O silêncio a bordo do Corvo Um no voo de volta era mais pesado do que qualquer força gravitacional que Axis pudesse conjurar. A adrenalina da batalha havia se dissipado, deixando para trás um resíduo gelado de choque e uma infinidade de perguntas sem resposta. Bane limpava suas armas com uma calma metódica, Ghost analisava incessantemente os dados fragmentados que conseguiu salvar, e Axis... Axis encarava o chão do jato, tentando apagar da mente a imagem de seu próprio rosto, sem vida, antes de ser reanimado por uma bruxa feita de sombras. Ao lado deles, em uma maca de contenção, jazia o estranho do portal, um quebra-cabeça humano mergulhado em um sono profundo.
Assim que pousaram na base subterrânea, uma equipe médica já os aguardava na pista. Eles levaram o garoto inconsciente com uma eficiência silenciosa, desaparecendo por um corredor em direção à ala médica.
— Vocês três, sala do Comandante. Agora — disse uma voz pelo sistema de som do hangar.
A sala de Valerius era austera, dominada por uma janela de vidro escurecido que provavelmente observava todo o complexo. O Comandante estava de costas para eles, olhando para o vidro.
— Relatório — disse ele, sem se virar.
Ghost deu um passo à frente. — Missão parcialmente bem-sucedida, Comandante. O dispositivo foi desativado. Era uma bomba de acumulação, projetada para sobrecarregar e detonar o núcleo de Calêndula. As perdas civis e estruturais foram evitadas.
— Parcialmente? — Valerius se virou, os olhos cravados nos agentes.
— Encontramos resistência. Dois hostis, ambos Calêndulos. Uma com poderes de manipulação de sombras e, aparentemente, necromancia. O outro... — Ghost hesitou, olhando de relance para Axis.
— O outro era eu — completou Axis, a voz saindo mais firme do que ele esperava. — Um sósia perfeito. Ele tinha meus poderes, mas era mais experiente. Mais... cruel.
Valerius não demonstrou surpresa. Sua expressão permaneceu neutra, analítica. — Um duplo. Interessante. As teorias sobre incursões transdimensionais mencionavam essa possibilidade. Continue.
— O duplo foi neutralizado por mim — disse Ghost. — Mas a necromante o reviveu. Ambos escaparam. Não deixaram rastros, físicos ou energéticos. Como fantasmas.
— E o garoto? — perguntou Valerius.
— O portal protótipo na instalação ativou-se sozinho durante o confronto. Ele foi ejetado de dentro dele. Está em estado crítico, mas estável. A decisão de trazê-lo foi minha, Comandante. Ele pode ser nossa única fonte de informação sobre os invasores.
Valerius caminhou lentamente até sua mesa. Ele juntou as mãos, o olhar perdido em pensamentos. Por um longo minuto, o único som na sala foi o zumbido suave dos sistemas de ventilação.
— Vocês fizeram o correto, Ghost. Um relatório completo em meus dados em uma hora. Bane, certifique-se de que seu equipamento seja reavaliado. Axis, você está dispensado. Vá para seus aposentos. Quero uma avaliação psicológica sua às 0800 de amanhã.
Axis apenas assentiu e saiu, sentindo os olhares dos outros agentes em suas costas. Dispensado. Como se pudessem simplesmente desligar o que ele havia visto.
Seus aposentos eram um pequeno quarto funcional, mas confortável. Tinha uma cama, uma escrivaninha e um banheiro. A primeira coisa que ele fez foi ir até o espelho. Ele encarou seu reflexo, procurando. Procurando o brilho cruel, o sorriso de escárnio que vira nos olhos do outro. Era seu rosto. Cada traço, cada detalhe. Mas a pessoa que o atacou, que tentou matar seus companheiros... também era ele? "Eu sou o que acontece quando você para de ter medo", ele havia dito. A frase ecoava em sua mente como um veneno. O medo era a única coisa que ele sentia agora. Medo do que havia visto, medo do que ele poderia se tornar.
Ele socou a parede ao lado do espelho, não com força suficiente para quebrá-la, mas o impacto surdo vibrou por seu braço. A raiva e a confusão eram uma tempestade dentro dele. Quem era ele? O garoto de São Paulo que amava seus pais? Ou um monstro em potencial, uma arma que ainda não conhecia a própria crueldade?
Uma batida suave na porta o tirou de seus pensamentos. Era Ghost. Ela segurava dois copos com um líquido fumegante.
— Chá — disse ela, entrando sem esperar por um convite. — Valerius acha que um relatório completo resolve tudo. Eu prefiro cafeína e uma conversa franca.
Ela lhe entregou um dos copos. Ele o aceitou, o calor bem-vindo em suas mãos trêmulas.
— Como você está? De verdade — perguntou ela, seu tom surpreendentemente gentil.
— Eu não sei — admitiu Axis. — Eu vi meu próprio rosto tentar nos matar, Ghost. E você o matou. E depois ele voltou à vida. Nada disso faz sentido.
— Bem-vindo à Corporation Rainbow — disse ela com um suspiro, sentando-se na beirada da cama. — A primeira coisa que você aprende neste trabalho é que as regras da realidade são flexíveis. Eu já vi um homem que se teletransportava deixando pedaços de si mesmo para trás. Já lutei contra um Calêndulo que envelhecia as pessoas com um toque. Um duplo com seus poderes? É novo, mas não é a coisa mais estranha da lista.
— Como você faz isso? Como você... não enlouquece?
— Eu me concentro nos dados. No que eu posso provar. O que eu posso analisar — disse ela. — O que vimos hoje foram duas variáveis novas e um ativo desconhecido. Aquele que você lutou não era você, Axis. Ele era uma cópia, uma arma usando seu rosto. Você é a pessoa que parou aquele maquinário para me proteger. Lembre-se disso.
Axis olhou para ela, vendo pela primeira vez não apenas a hacker genial, mas uma veterana cansada que construíra muros ao redor de si mesma para sobreviver.
— Obrigado, Stela — disse ele, usando o nome dela pela primeira vez.
Ela lhe deu um pequeno sorriso. — De nada, Gui. Mas aqui dentro, somos Ghost e Axis. É mais seguro assim. Para todos.
No momento em que ela terminou a frase, seu tablet pessoal apitou. Uma notificação urgente. Ela a abriu e seus olhos se arregalaram.
— O que foi? — perguntou Axis.
— É o nosso estranho adormecido. A equipe médica fez uma análise completa. O corpo dele está... diferente. Metabolismo acelerado, tecidos que se regeneram em uma velocidade anormal, mesmo para um Calêndulo. Mas não é isso. Eles encontraram algo embutido no traje dele, protegido por uma blindagem de dados quase impenetrável. Eu consegui quebrar a primeira camada.
Ela virou o tablet para ele. Na tela, havia um único arquivo de áudio recuperado. O nome do arquivo era uma designação fria e numérica. C-37.
— E tem mais uma coisa — disse Ghost, o rosto pálido. — Ele acordou.
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Protocolo Alvorada: O Despertar de Eixo
FantascienzaPara proteger um mundo transformado pelo poder da Calêndula, a Corporation Rainbow criou agentes como Axis, um jovem capaz de dobrar a gravidade à sua vontade. Sua missão: caçar um exército fantasma que parece conhecer cada segredo da Rainbow. Mas a...
