O silêncio nos túneis abandonados do metrô de São Paulo era uma entidade viva. Era quebrado apenas pelo gotejar rítmico de água em algum lugar distante e pelo zumbido febril dos servidores que Ghost, de alguma forma, conseguira ressuscitar dos mortos. Eles estavam no Abrigo, uma relíquia da Guerra Fria, construído para abrigar o antigo comando militar da cidade em caso de um apocalipse nuclear. A ironia não passou despercebida por ninguém.
O ar era frio e carregado com o cheiro de concreto úmido, poeira de décadas e o cheiro metálico de ozônio vindo do emaranhado de cabos que agora era o novo sistema nervoso de sua operação. Caixas de equipamentos militares da época, cobertas por lonas apodrecidas, alinhavam-se nas paredes, fantasmas de uma guerra que nunca veio, agora testemunhas de uma que acabara de começar. O luxo e a tecnologia asséptica da Corporation Rainbow pareciam pertencer a outra vida.
Cada membro do recém-nascido Protocolo Alvorada encontrou seu próprio ritmo naquele purgatório de concreto. Ghost era o coração pulsante da base. Sentada de pernas cruzadas no chão, cercada por um ninho de fios e monitores recuperados, seu rosto era iluminado apenas pelo fluxo constante de código verde em uma tela escura. Ela estava em uma guerra particular, construindo uma fortaleza digital do zero, uma muralha para esconder seus fantasmas dos deuses oniscientes da Rainbow.
Bane, em um canto mais afastado, havia criado sua própria zona de ordem. Peças de um rifle de pulso avançado estavam meticulosamente dispostas sobre uma lona limpa. Com movimentos precisos e econômicos, ele limpava, calibrava e remontava a arma. Era um ritual, uma meditação na linguagem universal do aço e da energia. Naquele mundo de incertezas, a única coisa em que ele confiava era na mecânica de suas ferramentas.
Axis sentia-se à deriva. Ele não era um gênio da tecnologia nem um soldado veterano. Ele era a anomalia, o garoto cujo rosto pertencera a um inimigo, cuja existência desvendara uma conspiração. Ele caminhou pelas sombras do Abrigo, tocando as paredes frias, sentindo o peso de sua nova realidade. Viu C-37 sentado em uma caixa de munição distante, afiando uma faca de combate com uma pedra de amolar. O som rítmico e áspero era o único que ele emitia há horas. Axis se aproximou e estendeu uma barra de proteína.
— Você precisa comer.
Os olhos de C-37 se ergueram, vazios, olhando através dele. Ele não pegou a barra. Apenas voltou a afiar a lâmina. A mensagem era clara. Ele estava com eles fisicamente, mas sua alma ainda estava perdida em algum lugar entre o futuro e o presente.
No centro do Abrigo, sobre uma antiga mesa de planejamento militar, o Comandante Valerius os reuniu. Um mapa holográfico instável projetado por um dispositivo de Ghost tremeluzia entre eles.
— Antes de discutirmos nosso próximo passo — começou Valerius, a voz grave ecoando no vasto salão de concreto —, precisamos colocar todas as cartas na mesa. Sem mais segredos entre nós.
Ele fez um gesto, e o holograma mudou, mostrando a foto do Dr. Elias Mercer. — Nós sabemos o que descobrimos na ilha. Sabemos que a liderança da Rainbow, o Conselho, é corrupta. Eles mataram para obter a pesquisa de Mercer, uma fórmula para amplificar perigosamente os poderes de um Calêndulo. Esta é a nossa primeira frente de batalha: a ameaça interna. Somos caçados por uma organização que ajudamos a construir.
Ele fez uma pausa, seu olhar passando por cada um deles, parando em Axis. — Mas essa não é a única guerra que estamos lutando. E não é a ameaça mais imediata. Axis, em sua primeira missão em Seul... você viu algo que, até agora, não tinha uma explicação lógica. Um inimigo com o seu rosto.
Axis sentiu um calafrio, a memória daquele confronto ainda viva em sua mente. — Eu sei o que eu vi. Era eu.
— Sim — confirmou Valerius. — Era. E ele não é o único. Como seu Comandante, eu falhei em lhes dar toda a informação que possuía. O Conselho mantinha certos níveis de ameaça compartimentalizados, escondidos até mesmo de mim. Eu só tive acesso aos arquivos completos depois que Ghost quebrou os firewalls deles durante nossa fuga.
O Comandante manipulou o holograma. O globo da Terra apareceu, rotulado "ALFA". Ao lado dele, um segundo globo, idêntico, materializou-se, rotulado "ÔMEGA". — Por quase um ano, a Rainbow tem combatido uma ameaça que o Conselho classificou como 'Ultra Secreto'. Incursões de agentes idênticos aos nossos, com nossas táticas, nossos poderes. Nós os chamamos de 'duplos'. Nossas teorias mais secretas, agora confirmadas, apontam para uma única e aterrorizante conclusão: existe uma Terra paralela. Uma Terra Espelho. E ela está em guerra conosco. Esta é a nossa segunda frente.
A revelação caiu na sala como uma bomba. Ghost olhava para os dois globos, sua mente de cientista fervilhando. Bane estava tenso, processando a ideia de lutar contra si mesmo. E Axis... Axis finalmente entendeu. O monstro que ele enfrentou não era uma imitação. Era ele. Uma versão dele de um mundo inteiro de inimigos.
— O que eles querem? — perguntou Axis.
— Ainda não sabemos — admitiu Valerius. — As incursões deles têm sido focadas em locais de extração e armazenamento de Calêndula. Eles não matam indiscriminadamente. Eles vêm, tentam pegar o que querem e desaparecem. Mas estão ficando mais ousados. O fato de eles terem enviado o seu duplo, Axis, um agente com poderes de nível S, significa que a fase de reconhecimento deles acabou.
C-37, que permanecera em silêncio até então, deu um passo à frente. — Meu futuro... os registros da minha linha do tempo... não continham nada sobre uma Terra Espelho. A guerra de 2070 foi travada entre os humanos e os Calêndulos do nosso próprio mundo. Isso... é uma nova variável.
O peso da situação pareceu dobrar. Valerius assentiu. — Exatamente. E isso nos leva à terceira frente de batalha: o futuro. — Ele gesticulou para o holograma, que agora exibia a imagem fragmentada de Nyx. — Sabemos, graças ao arquivo de Mercer, que uma radical perigosa chamada Nyx está à solta, provavelmente em posse de conhecimento sobre a pesquisa de seu mentor. Ela é um legado perigoso da era da Kingdom. Uma ameaça que ainda não se revelou, mas que está crescendo nas sombras.
Ele desligou o holograma, e a sala foi mergulhada na penumbra, iluminada apenas pelas luzes de emergência. — Então, esta é a nossa realidade. Somos cinco fugitivos contra uma corporação global corrupta, um exército de nós mesmos vindo de outra dimensão, e uma guerra apocalíptica se formando no horizonte. As probabilidades são... desfavoráveis.
Ele olhou para a pequena equipe, a determinação endurecendo seu rosto. — Mas temos uma vantagem. A Rainbow não sabe que nós sabemos de tudo. A Terra Ômega não sabe quem nós somos. E o futuro ainda não foi escrito. Nossa única chance é crescer. Rápido. Precisamos de aliados. Ghost.
Ghost entendeu o comando. A "Lista Fantasma" apareceu no ar. — Por anos, mantive um banco de dados de indivíduos que a Rainbow considerou 'incontroláveis' — disse ela. — Párias, anarquistas, reclusos. E gênios.
Ela ampliou um perfil. A imagem de uma jovem de vinte e poucos anos, com um sorriso caótico e óculos de proteção na testa, preencheu a tela. — Beatriz Nogueira. Codinome no submundo: Faísca. Não é uma Calêndulo. É uma especialista em demolição improvisada. A Rainbow a quer por terrorismo doméstico depois que ela explodiu três de seus drones de vigilância "só pela diversão". Ela é brilhante, imprevisível e odeia corporações.
— Instável — disse Bane.
— E por isso, perfeita para nós — contrapôs Valerius. — Ela é exatamente o tipo de poder de fogo não convencional de que precisamos. Onde a encontramos?
— Atualmente, ela é a rainha do 'Ferro-Velho', uma liga de combate de robôs ilegal no Rio de Janeiro — respondeu Ghost.
Valerius olhou para sua equipe, sua primeira missão como Protocolo Alvorada agora clara como cristal. — Axis, Ghost, Bane. Vocês três vão para o Rio. C-3-7, você fica aqui comigo. Sua presença é um risco tático muito alto por enquanto.
Ele se virou para o trio. — Esta não é uma missão da Rainbow. Não há regras, exceto uma: sobrevivam. A Rainbow a vê como uma criminosa. Eu a vejo como uma arma. A tragam para nós antes que eles a coloquem em uma jaula, ou antes que nossos amigos da Terra Ômega decidam fazer uma visita.
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Protocolo Alvorada: O Despertar de Eixo
Science FictionPara proteger um mundo transformado pelo poder da Calêndula, a Corporation Rainbow criou agentes como Axis, um jovem capaz de dobrar a gravidade à sua vontade. Sua missão: caçar um exército fantasma que parece conhecer cada segredo da Rainbow. Mas a...
