O ar do Rio de Janeiro era uma sopa densa de calor, umidade e vida. Para uma equipe acostumada com o ar filtrado de complexos subterrâneos, a transição foi um choque. Eles se moviam pelas ruelas sinuosas de uma favela na Zona Norte, um labirinto vibrante de tijolos aparentes, grafites coloridos e um emaranhado de fios elétricos que parecia desafiar a própria física. O som era uma cacofonia constante: o funk tocando em um bar, crianças gritando enquanto jogavam futebol, o zumbido de motos subindo as ladeiras íngremes. Era um mundo a anos-luz de distância da guerra silenciosa que eles travavam.
— Mantenham a comunicação por áudio apenas — a voz de Ghost soou no comunicador interno deles, calma e profissional, um contraste com o caos ao redor. — Estou monitorando as redes locais. Há uma grande concentração de terminais não registrados na área. Com certeza estamos no lugar certo.
Eles vestiam roupas civis, uma tentativa de se misturar, mas a postura rígida de Bane e o olhar vigilante de Axis os denunciavam como forasteiros. Ghost, com um capuz cobrindo seus cabelos coloridos, parecia a mais à vontade, seus olhos absorvendo cada detalhe, cada rota de fuga em potencial.
O som de metal se chocando e o rugido de uma multidão os guiaram até o coração daquele submundo. O "Ferro-Velho" não era uma arena formal, mas um pátio cavernoso no meio de uma antiga fábrica abandonada. Estruturas de andaimes e contêineres enferrujados formavam arquibancadas improvisadas, lotadas de pessoas que gritavam, apostavam e bebiam, os rostos iluminados pela luz dura e branca de holofotes industriais. No centro, em uma arena cercada por uma cerca de aço eletrificada, duas máquinas de guerra se destruíam.
O cheiro de ozônio, metal queimado e cerveja barata era sufocante.
— Ali — disse Ghost, apontando com o queixo para o canto da arena.
Lá, de pé sobre uma caixa de ferramentas, estava ela. Beatriz "Bia" Nogueira. Faísca. Ela era menor do que sua foto sugeria, uma figura de pura energia nervosa, vestindo um macacão sujo de graxa e óculos de proteção na testa. Ela não assistia à luta; ela a conduzia.
Seu robô, "Xaxado", era uma obra de arte caótica. Assimétrico, feito de peças que não combinavam — uma perna de um robô de carga, um braço com uma garra de demolição, o chassi de um carro velho — ele era a metade do tamanho de seu oponente, um quadrúpede brutal e bem-acabado que claramente tinha o patrocínio de alguma facção criminosa.
— Gira, Xaxado! Gira e solta a surpresa pra ele! — gritava Faísca, a voz rouca de excitação, abafando o rugido da multidão.
O Xaxado, mesmo com uma das pernas danificadas, girou sobre seu eixo, abrindo um compartimento em suas costas e lançando uma série de pequenas minas adesivas. O robô maior pisou em uma, e uma explosão ensurdecedora arrancou um pedaço de sua blindagem. A multidão foi ao delírio.
— Ela está usando táticas de guerrilha. Desgaste — observou Bane, a voz baixa e analítica. — O robô dela é mais fraco, mas ela é a melhor estrategista.
A luta terminou cinco minutos depois, com o Xaxado, em um último ato desesperado, se agarrando à perna do oponente e detonando seu próprio braço em uma explosão sacrificial que derrubou o gigante. Vitória.
Faísca saltou para dentro da arena, abraçando seu robô danificado como se fosse um filho vitorioso. Ela foi cercada por fãs e apostadores que a parabenizavam e lhe entregavam maços de dinheiro.
— Uma abordagem direta é impossível — disse Axis. — Ela é uma celebridade aqui.
— Não se preocupe — respondeu Ghost, um sorriso presunçoso em seus lábios. Seus dedos já dançavam sobre o terminal em seu pulso. — O ego de um gênio é sempre o caminho mais curto.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Protocolo Alvorada: O Despertar de Eixo
Ciencia FicciónPara proteger um mundo transformado pelo poder da Calêndula, a Corporation Rainbow criou agentes como Axis, um jovem capaz de dobrar a gravidade à sua vontade. Sua missão: caçar um exército fantasma que parece conhecer cada segredo da Rainbow. Mas a...
