto se aprofundou. "Mas eu vi o que isso faria nas mãos erradas. Nas mãos dela... Minha protegida... a mais brilhante de todos. Ela era órfã de uma das primeiras catástrofes da Radianita, e eu vi seu poder, seu carisma... mas não vi o ódio que a consumia. Um ódio puro pela humanidade comum."
O holograma de Mercer olhou por cima do ombro, apavorado. "Ela não via minha pesquisa como evolução. Ela a via como uma arma. A arma para sua guerra santa. O nome dela... o nome que ela escolheu para si mesma é..."
Uma explosão distante sacudiu a sala, e o Mercer holográfico cambaleou. Gritos e o som inconfundível de armas de energia ecoaram ao fundo.
"Eles chegaram! Mas... não são os seguidores dela!"
Mercer olhou para a porta de seu laboratório, e seu rosto se contorceu em uma máscara de choque e traição absoluta.
"Não... Não pode ser... É a Rainbow! A equipe de segurança da própria Rainbow! Eles não vieram para nos parar... vieram para roubar a pesquisa! Para silenciar..."
A gravação foi cortada pelo som ensurdecedor de um tiro de energia, e o holograma de Mercer se desfez em estática, deixando a equipe em um silêncio profundo e aterrorizante.
Axis sentiu o sangue gelar. Ele olhou para Ghost, cujo rosto estava pálido, e para Bane, que permanecia imóvel, mas cuja mão estava fechada com tanta força em seu rifle que seus nós dos dedos estavam brancos.
A verdade era uma bomba que acabara de detonar no meio deles.
1. Havia uma fórmula para criar super-soldados Calêndulos.
2. A futura líder da guerra que C-37 viera impedir, uma supremacista chamada Nyx, sabia da existência dessa fórmula.
3. E a própria Corporation Rainbow, a organização para a qual eles trabalhavam, havia massacrado todos neste laboratório para roubar essa mesma pesquisa.
A advertência de C-37 voltou à mente de Axis com a força de um golpe físico: "Não confie cegamente naqueles que lhe dão as ordens."
Não era um aviso sobre o futuro. Era sobre o presente. Sobre o chão em que pisavam.
— Nosso transporte de extração chega em uma hora — disse Ghost, sua voz baixa e tensa, quebrando o silêncio. — Temos uma decisão a tomar. Reportamos o que encontramos e rezamos para que não sejamos os próximos a ser 'silenciados'... ou este arquivo nunca existiu.
A pergunta pairou no ar, mais pesada e perigosa do que qualquer ameaça que já haviam enfrentado.
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Protocolo Alvorada: O Despertar de Eixo
Ficção CientíficaPara proteger um mundo transformado pelo poder da Calêndula, a Corporation Rainbow criou agentes como Axis, um jovem capaz de dobrar a gravidade à sua vontade. Sua missão: caçar um exército fantasma que parece conhecer cada segredo da Rainbow. Mas a...
