A aliança foi selada não com um tratado, mas com o trabalho compartilhado da reconstrução. Por dois dias, o Protocolo Alvorada ajudou a tribo da Rastreadora a remendar seu lar ferido. Axis usou seus poderes para erguer vigas pesadas, Ghost otimizou a pequena rede de energia do vilarejo, e C-37, para a surpresa de todos, revelou-se um médico de campo experiente, tratando os feridos com uma eficiência silenciosa e mãos firmes. A desconfiança da tribo se dissolveu, substituída por um respeito conquistado a sangue.
Durante esse tempo, algo mudou em C-37. A presença constante de Axis, a gratidão nos olhos dos aldeões que ele ajudava, parecia erodir a casca de soldado que o envolvia. Ele ainda era quieto, mas seu silêncio não era mais um vazio. Era contemplativo. Ghost o observava, intrigada. O ativo mais letal de seu arsenal estava se tornando... humano.
No terceiro dia, eles partiram. A Rastreadora os guiou, deixando sua tribo sob o comando de sua segunda em comando. A jornada os levou mais fundo nas florestas antigas, por caminhos que não existiam em nenhum mapa, sob um dossel de árvores tão denso que o dia se transformava em um crepúsculo verde e eterno.
Ghost, sempre a cientista, estava fascinada pela Rastreadora. — A forma como você comanda seus construtos... não há interface, não há comandos de voz. Como funciona? — perguntou ela durante uma pausa.
A Rastreadora sorriu, um gesto raro e significativo. — Sua tecnologia lê o mundo, Agente Ghost. Eu o escuto. A floresta, os animais, a terra... todos têm uma voz, uma energia. Eu apenas peço ajuda, e eles respondem.
Enquanto as duas caminhavam na frente, discutindo a intersecção entre a bioenergia e a tecnologia, Axis e C-37 naturalmente caíram em um ritmo lado a lado, um pouco atrás. O silêncio entre eles não era mais tenso, mas confortável.
— Como era o seu mundo? — perguntou Axis, a pergunta escapando antes que ele pudesse contê-la. — Antes da guerra.
C-37 ficou quieto por tanto tempo que Axis pensou que ele não responderia. — Era... barulhento — disse ele finalmente, a voz baixa. — As cidades nunca dormiam. A música era diferente. Mais eletrônica. E o céu... o céu à noite tinha duas luas. Uma grande e branca, a outra pequena e azul. A gente as chamava de a Mãe e a Filha.
Ele falou com uma nostalgia tão palpável que doía. Era a primeira vez que ele falava de sua casa como um lugar que fora amado, não apenas um lugar que fora perdido. — Parece bonito — disse Axis.
Um fantasma de um sorriso tocou os lábios de C-37. — Era.
Naquela noite, eles acamparam em uma caverna atrás de uma cachoeira, o som da água abafando qualquer outro ruído. Ghost e a Rastreadora assumiram a primeira vigília, deixando Axis e Henzo sozinhos perto do calor de uma fogueira improvisada.
— Você sorriu hoje — disse Axis, observando o fogo.
C-37 tocou o canto da própria boca, como se o músculo fosse estranho. — Fazia tempo.
— Por que você continua lutando? — perguntou Axis, a pergunta mais importante de todas. — Depois de tudo que você passou, de tudo que perdeu... por que não encontrar um lugar como este e simplesmente... parar?
Henzo olhou para o fogo, as chamas dançando em seus olhos. — Porque eu me lembro de como era ter um lar. E porque, pela primeira vez em muito, muito tempo... eu sinto que há algo pelo qual vale a pena lutar para construir de novo, em vez de apenas vingar o que foi destruído.
Ele ergueu o olhar e encontrou o de Guilherme. Naquele momento, não havia profecia, não havia guerra, não havia dois universos. Havia apenas eles. O soldado quebrado e a anomalia que o fazia sentir inteiro. O peso do que não era dito, da atração que crescia entre eles desde o primeiro encontro, tornou-se pesado demais para ser ignorado.
Axis não pensou. Ele apenas agiu. Ele se inclinou para frente, lentamente, dando a Henzo todo o tempo do mundo para recuar. Mas ele não recuou. E quando seus lábios se tocaram, não foi um beijo de paixão desesperada, mas de reconhecimento. Foi hesitante, quieto, um toque de almas cansadas que finalmente encontravam um porto seguro. Foi uma confissão sem palavras, a aceitação de uma verdade que ambos sentiam, mas não ousavam nomear.
Quando se afastaram, a casca de C-37 havia se quebrado para sempre. O homem que olhava para Guilherme agora era Henzo, com o medo e a esperança brilhando em seus olhos em igual medida.
Na manhã seguinte, a jornada continuou em um silêncio carregado, mas agora era o silêncio de um segredo compartilhado, não de uma distância imposta. A Rastreadora os observava com um sorriso sábio, mas não disse nada.
Eles chegaram ao Santuário Oculto ao meio-dia. Era um lugar de beleza de tirar o fôlego: um sistema de cavernas escondido atrás da cortina de uma cachoeira imponente. O interior era iluminado por flora bioluminescente e cristais de Calêndula que cresciam naturalmente nas paredes, lançando uma luz azul e suave sobre tudo. Era um lugar de paz e poder.
No centro da maior caverna, dezenas de membros da tribo — os doentes, os feridos, os muito jovens e os muito velhos — estavam sendo cuidados. E movendo-se entre eles, estava ela.
Égide.
Ela era jovem, talvez não muito mais velha que eles, com cabelos de um branco prateado e olhos que pareciam conter a sabedoria de séculos. Suas mãos brilhavam com uma luz dourada enquanto ela as passava sobre o ferimento de uma criança, o tecido se fechando sob seu toque.
Quando a equipe se aproximou, guiada pela Rastreadora, Égide terminou sua cura. Ela se levantou e se virou para eles. Ela não olhou para suas armas, nem para seus trajes. Seus olhos brilhantes passaram por Ghost, por Rastreadora, e então se fixaram em Axis e Henzo. Ela inclinou a cabeça, um olhar de profunda compreensão em seu rosto.
— Eu senti vocês chegando — disse ela, a voz tão calma quanto a água de um lago subterrâneo. — O soldado quebrado, cuja alma está cheia de ecos... e a anomalia que o silencia. Vocês trazem a guerra a este lugar de cura.
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Protocolo Alvorada: O Despertar de Eixo
Science FictionPara proteger um mundo transformado pelo poder da Calêndula, a Corporation Rainbow criou agentes como Axis, um jovem capaz de dobrar a gravidade à sua vontade. Sua missão: caçar um exército fantasma que parece conhecer cada segredo da Rainbow. Mas a...
