Capítulo 5 - 2070

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O caminho até a ala médica era um corredor longo e silencioso, um vácuo que dava a Axis tempo demais para pensar. A cada passo em seus coturnos táticos, a imagem do rosto de seu duplo piscava em sua mente — o sorriso cruel, o olhar sem vida. Ele havia enfrentado a si mesmo e vencido, apenas para ser confrontado com um novo mistério que, de alguma forma, parecia ainda mais pessoal. Ghost caminhava ao seu lado, o silêncio dela não era de calma, mas de intensa concentração. Seus dedos deslizavam sobre um display holográfico em seu antebraço, analisando os dados preliminares do novo ativo.

— Prontos para o zoológico? — ela perguntou sem desviar o olhar da tela, uma tentativa fraca de quebrar a tensão.

— Eu já vi meu próprio rosto morrer hoje, Ghost. Acho que estou pronto para qualquer coisa — respondeu Axis, embora a hesitação em sua voz traísse sua bravata.

A ala médica da Corporation Rainbow era separada do resto da base por portas de titânio pressurizadas, do tipo que se vê em filmes sobre contenção de pandemias. O ar do outro lado era mais frio, mais seco, com o cheiro estéril de antissépticos e ozônio. Cientistas em jalecos brancos moviam-se com propósito silencioso atrás de painéis de vidro reforçado. No centro de tudo, uma sala de isolamento circular se destacava, o epicentro da crise atual.

Comandante Valerius estava lá, uma estátua de autoridade impassível, observando a figura solitária sentada dentro da sala. Múltiplos monitores holográficos flutuavam ao redor dele, exibindo os sinais vitais do prisioneiro.

— Frequência cardíaca: sessenta e dois batimentos por minuto. Atividade cerebral: estado de alerta máximo. Níveis de adrenalina: basais — recitou Valerius, sem se virar para eles. — Ele acordou há quinze minutos, arrancou os sensores intravenosos, sentou-se e não se moveu desde então. Ele está calmo. Calmo demais. É a calma de um predador esperando o momento certo.

Ghost aproximou-se, seus próprios olhos analisando os dados. — A estrutura celular dele é anômala. Mostra exposição massiva à Calêndula, mas sem os marcadores de degradação que normalmente vemos. É como se o corpo dele tivesse... evoluído para processá-la.

— Ele é uma arma biológica? — perguntou Axis, a voz baixa.

— Ele é uma incógnita — corrigiu Valerius, finalmente se virando. Seu olhar era duro como aço. — Uma incógnita que apareceu no meio de uma incursão inimiga, com tecnologia que não conhecemos, e que parece ter uma conexão com você. Ele está esperando. Acreditamos que por você. Você entra.

A porta da sala de contenção deslizou para o lado com um silvo hidráulico que pareceu alto demais no silêncio tenso. Axis respirou fundo, o ar frio enchendo seus pulmões, e entrou.

O interior era branco, ofuscante, mobiliado apenas com a cama de exames onde o operativo estava sentado. No instante em que Axis cruzou a soleira, os olhos do garoto se cravaram nele. Não foi um olhar de curiosidade ou de hostilidade. Foi um olhar de reconhecimento. Um reconhecimento tão profundo e doloroso que, por uma fração de segundo, Axis viu uma tempestade de emoções cruzar aquele rosto — choque, uma dor antiga, um lamento — antes de tudo ser brutalmente suprimido e trancado atrás de uma máscara de disciplina militar. Ele conhecia aquele rosto, mas a reação era de alguém que reencontra um fantasma.

— Confirme a data de hoje. A data completa — disse o operativo, a voz firme, um comando, não uma pergunta.

— É 16 de setembro de 2050 — respondeu Axis, sentindo-se como uma peça em um jogo cujas regras ele desconhecia.

O operativo assentiu minimamente, uma contração quase imperceptível em sua mandíbula. Ele estava no tempo certo. O lugar estava errado, as pessoas estavam erradas, mas o tempo, a coordenada mais crucial de todas, estava correto. Mas então, seu olhar varreu Axis de cima a baixo, da cabeça aos pés, e a rachadura em sua fachada começou a se espalhar.

— Sua designação — ordenou ele.

— Axis.

— Sua idade.

A pergunta o pegou de surpresa, pessoal demais para aquele interrogatório frio. — Tenho dezenove. Faço vinte no próximo ano.

A palavra "dezenove" atingiu o operativo como um golpe de martelo. Ele se levantou abruptamente, o controle se estilhaçando. A calma de aço derreteu, revelando um horror puro e sem filtros por baixo. Ele cambaleou para trás, apoiando-se na parede para não cair, o sangue sumindo de seu rosto.

— Não — sussurrou ele, o som rasgando sua garganta. — Impossível. Repita.

— Tenho dezenove anos. Eu nasci em 2031 — disse Axis, agora na defensiva, dando um passo para trás.

O operativo riu. Um som seco, quebrado, um ruído de vidro se partindo que não continha nenhum humor. Era o som de uma vida inteira de sacrifício, de um plano meticuloso construído sobre os ossos de um universo morto, se desfazendo em pó. Ele olhou para Axis, e depois diretamente para o vidro espelhado, sabendo perfeitamente que estava sendo observado. Seu plano secreto, sua missão solitária... tudo havia se tornado uma piada cósmica. Não havia mais motivo para segredos.

— Vocês querem saber por que eu estou aqui? O que eu sou? — disse ele, a voz ecoando na sala estéril, não mais para Axis, mas para a audiência invisível. — Eu sou um fantasma. Eu sou o que restou de um mundo que vocês destruiriam.

Axis olhou para a parede de vidro, percebendo que aquilo era um teatro, e ele era o ator principal sem saber suas falas. — Do que você está falando?

— Do futuro. Do seu futuro — disse C-37, seu olhar se fixando em Axis com uma intensidade febril. — No meu universo, a Grande Guerra da Calêndula terminou em 2070. "Terminou" é uma palavra gentil. Ela aniquilou tudo. Noventa por cento do planeta foi silenciado para sempre. Eu vi o céu de Lisboa queimar e se transformar em obsidiana. Eu ouvi o silêncio que veio depois que Chicago caiu. Eu sou um sobrevivente de um apocalipse.

Do lado de fora, Ghost prendeu a respiração. Valerius permaneceu imóvel, mas seus olhos se estreitaram, processando a torrente de informações impossíveis.

— Eu não posso mudar o que aconteceu no meu mundo — continuou C-37, a voz carregada com o peso de suas memórias. — Mas eu podia impedir que acontecesse em outro. Meus dados indicavam que o ano de 2050 era o ponto crucial. O momento em que a faísca, a semente que levaria a essa guerra, finalmente surgiria neste universo. Minha missão era chegar aqui, me infiltrar, identificar essa faísca e apagá-la antes que o incêndio começasse.

Ele fez uma pausa, e seu olhar para Axis era pesado, indecifrável. Era para ser uma missão silenciosa, cirúrgica, solitária. Uma missão que ele planejou para um tempo em que ele poderia agir sem complicações, sem encontrar a única variável que ele, a todo custo, precisava evitar.

— Mas eu não contava em encontrar... — ele gesticulou para a sala, para o próprio Axis. — Uma organização como está já em pleno funcionamento. Agentes com seus poderes... já em campo.

Seus olhos se fixaram em Axis novamente, e a dor em sua expressão era quase palpável, disfarçada de frustração tática. — E, principalmente, não contava em encontrar você. Sua presença aqui, um agente com suas habilidades, neste exato momento... é uma anomalia que meus dados não previram. Você muda todas as variáveis. Meu plano de agir nas sombras, de resolver isso discretamente... acabou. Minha missão falhou no momento em que eu te vi.

Com sua confissão feita, a energia o abandonou. Ele se sentou na cama, o corpo curvado sob o peso de tragédias que só ele conhecia. O soldado havia desaparecido, deixando para trás apenas a casca de um plano destruído.

Valerius, do lado de fora, estava pálido, mas seus olhos brilhavam com uma oportunidade predatória. Ele não via um garoto quebrado; via a fonte de inteligência mais valiosa da história da humanidade.

— Ghost — disse Valerius, a voz um sussurro urgente. — Quero cada fragmento de dado que conseguir tirar do equipamento dele. Corrobore a história. Agora.

— Já estou nisso, Comandante — respondeu Ghost, seus dedos voando sobre seu console. — A criptografia é de um nível que nunca vi. É baseada em nossos próprios protocolos, mas é como tentar arrombar uma porta que ainda nem inventamos. Espere... consegui um acesso ao log de diagnóstico do hardware. A data de fabricação do processador central do traje dele... Comandante... está datado de 2068.

O silêncio na sala de observação foi absoluto.

— Ele está falando a verdade — concluiu Ghost.

Protocolo Alvorada: O Despertar de EixoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora