Capítulo 9: Ponto Nexus

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16 de Maio de 2051. Maui, Centro de Treinamento do Protovolo Alvorada.

O ar salgado do Havaí deveria ser sinônimo de paz, mas há semanas que a palavra havia perdido seu significado. Uma "guerra fria" com a facção de Nyx e incursões cada vez mais ousadas dos "duplos" da Terra Ômega haviam colocado o mundo em alerta máximo. A calmaria na base do Protocolo Alvorada em Maui era apenas a respiração profunda antes de um mergulho em águas turbulentas e sangrentas.

Para Guilherme, no entanto, a única guerra que importava no momento era a que se travava no silêncio de seu próprio coração. Henzo o estava evitando, e o silêncio dele era mais ensurdecedor do que qualquer alarme de batalha.

Ele o procurou por toda a base. No centro de treinamento, onde a sombra de Henzo ainda parecia pairar sobre cada simulação. No refeitório, onde a cadeira em que costumavam se sentar estava dolorosamente vazia. Finalmente, ele o encontrou na praia de areia negra, não muito longe da plataforma de lançamento. Uma equipe técnica fazia os preparativos finais em um portal de teletransporte instável, uma versão aprimorada daquele que trouxera Henzo. Ele estava sentado na areia, observando as ondas, uma figura solitária contra a imensidão do oceano.

— O que você quer, Axis? — perguntou Henzo, sem se virar, quando Guilherme se sentou ao seu lado. A formalidade do codinome foi como uma facada, fria e precisa.

— Eu quero saber por que — disse Guilherme, a voz baixa. — Há uma semana, nós estávamos... nós. Agora, você mal olha para mim. Você me chama pelo meu codinome. E está sentado aqui, olhando para a única coisa nesta base que pode te levar para longe de mim. Eu quero o Henzo de volta.

— O Henzo cometeu um erro — disse ele, a voz dura como pedra. — Ele se permitiu esquecer a missão. C-37 está no comando agora. E eu estou indo embora.

— Embora? Para onde? A guerra está para começar, você é nossa melhor chance...

— Você quer a verdade? — interrompeu Henzo, virando-se para ele pela primeira vez. A dor em seus olhos era um oceano, profundo e tempestuoso. — A verdade é que essa guerra só pode acabar de um jeito. E eu não vou ficar para ver.

— Que jeito? O que você sabe que não está me contando? — A voz de Guilherme era um apelo.

Henzo suspirou, o som de um homem que já vivera aquela cena um milhão de vezes, em um milhão de praias diferentes. — Em todos os universos, em todas as linhas do tempo que eu já vi, você é o meu Ponto Nexus, Guilherme. Você é a constante. A variável que nunca muda. Nós sempre nos encontramos. Nós sempre... — ele hesitou, a palavra pesada demais para ser dita. — E a guerra sempre te leva. A guerra sempre encontra uma maneira de te colocar na minha frente, e então te arranca de mim.

As palavras pairaram no ar, carregadas de uma tragédia que Guilherme mal podia compreender. — Eu já te vi morrer em meus braços tantas vezes que perdi a conta. Eu senti o cheiro de ozônio quando a torre de Tóquio caiu sobre nós. Eu senti o seu pulso parar debaixo dos meus dedos enquanto São Paulo queimava ao nosso redor. Eu vim para este universo vinte anos adiantado, Guilherme. Meu único plano era parar a guerra antes de você existir para ela. Sem ter que te conhecer. Sem ter que passar por isso de novo. Mas este universo me traiu. Ele te serviu para mim em uma bandeja de prata. E agora... eu não posso assistir de novo. Não posso ver você morrer. Eu estou indo embora antes que a profecia se cumpra.

Guilherme ouviu, o quebra-cabeça de Henzo finalmente se encaixando em sua mente. A tristeza, a distância, o conhecimento inexplicável. Não era sobre uma missão. Era sobre eles.

— Então é isso? Você vai fugir? — disse Guilherme, a voz baixa, mas vibrando com uma força recém-descoberta. — Você vai me abandonar, não por falta de amor, mas por excesso dele? Que tipo de lógica é essa, Henzo?

— É a lógica da sobrevivência! A minha! Para que minha alma não se estilhace de novo!

— Não. É a lógica do medo — retrucou Guilherme, levantando-se e encarando-o. — Escolher a pessoa com quem você quer dividir sua vida, Henzo, é uma das decisões mais importantes que qualquer um pode fazer. Sempre. Porque quando dá errado, deixa sua vida cinza. E às vezes você nem nota, até acordar numa manhã e perceber que anos se passaram.

Henzo ficou de pé, o rosto contorcido em agonia. — Não... por favor, não faça isso.

— Nós dois sabemos o que é isso, Henzo — continuou Guilherme, a voz embargada, mas firme. — O seu amor trouxe cor para a minha vida. Você esteve presente nos momentos mais difíceis, e eu sou a pessoa mais sortuda do mundo por essa dádiva. Eu só espero ter sabido dar valor.

— Você deu... — sussurrou Henzo, uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto.

— Então me deixe escolher o meu próprio destino! Se eu vou morrer, eu escolho morrer tendo vivido cada segundo que eu pude ao seu lado. Eu prefiro um dia, uma hora de felicidade contigo, do que uma vida inteira de segurança sem você. Eu não sou uma profecia, Henzo. Eu não sou um fantasma do seu passado. Eu sou um homem, parado na sua frente. E eu estou te pedindo... fica. Lute comigo. Fica comigo.

A última barreira de Henzo desmoronou em um soluço silencioso. Ele deu um passo à frente e o abraçou com a força de quem se afoga, o rosto enterrado no pescoço de Guilherme, o corpo tremendo. — Eu não posso te perder. Eu não posso.

— Você não vai — disse Guilherme, segurando o rosto dele entre as mãos, forçando-o a olhá-lo nos olhos. — Eu te amo.

— Eu também te amo.

E então ele o beijou. Um beijo que era um milhão de despedidas e um milhão de recomeços, salgado pelas lágrimas e pelo mar. Um beijo que desafiava universos e profecias. Quando se separaram, a decisão estava tomada. — Eu fico — disse Henzo, a voz finalmente firme, um juramento. — Eu não vou a lugar nenhum. Eu fico.

Um sentimento de paz, a primeira em semanas, envolveu Guilherme. O peso do futuro, da guerra, de tudo, pareceu desaparecer por um instante. Havia apenas aquele momento. Ele sorriu, um sorriso genuíno e cheio de alívio.

Foi então que o mundo se desfez em dor.

Um som de vácuo, como se o ar estivesse sendo rasgado, e uma dor fria e lancinante explodiu em seu peito. Ele olhou para baixo e viu uma estaca de energia escura e crepitante saindo de seu esterno, a ponta manchada com seu próprio sangue. Sua visão ficou turva, suas pernas cederam. O ar fugiu de seus pulmões em um arquejo úmido. O sorriso de Henzo se transformou em uma máscara de horror absoluto.

— Não... Não, não, por favor, NÃO! — gritou ele, a voz rasgando em pura agonia, segurando Guilherme antes que ele caísse na areia.

Passos pesados na areia se aproximaram. Uma figura alta, vestindo uma versão escura e corrompida do traje de Bane, parou diante deles. Era um dos duplos da Terra Ômega. Seus olhos brilhavam com uma luz vazia, sem emoção, o trabalho cumprido. Ele se virou e recuou para as sombras da noite, desaparecendo tão silenciosamente quanto surgiu.

Henzo não o viu partir. Seu universo inteiro havia se contraído para o rosto de Guilherme, que tentava respirar, o sangue borbulhando em seus lábios. A profecia. Estava acontecendo. Exatamente como sempre acontecia. Sua tentativa de fugir do destino apenas o levara diretamente para o coração da tragédia.

Ele segurou Guilherme em seus braços, o calor do corpo dele se esvaindo rapidamente, a areia negra manchando-se de um vermelho escuro. Ele pressionou as mãos sobre o ferimento, uma tentativa fútil de conter a vida que escapava por entre seus dedos. O som das ondas parecia distante, abafado pelo pulsar desesperado de seu próprio coração.

— Gui... por favor, fica comigo... — implorou ele, as lágrimas agora caindo livremente, misturando-se ao sangue em seu peito.

Os olhos de Guilherme o encontraram uma última vez, e então, a luz neles começou a se apagar.

E enquanto a vida de Guilherme se esvaía em seus braços na praia solitária, a única coisa que Henzo conseguia pensar, a única palavra que sua mente conseguia formar em um grito silencioso e interminável, era:

De novo não.

Protocolo Alvorada: O Despertar de EixoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora