Capítulo 3: O Inimigo no Espelho

6 0 0
                                        


A sirene cortava o ar com a urgência de um bisturi, um som que prometia o fim da normalidade. Para Guilherme, agora apenas Axis, era o som do mundo desabando e se reerguendo em uma nova forma a cada segundo. Ele seguiu Ghost por corredores de metal escovado e vidro inteligente, o brilho das luzes de emergência vermelhas pintando tudo com uma camada de perigo iminente. Ela se movia com uma familiaridade letal, enquanto ele sentia que cada passo o afastava mais do garoto que, há poucas horas, se preocupava com o trânsito de São Paulo.

Eles entraram em uma sala de briefing circular. No centro, uma mesa holográfica já projetava um globo translúcido. Três outras figuras já estavam presentes. Ele reconheceu vagamente Volt e Quill, os dois agentes que havia derrubado, agora de pé, impassíveis e com os olhares frios. O terceiro era um homem corpulento, cuja presença parecia sugar o ar da sala. Sua armadura tática era mais pesada, e uma máscara cobria a metade inferior de seu rosto, emitindo um leve silvo a cada respiração.

— Novato — rosnou Volt, com um hematoma roxo se formando na bochecha. — Espero que seja melhor em seguir ordens do que em dar boas-vindas.

— Deixe-o em paz, Volt. Ele fez o que qualquer um acuado faria — disse Ghost, parando ao lado de Axis e colocando um tablet em suas mãos. — E, tecnicamente, ele te venceu. De novo.

Antes que Volt pudesse retrucar, as luzes da sala se ajustaram e um homem com uniforme impecável e cabelos grisalhos apareceu na entrada. Sua postura era a de um comandante, e seu olhar varreu cada agente, demorando-se um segundo a mais em Axis.

— Meu nome é Comandante Valerius. Bem-vindo à Corporation Rainbow, Axis. Seu treinamento começaria amanhã, mas o mundo não tem o luxo de esperar. — Ele gesticulou para o holograma. O globo deu um zoom vertiginoso em um ponto na Península Coreana. — Há trinta minutos, uma de nossas estações de extração de Calêndula em Seul ficou em silêncio. A instalação é automatizada e deveria ser indetectável. No entanto, estamos captando uma assinatura de energia anômala e errática, algo que nunca vimos antes.

Uma imagem 3D de um dispositivo estranho apareceu flutuando sobre o mapa de Seul. Era angular, preto e pulsava com uma luz carmesim doentia.

— A missão de vocês é de reconhecimento e, se possível, neutralização. Quero saber o que é esse dispositivo, quem o colocou lá e por quê. Ghost, você lidera a inteligência e a tecnologia em campo. Bane — ele indicou o agente mascarado —, você é o especialista em combate e neutralização tática. Axis, você é a nossa variável. Seus poderes gravitacionais são a única coisa em nosso arsenal que pode, teoricamente, interagir com a distorção que esse dispositivo está causando.

Axis sentiu um nó no estômago. Variável. Era uma forma educada de dizer "cobaia".

— Volt e Quill ficarão de prontidão no perímetro aéreo — continuou Valerius. — A equipe de inserção será composta por Ghost, Bane e Axis. O jato, Corvo Um, estará pronto em cinco minutos. Não sabemos o que vão encontrar lá, então esperem o pior. Dispensados.

Enquanto caminhavam em direção ao hangar, o agente mascarado, Bane, aproximou-se de Axis. Ele era ainda mais alto de perto.

— Garoto — disse ele, a voz abafada e grave vinda da máscara. — Em campo, você obedece às ordens da Ghost. Se hesitar, você morre. Se desobedecer, eu mato você. Entendido?

Axis apenas assentiu, o ar subitamente mais frio.

O Corvo Um era menos um jato e mais uma lâmina preta que cortava o céu. O interior era compacto e funcional. Axis se sentou em um dos assentos de contenção, sentindo a aceleração insana pressioná-lo contra o encosto. Em minutos, as luzes de São Paulo eram apenas uma memória brilhante abaixo deles.

Protocolo Alvorada: O Despertar de EixoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora