Capítulo 14: Santuário

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A viagem para a Patagônia foi uma transição do concreto para o vazio. A equipe viajou em um avião de carga civil, roubado dos registros de voo pela magia digital de Ghost. Voaram por horas sobre um oceano infinito antes que a terra surgisse no horizonte — uma paisagem de beleza austera e brutal, de montanhas escarpadas coroadas de neve, estepes varridas pelo vento e lagos de um azul tão profundo que pareciam feridas no planeta.

Não havia cidades aqui, apenas postos avançados isolados e a sensação avassaladora de estar no fim do mundo. Eles pousaram em uma pista de terra abandonada, a dezenas de quilômetros de qualquer sinal de civilização. O ar era fino, frio e incrivelmente puro.

— As coordenadas que interceptei dos relatórios da Rainbow nos levam para o vale a leste daqui — disse Ghost, o hálito formando uma nuvem de vapor no ar gelado. Ela ajustou o capuz de seu parka, o rosto aninhado na gola. — Cerca de trinta quilômetros a pé. Sem sinal de celular, sem satélites. Estamos por conta própria.

A caminhada foi um teste de resistência. Eles se moviam pela paisagem deslumbrante e indiferente, um silêncio quebrado apenas pelo uivo do vento e o som de suas botas no cascalho. Axis, um garoto da cidade cuja experiência com a natureza se limitava a parques urbanos, sentia-se um intruso. Mas havia uma paz naquele isolamento, uma clareza que ele não encontrava nos corredores claustrofóbicos do Abrigo.

Ghost, por outro lado, parecia completamente em seu elemento. Seu scanner portátil analisava a flora, a fauna, as formações rochosas, seus olhos brilhando com a curiosidade de uma cientista em um novo planeta. Ela catalogava tudo, absorvendo dados, mesmo ali, longe de qualquer rede.

Após horas de caminhada, eles chegaram à beira de um vale escondido, protegido dos ventos fortes por um anel de picos rochosos. E lá embaixo, eles viram.

Não era uma cidade ou uma base militar. Era um vilarejo. Pequenas casas construídas com materiais locais, madeira e pedra, aninhadas ao redor de um lago cristalino. A fumaça subia preguiçosamente das chaminés. Havia estufas de vidro, painéis solares e pequenas turbinas eólicas girando ao ritmo do vento do vale. Era um santuário. Uma comunidade autossuficiente, escondida do resto do mundo.

— Eles estão completamente fora da rede — sussurrou Ghost, impressionada. — Isso não é apenas se esconder. É um novo começo.

Eles desceram com cautela. Ao se aproximarem, perceberam que não havia muros, nem guardas. Mas eles estavam sendo observados. Figuras paravam o que estavam fazendo — cuidando de jardins, consertando um telhado — e os observavam com olhos que não eram hostis, mas profundamente desconfiados. Eram homens, mulheres, até mesmo algumas crianças. Todos eles, Axis podia sentir, carregavam a assinatura sutil da energia da Calêndula. Este era um vilarejo de Calêndulos.

Uma mulher mais velha, com longos cabelos grisalhos trançados e um rosto marcado pelo tempo e pelo sol, aproximou-se deles. Ela segurava um cajado de madeira, mas não parecia uma arma. Era um apoio. — Perdidos, viajantes? — perguntou ela, a voz calma, mas firme. — Não recebemos muitos visitantes por aqui.

— Nós não estamos perdidos — respondeu Axis, dando um passo à frente, as mãos abertas e visíveis. — Viemos em paz. Procuramos por alguém. Alguém que conhecem como Legião.

A menção do nome mudou a atmosfera. A desconfiança se aprofundou. — Ninguém aqui tem esse nome — disse a mulher, os olhos se estreitando.

De repente, um movimento rápido chamou a atenção de Axis. Uma pequena criatura verde, redonda e saltitante, feita de pura luz de Calêndula, apareceu de trás de uma das casas. Ela olhou para Axis e Ghost, a cabeça inclinando-se com curiosidade, e então soltou um som de chilrear suave.

Um jovem de aparência amigável, o mesmo da foto do dossiê, saiu de trás da casa, o rosto corado de constrangimento. — Lume, volte aqui! Eu disse para você não assustar os visitantes!

A mulher mais velha se virou para o jovem, a expressão suavizando-se. — Eles sabem o seu nome, Leo.

O jovem, Leo, nosso Legião, olhou para Axis e Ghost com uma apreensão nervosa. — A Rainbow mandou vocês, não é? Para me levar. Eu não vou. Eu não vou a lugar nenhum.

— Nós não somos da Rainbow — disse Ghost, abaixando o capuz para revelar seu rosto. — Não mais. Nós... desertamos.

Eles passaram a hora seguinte sentados ao redor de uma fogueira no centro do vilarejo. Axis, com uma honestidade que desarmou os habitantes, contou sua história. Ele falou sobre a deserção, sobre a conspiração do Conselho, sobre a ameaça dos duplos da Terra Ômega. Ele não falou sobre a guerra futura de C-37, sentindo que seria informação demais, um fardo pesado demais para aquela comunidade pacífica.

Leo ouviu, fascinado e apavorado. Ele era o oposto de Faísca. Não havia anarquia nele, apenas um desejo profundo de proteger seu povo. — Eu criei este lugar — disse ele, a voz cheia de uma paixão tranquila. — Um lugar onde não precisamos nos esconder. Onde crianças com poderes podem crescer sem medo. Eu não sou um soldado. Meus... amigos — ele gesticulou para uma criatura maior, parecida com um cachorro-do-mato feito de energia, que dormia ao seu lado — não são armas. Eles são família.

— Nós entendemos — disse Axis. — E não viemos aqui para recrutar um soldado. Viemos pedir ajuda a um protetor. A ameaça que estamos enfrentando... a Rainbow, os duplos... eles não vão parar. Cedo ou tarde, eles encontrarão este lugar. Eles verão sua comunidade não como um santuário, mas como um recurso a ser explorado ou uma ameaça a ser neutralizada.

Ele se inclinou para frente, o olhar sincero. — Nós não estamos pedindo para você lutar a nossa guerra. Estamos pedindo para nos ajudar a construir um mundo onde lugares como este possam existir em paz. Precisamos de você, Leo. Precisamos da sua habilidade única para pensar de forma diferente.

Leo ficou em silêncio por um longo tempo, o olhar perdido nas chamas. A mulher mais velha colocou uma mão em seu ombro. — A escolha é sua, meu filho. Mas o estranho fala a verdade. O mundo lá fora não nos deixará em paz para sempre.

Antes que Leo pudesse responder, um alarme soou. Não um alarme eletrônico, mas o som de um sino de vigia, tocado com urgência do alto de um dos picos que cercavam o vale.

Todos se levantaram. No céu, ao norte, três pontos pretos se aproximavam em alta velocidade. Eram jatos furtivos, com um design angular e agressivo que Axis e Ghost conheciam muito bem.

Eram jatos da Corporation Rainbow.

— Eles nos seguiram! — disse Ghost, sacando sua pistola.

— Não — disse Axis, os olhos fixos nos jatos. — Eles não estão aqui por nós. Eles estão aqui por ele.

Os jatos não diminuíram a velocidade. As comportas de bombas se abriram. Eles não vieram para capturar. Eles vieram para apagar o santuário do mapa.

Leo olhou para seu vilarejo, para as faces aterrorizadas de seu povo. A raiva, uma emoção que ele sempre suprimiu, endureceu seu rosto. Ele se virou para Axis, a decisão tomada em um instante de fogo e fúria. — Eu vou ajudar vocês — disse ele. — Mas primeiro, nós salvamos a minha casa.

Ele colocou dois dedos na boca e soltou um assobio agudo. Do chão ao seu redor, a energia da Calêndula se uniu, formando criaturas de todos os tipos. O vilarejo pacífico se tornou um exército.

Protocolo Alvorada: O Despertar de EixoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora