A poeira assentava com uma lentidão fúnebre sobre as ruínas de Paris. Tinha o gosto metálico de sangue e o cheiro acre de ozônio, uma carniça tecnológica deixada pela guerra. O silêncio era a novidade mais chocante. Por anos, o mundo gritou em agonia. Agora, ele apenas sussurrava, um lamento carregado pelo vento que passava pelas carcaças de edifícios e monumentos fraturados. A Torre Eiffel, partida ao meio, era um esqueleto de metal retorcido apontando um dedo acusador para o céu cinzento e sem anéis.
Apoiado no que um dia fora o pilar de mármore de um museu, o Agente C-37 tentava regular a respiração. Seu traje de combate, uma maravilha tecnológica da Rainbow Inc., estava rachado e manchado, piscando alertas vermelhos que ele já não tinha forças para reconhecer. O capacete havia se partido, revelando o rosto de um jovem que envelhecera décadas em poucos anos. O cabelo escuro estava grudado na testa suada, e os olhos carregavam o vazio de quem viu o apocalipse de perto e sobreviveu para caminhar sobre ele.
A batalha final havia acabado há horas. O líder do exército Calêndulo, um ser de poder inimaginável que comandava as próprias forças da natureza, jazia a poucos metros dali, silenciado para sempre. Não houve um grito de vitória, apenas o som oco de um corpo caindo sobre os escombros. C-37 era a arma definitiva da Rainbow Inc., um Calêndulo único com o poder de anular o poder dos outros. Uma anomalia criada para consertar um mundo que eles mesmos ajudaram a quebrar. Ele havia cumprido sua função. Vencera a guerra.
Mas que mundo restava para ser salvo?
Ele se forçou a ficar de pé, cada músculo protestando. Cada passo era um esforço monumental, não pelo cansaço físico, mas pelo peso das almas que se foram naquele mesmo solo. Ásia havia sido silenciada primeiro. A África, varrida antes mesmo de ter chance de lutar. A Europa se tornara um cemitério de impérios. E sua casa... sua casa era apenas uma memória distante e dolorosa, um fantasma em sua mente. A guerra entre humanos e Calêndulos não deixara vencedores, apenas sobreviventes em um planeta moribundo.
Foi então que ele sentiu. Uma assinatura de energia fraca, mas persistente. Um zumbido familiar de tecnologia instável, um grito desesperado no silêncio. Com a última reserva de sua força, ele seguiu o sinal até o subsolo de um laboratório destruído da própria Rainbow Inc. Lá, em meio a cabos partidos e reatores extintos, flutuava uma anomalia: um rasgo trêmulo na realidade, um protótipo de portal interdimensional que nunca deveria ter funcionado.
Ele sabia o que era aquilo. Uma aposta desesperada de cientistas que já estavam mortos. Um bilhete só de ida.
Seu mundo não tinha mais propósito. Era um túmulo gigante ecoando as vozes de seus parceiros caídos, de civis inocentes, de tudo que ele amou e perdeu. Mas ali, naquele portal instável, havia uma chance. Não de salvação, mas de redenção. Uma chance de fazer com que todo aquele sofrimento não fosse em vão. Vinte anos. Os arquivos diziam que a guerra em seu mundo levara vinte anos desde o primeiro grande conflito até o fim amargo de hoje. Em outro lugar, em outra Terra, talvez o relógio ainda não tivesse começado a contar.
Com a mandíbula travada em determinação, C-37 caminhou até o portal. Ele não estava mais salvando seu mundo. Estava indo impedir que outro cometesse os mesmos erros. Sua missão não era mais vencer uma guerra, mas garantir que ela nunca começasse.
O rasgo de luz o engoliu. A sensação foi de ser desfeito e refeito átomo por átomo, uma agonia que durou uma eternidade e um segundo.
E então, o silêncio. Mas um silêncio diferente, cheio de vida.
Ele foi cuspido de forma violenta sobre uma terra macia e úmida, o cheiro de mata e chuva preenchendo seus pulmões. O ar era limpo, gelado, real. Acima dele, através das folhas de árvores altas, um céu azul e vivo o encarava. O mundo ao seu redor pulsava com vida.
Ele estava em casa, mas não a sua.
Com as mãos trêmulas, ele tocou o rosto. A designação C-37 parecia um eco distante, o nome de um fantasma. Ali, naquele novo começo, ele se permitiu lembrar de quem era antes de tudo.
Henzo. Seu nome era Henzo. E sua verdadeira guerra estava apenas começando.
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PS: Qualquer semelhança com a Lore de Valorant daqui pra frente, não é pura e mera coicidencia, essa historia se trata de uma inspiração e uma homenagem ao meu jogo favorito, veremos isso como uma releitura.
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Protocolo Alvorada: O Despertar de Eixo
Science FictionPara proteger um mundo transformado pelo poder da Calêndula, a Corporation Rainbow criou agentes como Axis, um jovem capaz de dobrar a gravidade à sua vontade. Sua missão: caçar um exército fantasma que parece conhecer cada segredo da Rainbow. Mas a...
