A alvorada sobre a Patagônia chegou fria e silenciosa, pintando o céu com tons de rosa e laranja que pareciam quase obscenos diante da devastação abaixo. A fumaça ainda subia de duas das carcaças dos jatos Kestrel, cicatrizes negras nas encostas distantes da montanha. No vale, o Santuário estava ferido, mas vivo.
O som que acordou Axis não foi de explosões, mas de martelos batendo em madeira e de vozes trabalhando em uníssono. Ele saiu do pequeno abrigo onde passara a noite e viu a comunidade em ação. Liderados por Legião, os Calêndulos estavam reconstruindo. Usando seus poderes de formas sutis e construtivas — um manipulador de terra limpando os escombros, uma mulher com poder sobre o crescimento das plantas remendando as estufas danificadas — eles trabalhavam para curar sua casa.
Legião não era mais o jovem nervoso que eles haviam encontrado. A batalha o forjara. Havia uma nova autoridade em sua postura, um peso em seu olhar. Ele se movia entre seu povo, organizando, encorajando, a personificação de um protetor. Ao seu lado, seu "Parça" de energia sólida ajudava, carregando tábuas de madeira com uma determinação alegre.
Ghost estava sentada no topo de um rochedo, com um terminal holográfico no colo, interceptando as comunicações da Rainbow. — Silêncio total — disse ela quando Axis se aproximou. — A Rainbow registrou a perda dos três jatos e dos pilotos. A história oficial é que eles foram abatidos por uma anomalia climática. Eles não sabem que sobrevivemos. Não sabem de Legião. Por enquanto, somos fantasmas.
A paz temporária era uma ilusão, e a prova disso estava em uma das casas mais isoladas do vilarejo, agora transformada em uma cela improvisada. Lá dentro, os três pilotos da Rainbow, despojados de suas armaduras, estavam sendo mantidos sob a guarda silenciosa de Bane.
— Eles são um problema — disse Axis, olhando para a casa. — Não podemos mantê-los aqui para sempre.
— E não podemos soltá-los — completou Ghost. — São um elo direto para nós. Mas são mais do que isso. São uma fonte de inteligência.
A reunião aconteceu em volta da mesma fogueira da noite anterior, agora cercada por um clima de tensão estratégica. A voz de Valerius soava pelo comunicador seguro que Ghost havia montado.
— A prioridade é o interrogatório — disse o Comandante. — O líder do esquadrão. Pelo que Ghost conseguiu extrair dos registros do jato antes de caírem, o nome dele é Kaelen Thorne. Sem parentesco com o nosso Mercer, felizmente. Ele é um veterano, condecorado. Leal.
— Leais podem ser quebrados — disse Bane, a voz grave.
— Ameaças e violência não funcionarão com um homem como este — contrapôs Valerius. — Ele acredita na missão que lhe foi dada. Acredita que este lugar é um ninho de terroristas. Precisamos quebrar sua fé na causa, não seu corpo.
A primeira sessão de interrogatório foi um exercício de futilidade. Axis, Ghost e Bane estavam na sala, com Valerius conduzindo as perguntas remotamente. O piloto Thorne, um homem de feições duras e olhos de aço, permaneceu em silêncio, encarando-os com um desprezo frio. Ele não respondeu a nenhuma pergunta sobre o Conselho, sobre suas ordens, sobre os protocolos da Rainbow.
Após uma hora, Valerius encerrou a sessão. — Ele é um muro de pedra. Precisamos de outra abordagem.
Foi então que Axis se manifestou. — E se... e se a gente parar de tentar quebrar o muro e, em vez disso, apenas abrirmos a porta?
— O que você quer dizer, Axis? — perguntou Ghost.
— Ele acredita que está do lado certo da história — explicou Axis, a memória de sua própria desilusão ainda fresca. — Ameaças só vão reforçar a crença dele de que somos os vilões. Mas a verdade... a verdade destrói a fé de uma forma que nenhuma dor física consegue. Mostre a ele. Mostre o Arquivo Fantasma.
Houve um silêncio no canal. A ideia era incrivelmente arriscada. Revelar sua carta mais importante para um inimigo capturado. — É um risco monumental — disse Valerius. — Se ele não acreditar, ou se usar isso contra nós de alguma forma...
— Ele é um soldado que segue ordens porque acredita na honra da organização — argumentou Axis. — Mostre a ele que essa honra é uma mentira. Dê a ele a chance de escolher de que lado ele realmente quer lutar.
A aposta foi feita.
Eles levaram Thorne de volta à sala. Desta vez, não fizeram perguntas. Ghost simplesmente ativou o projetor holográfico. — O que é isso? Mais propaganda? — zombou o piloto.
— É o relatório da nossa última missão — disse Axis, a voz calma. — A missão que a Rainbow nos enviou antes de nos tornarmos "fantasmas".
O holograma de Elias Mercer, aterrorizado, preencheu a sala. Thorne assistiu, a arrogância em seu rosto lentamente dando lugar à confusão, e depois ao choque. Ele ouviu a confissão sobre o catalisador, sobre a protegida radical chamada Nyx. E então, ele ouviu o grito de Mercer ao reconhecer seus assassinos. "É a Rainbow! Eles não vieram para nos parar... vieram para roubar a pesquisa! Para silenciar..."
O vídeo terminou. O piloto ficou olhando para a estática, o rosto pálido, a respiração pesada. A certeza inabalável em seus olhos de aço havia se estilhaçado, substituída por uma traição profunda e doentia. Ele servia a monstros. Ele estava prestes a cometer um massacre a serviço de monstros.
— O Conselho... — sussurrou ele, as palavras de Valerius ecoando. — A Ordem de Extermínio veio diretamente deles. "Ameaça Calêndulo de alta periculosidade". Eles nos disseram que vocês eram os homens de Mercer.
Ele ergueu o olhar, não mais para inimigos, mas para companheiros de armas que haviam sido traídos pela mesma bandeira. — O que... o que vocês são?
— Nós somos o que restou da honra da Rainbow — disse Valerius, sua voz entrando no comunicador. — Nós somos o Protocolo Alvorada. E estamos em guerra com os homens que nos deram nossas ordens.
Thorne ficou em silêncio, a guerra interna visível em seu rosto. — Eu não posso me juntar a vocês — disse ele finalmente. — Minha equipe, minha família... eles ainda estão lá. Mas eu não posso mais servir a esses homens.
— Você pode — disse Ghost. — Você pode lutar de dentro.
E assim, um acordo foi selado. Thorne e seus dois pilotos seriam "resgatados" em 48 horas. A história oficial seria que eles foram capturados, resistiram e escaparam. Mas Thorne agora era um ativo do Protocolo Alvorada. Uma toupeira. Sua primeira missão era alimentar a Rainbow com informações falsas sobre a destruição total do Santuário e relatar que os agentes desertores (Axis, Ghost e Bane) haviam morrido no ataque.
— Tem mais uma coisa — disse Thorne, antes de ser levado de volta para sua cela. — Vocês precisam saber em que o Conselho está focado agora. Eles têm uma lista de alvos de alta prioridade. Calêndulos que eles querem capturar vivos, a qualquer custo.
— Nyx? — perguntou Axis.
— Ela é um fantasma. Ninguém sabe onde ela está — respondeu Thorne. — Não. O alvo número um deles, a obsessão pessoal do chefe do Conselho, é uma mulher. Uma Calêndulo reclusa que, segundo os rumores, tem o poder de... reescrever a biologia. De curar o incurável.
Ele olhou para eles, a urgência em sua voz clara. — Eles a chamam de Égide. E eles estão se aproximando dela.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Protocolo Alvorada: O Despertar de Eixo
Science FictionPara proteger um mundo transformado pelo poder da Calêndula, a Corporation Rainbow criou agentes como Axis, um jovem capaz de dobrar a gravidade à sua vontade. Sua missão: caçar um exército fantasma que parece conhecer cada segredo da Rainbow. Mas a...
