O primeiro som não foi uma explosão, mas um grito agudo e rasgante do céu. Três caças Kestrel V da Rainbow desceram das nuvens de tempestade, suas silhuetas negras cortando a luz fraca da Patagônia. Segundos depois, a terra tremeu. As primeiras bombas atingiram o perímetro do vale, não como um ataque de precisão, mas como um punho de gigante esmagando a paisagem. Árvores foram arrancadas, rochas pulverizadas, e a onda de choque varreu o vilarejo como um sopro de morte.
O pânico se instalou, os gritos dos civis se misturando ao rugido dos jatos. Mas em meio ao caos, a face de Leo, o jovem pacato conhecido como Legião, se transformou. A apreensão nervosa foi queimada e substituída por uma fúria gélida e protetora. Seus olhos brilhavam com uma luz de Calêndula intensa.
— Para os abrigos! Agora! — sua voz, antes suave, agora era um comando que cortava o barulho. Ele ergueu as mãos, e a energia verde-esmeralda jorrou delas. — Tatus, formem a muralha!
Do chão ao redor dele, a energia se solidificou, formando três criaturas massivas, baixas e com cascos blindados que lembravam tatus pré-históricos. Elas se moveram rapidamente, posicionando-se na frente das casas onde as famílias corriam para se abrigar, suas carapaças brilhando com um poder desafiador.
— Eles não vieram para capturar. É uma ordem de extermínio — a voz de Ghost soou nos comunicadores, tensa e analítica. Ela já estava correndo, os olhos fixos nos picos que cercavam o vale. — São caças modelo Kestrel V. Blindagem padrão, mas a rede de comunicação é de última geração. Não consigo quebrar daqui de baixo. Preciso de um link direto!
— Onde? — perguntou Axis, já se movendo para o lado dela, seu corpo crepitando com poder gravitacional.
— Ali! — ela apontou. Em um dos picos mais altos, uma estrutura de metal enferrujada se erguia contra as nuvens de tempestade. — Uma antena antiga da Kingdom. Se eu conseguir plugar nela, posso sobrecarregar os sistemas deles. É a nossa única chance.
— Façam — a voz de Valerius entrou no canal, uma presença calma e distante em meio ao inferno. — C-37 e eu estamos monitorando os dados. Tentaremos dar cobertura de guerra eletrônica, mas estamos muito longe. A sobrevivência de vocês, e a deles, está em suas mãos.
A corrida começou. Enquanto Legião orquestrava a defesa do vilarejo, Axis e Ghost corriam em direção à base da montanha, uma subida íngreme e traiçoeira. O segundo ataque dos jatos começou, desta vez com metralhadoras de pulso. Rajadas de energia incandescente rasgavam o chão ao redor deles.
Axis reagiu por instinto. Ele ergueu uma mão, e o ar ao redor dele e de Ghost tremeu, distorcendo-se como uma lente de calor. As rajadas de energia se curvaram ao redor deles, errando o alvo por centímetros. — Continue correndo! — gritou ele, o esforço visível em seu rosto.
Enquanto subiam, um dos jatos desceu em um mergulho rasante, pronto para aniquilá-los. Axis plantou os pés no chão e, com um grito de esforço, empurrou as duas mãos para cima. Ele não estava mirando no jato, mas na massa de ar abaixo dele. Por um instante, o Kestrel V balançou violentamente, como se tivesse atingido uma parede invisível, forçando o piloto a lutar contra os controles e abortar o ataque.
No vilarejo, a batalha era desesperada. Um Tatu de energia absorveu o impacto direto de um míssil, explodindo em uma chuva de luz para salvar a entrada do abrigo principal. Leo sentiu o choque psíquico da morte de sua criatura, cambaleando para trás, o sangue escorrendo de seu nariz. Mas não havia tempo para a dor. Ele ergueu as mãos novamente.
— Gaviões! Aos céus! Ceguem-nos!
Dezenas de criaturas menores e aladas se formaram, subindo em um enxame furioso em direção aos jatos. Elas não podiam causar dano real, mas eram uma distração suicida, forçando os pilotos a manobras evasivas e dando a Axis e Ghost a janela de que precisavam.
Eles alcançaram a base da torre de comunicação, uma estrutura de metal enferrujada e esquecida. Uma explosão próxima fez com que uma cascata de pedras e terra deslizasse montanha abaixo, ameaçando soterrá-los. Axis se virou e socou o chão, sua mão brilhando com poder. A gravidade se intensificou, e o deslizamento parou abruptamente, as rochas se assentando com um baque surdo, presas no lugar.
— Vai! — ele ofegou.
Ghost não perdeu um segundo. Ela abriu um painel de acesso na base da torre e conectou seu terminal. Seus dedos voaram, uma dança furiosa de código e comandos. — Estou dentro da rede local. É um sistema arcaico da Kingdom, cheio de buracos... mas está me dando um acesso à rede principal da Rainbow. Eles são arrogantes, não mudaram os protocolos de back-end.
O HUD em seus olhos se transformou em uma tempestade de dados. — Firewalls como muralhas de concreto... estou dentro... mas eles sabem que estou aqui. Estão contra-atacando. Me dê tempo!
— Você não tem tempo, Ghost! — a voz de Valerius soou urgente. — Eles estão se alinhando para um bombardeio de saturação! Vão destruir o vale inteiro! Você tem trinta segundos!
No céu, os três jatos subiram, ganhando altitude, suas comportas de bombas se abrindo em uníssono, revelando dezenas de projéteis mortais.
Axis olhou para cima, para a morte que caía. Ele ergueu as duas mãos para o céu, não para os jatos, mas para o espaço acima do vilarejo. Com um grito que rasgou sua garganta, ele liberou todo o seu poder, tentando criar um poço de gravidade massivo, uma singularidade invisível para desviar as bombas. O esforço era sobre-humano. As veias em seu pescoço saltaram, e ele sentiu o gosto de sangue na boca.
As bombas foram liberadas. O mundo entrou em câmera lenta.
Dentro da torre, os dedos de Ghost pararam. Ela encontrou o que procurava. Um código de ejeção de emergência, enterrado sob camadas de protocolos de segurança. Com um último toque, ela enviou o comando. — Peguei!
Nos cockpits dos três Kestrels, os alarmes soaram. A palavra "EJEÇÃO" piscou em vermelho vivo nos visores dos pilotos. Antes que pudessem reagir, os dosséis de suas cabines explodiram para fora, e seus assentos foram disparados para o céu, transformando-os em três paraquedas flutuando suavemente em direção ao solo.
Os jatos, agora pilotless e vazios, tombaram no ar. Dois deles colidiram em uma bola de fogo espetacular, e o terceiro mergulhou silenciosamente, desaparecendo atrás de um pico distante, seguido por uma explosão que ecoou por todo o vale.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo uivo do vento.
Axis desabou de joelhos, exausto, ofegante. Ghost se encostou na torre, o corpo tremendo de adrenalina. Do vale abaixo, após um momento de descrença, um rugido de alegria e alívio se ergueu dos sobreviventes.
Eles se reagruparam no vilarejo danificado, mas não destruído. As criaturas de Legião se dissolviam em luz suave ao redor deles. Leo caminhou até Axis e Ghost, o rosto manchado de fuligem e exaustão, mas os olhos brilhando com uma nova e dura determinação. Ele estendeu a mão para Axis.
— Vocês salvaram meu povo. Minha casa. — Ele apertou a mão de Axis com firmeza. — A paz não é mais uma opção. Vocês me mostraram isso hoje. O Protocolo Alvorada tem a minha lealdade. E a da minha Legião.
A aliança havia sido forjada em fogo. E o Protocolo Alvorada, agora um pouco maior, um pouco mais forte, havia vencido sua primeira batalha.
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Protocolo Alvorada: O Despertar de Eixo
Science FictionPara proteger um mundo transformado pelo poder da Calêndula, a Corporation Rainbow criou agentes como Axis, um jovem capaz de dobrar a gravidade à sua vontade. Sua missão: caçar um exército fantasma que parece conhecer cada segredo da Rainbow. Mas a...
