A transição do caos vibrante do Rio para o silêncio sepulcral do Abrigo foi como mergulhar em água gelada. Faísca, ou Beatriz Nogueira, como o mundo a conhecia, saiu do veículo de transporte disfarçado e olhou ao redor, os olhos arregalados absorvendo o cenário. O hangar de carga abandonado, a entrada para o túnel de metrô, o cheiro de mofo e metal velho.
— Uau — disse ela, a voz ecoando no espaço cavernoso. — E eu que achava que a minha oficina era um buraco. Vocês realmente levam a sério essa vibe de 'resistência subterrânea', hein?
— É o único lugar no continente onde os satélites da Rainbow não conseguem nos ver — disse Ghost, enquanto guiava o grupo por um corredor mal iluminado. — Bem-vinda ao lar.
O "lar" era uma vasta estação de metrô da Guerra Fria, um testamento brutalista de concreto e aço. Faísca assobiou, impressionada. — Okay, admito. Tem seu charme. Meio pós-apocalíptico chique. Vocês têm wi-fi aqui?
A pergunta pairou no ar até que ela viu o ninho de cabos e servidores improvisados de onde Ghost operava. — Ah. Entendi. Você é o wi-fi.
Enquanto a equipe descarregava o equipamento, dois homens emergiram das sombras do salão principal. O primeiro era o Comandante Valerius, sua postura ereta e olhar severo parecendo completamente fora de lugar naquele ambiente de decadência. O segundo era C-37, silencioso como sempre, mas seus olhos analisavam a recém-chegada com uma intensidade calculista.
— Agente Faísca — disse Valerius, a voz grave, não como uma saudação, mas como uma avaliação. — Seu arquivo na Rainbow a descreve como impulsiva, insubordinada e um perigo para si mesma e para os outros.
Faísca abriu um sorriso largo e radiante. — Puxa, Comandante. Assim você me deixa sem graça. Eles esqueceram de adicionar 'genial' e 'incrivelmente charmosa'.
Valerius não sorriu. — Bem-vinda ao Protocolo Alvorada. Aqui, sua impulsividade será canalizada. Sua insubordinação será direcionada. E seu perigo... será a nossa maior vantagem.
Seu olhar se moveu para C-37. Faísca o encarou, a curiosidade superando qualquer cautela. — E você? Qual é a sua história, bonitão? Viajante do tempo? Fantasma? Ex-namorado traído da Ghost?
C-37 apenas a encarou, seu silêncio mais intimidador do que qualquer ameaça. — Ele é o nosso profeta do apocalipse — disse Axis, aproximando-se. — E é hora de você entender exatamente em que tipo de problema se meteu.
Eles a levaram para a mesa de planejamento central. Por mais de uma hora, Valerius e Ghost expuseram a verdade nua e crua. Eles projetaram o holograma do arquivo de Mercer, a confissão sobre o catalisador e a traição da Rainbow. Explicaram a ameaça de Nyx, a pupila radical que herdara a ambição de seu mentor. C-37 falou pela primeira vez, a voz rouca pelo desuso, descrevendo o futuro de 2070, um mundo de cinzas e silêncio. E, por fim, Valerius mostrou a ela os dois globos, Alfa e Ômega, explicando a guerra secreta contra os duplos, uma guerra que eles travavam completamente sozinhos.
A atitude irreverente de Faísca desapareceu lentamente, substituída por uma seriedade sombria. O sorriso se foi. A piada sobre lutar contra engravatados havia se transformado em uma realidade de extinção em múltiplas frentes. Ela se sentou em um caixote, o peso do mundo caindo sobre seus ombros.
— Então... — disse ela, a voz baixa, quase inaudível. — A gente... vai perder, né?
— As probabilidades são desfavoráveis — admitiu Valerius. — Mas não são zero. A Rainbow não sabe que nós sabemos sobre o Conselho. A Terra Ômega não sabe que nós existimos como uma facção independente. E o futuro que C-37 descreve ainda não foi escrito. Temos uma chance. Mas para isso, precisamos de mais do que apenas poder de fogo.
Ele olhou para Ghost. A Lista Fantasma apareceu no holograma, uma teia de párias e prodígios. — Faísca nos dá uma vantagem tática em demolições e engenharia do caos. Mas precisamos de versatilidade. Precisamos de alguém que possa fazer o que nós não podemos.
Ghost ampliou um perfil na tela. A foto mostrava um jovem de aparência amigável, talvez no início dos vinte anos, sorrindo ao lado do que parecia ser uma pequena criatura verde feita de luz sólida.
— Codinome: Legião — disse Ghost. — Seu nome verdadeiro é desconhecido. Ele é um Calêndulo com uma habilidade que nunca vimos antes. Ele pode dar forma e consciência a construtos de energia de Calêndula. Pequenas criaturas que ele controla, cada uma com uma função diferente.
Um pequeno vídeo de vigilância granulado apareceu. Mostrava o jovem, Legião, sendo encurralado por uma gangue em um beco. Ele não revidou. Em vez disso, uma pequena criatura redonda e saltitante se formou de sua mão. A criatura correu em direção aos agressores e explodiu em um clarão de luz não-letal, cegando a todos e permitindo que ele escapasse.
— A Rainbow o tentou recrutar por meses — continuou Ghost. — Ele os despistou todas as vezes. Ele não é um lutador. Pelo que sabemos, ele é um protetor. Nossa inteligência é escassa, mas indica que ele não está sozinho. Ele vive em uma comunidade isolada na Patagônia. Um santuário para Calêndulos que foram marginalizados ou caçados pela sociedade. Ele é o guardião deles.
Valerius olhou para sua equipe. Faísca, agora compreendendo a gravidade da situação, ouvia com atenção. — Um Calêndulo que cria vida e protege os fracos — disse o Comandante. — Ele é exatamente o tipo de alma que precisamos nesta guerra. Mas ele não será convencido com armas ou dinheiro.
Ele se virou para Axis. — Desta vez, a abordagem será diferente. Axis, você irá liderar. Sua empatia, sua natureza como uma anomalia, pode ser a chave para ganhar a confiança dele. Ghost, você irá com ele para dar suporte técnico e de inteligência.
— E eu? — perguntou Bane.
— Você e Faísca ficam aqui com C-37 — respondeu Valerius. — Precisamos de uma retaguarda forte. E quero que Faísca comece a trabalhar em contramedidas para os trajes da Rainbow. Quero que ela nos dê armas que eles não verão chegando.
Faísca olhou para o Comandante, um novo brilho em seus olhos. Não era mais a diversão anárquica de antes. Era o brilho de um propósito. — Com prazer, chefinho.
A missão estava definida. A primeira fora sobre caos e sobrevivência. Esta seria sobre diplomacia e esperança. Uma viagem ao fim do mundo para encontrar um homem que criava monstros amigáveis e convencer a ele, e a toda a sua comunidade, a se juntar a uma guerra que eles nem sabiam que existia.
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Protocolo Alvorada: O Despertar de Eixo
Ciencia FicciónPara proteger um mundo transformado pelo poder da Calêndula, a Corporation Rainbow criou agentes como Axis, um jovem capaz de dobrar a gravidade à sua vontade. Sua missão: caçar um exército fantasma que parece conhecer cada segredo da Rainbow. Mas a...
