Capítulo 26: A Caçadora

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A Base Égide, a plataforma da Zenith Private Security no Atlântico, havia se transformado. O que antes era uma fortaleza silenciosa de aço e vidro agora tinha bolsões de caos vibrante. O primeiro dia de Voltaica no complexo foi marcado por três blecautes totais e o cheiro persistente de ozônio nos corredores de ventilação.

— Ela é uma bateria ambulante sem botão de desligar! — exclamou Ghost, esfregando as têmporas em frustração, enquanto observava um monitor de rede elétrica que mais parecia um sismógrafo durante um terremoto. — Ela literalmente tentou recarregar seu telefone apenas segurando-o, e fritou a placa-mãe de três dos meus servidores!

Num canto da oficina principal, Faísca e Voltaica riam como duas hienas. Elas haviam "pego emprestado" um carrinho de manutenção e o estavam modificando. Faísca soldava um chassi improvisado, enquanto Voltaica, com os dedos brilhando, parecia estar conectando o motor diretamente a si mesma.

— Mais rápido, Bia! — gritou Voltaica, seus cabelos crepitando com eletricidade estática. — Se a gente conseguir fazer isso atingir oitenta por hora no hangar principal, aposto que o grandão lá, o Bane, finalmente vai rachar um sorriso.

Paradoxo observava tudo de um canto, com um leve sorriso de escárnio. — Crianças. Dêem a elas brinquedos novos e elas esquecem que o mundo está acabando.

Apesar da energia caótica, uma nova ordem estava se formando. Égide havia transformado a enfermaria em um verdadeiro centro de trauma e pesquisa biológica. Rastreadora e Legião trabalhavam juntos nos biodomos da plataforma, cultivando plantas medicinais e ensinando as criaturas de Legião a ajudar nas tarefas de manutenção. O Duelista e Bane passavam horas na sala de treinamento, um balé silencioso de precisão marcial e força bruta, cada um respeitando a disciplina do outro.

Axis e Henzo eram o centro calmo dessa tempestade. Eles se tornaram a âncora de liderança do Protocolo. Valerius definia a estratégia, mas era Axis quem unia as personalidades díspares, e era Henzo quem garantia que essa união fosse inquebrantável.

Naquela tarde, a calmaria foi rompida. Valerius convocou a equipe central — Axis, Henzo, Ghost, Bane e o Duelista — para a sala de comando. A chamada não era uma reunião de rotina. Um holograma de Kaelen Thorne, o piloto da Rainbow que se tornara sua toupeira, apareceu na mesa. Sua imagem estava distorcida, cheia de estática, e ele falava rápido, sussurrando.

...não tenho muito tempo. A rede interna está um caos. Eles sabem que há um vazamento.

— Thorne, acalme-se. Relate — disse Valerius, a voz firme.

É sobre a missão de Glasgow — disse o piloto, o suor brilhando em sua testa. — Vocês escaparam. Mas o Conselho... eles estão furiosos. A perda de Égide, do Duelista e agora de Voltaica... eles não veem mais vocês como desertores. Eles os veem como uma facção rival que está roubando seus ativos mais valiosos.

— Deixe-os vir — disse Bane, impassível.

Vocês não entendem! — sibilou Thorne. — Eles não estão mais enviando equipes táticas. Eles não estão mais enviando soldados da Rainbow. Eles... eles abriram o cofre. Eles ativaram o Contrato de Nível Ômega. Eles a chamaram.

Ghost franziu a testa. — Chamaram quem?

Cérbero.

O nome pairou no ar. Axis e os outros olharam confusos. Mas o Duelista, que estava em silêncio até então, deu um passo à frente, a postura rígida. — Impossível — disse ele. — O Contrato Ômega é um mito.

— Quem é Cérbero? — perguntou Axis.

Ela não é uma agente — explicou Thorne, a voz cheia de pavor. — Ela é uma empreiteira privada. A melhor caçadora de recompensas do planeta. A Rainbow a mantém sob um contrato de exclusividade multimilionário, pagando a ela uma fortuna apenas para não trabalhar para mais ninguém. Eles só a ativam quando um ativo é considerado irrecuperável ou perigoso demais para soldados normais. Ela não é leal. Ela é uma artista.

— Qual a especialidade dela? — perguntou Henzo, analisando a ameaça.

Contenção — disse o Duelista, respondendo por Thorne. Seu tom era de um respeito sombrio. — Ela não luta. Ela caça. Ela usa tecnologia de nanofios de ponta. Ela transforma qualquer ambiente em uma armadilha. Sensores acústicos, redes de captura, dardos de estase... ela tece uma teia. E quando você percebe que está nela, já é tarde demais. Seu histórico é perfeito. Ninguém nunca escapou.

Ela não está vindo para lutar com vocês — continuou Thorne, a voz desesperada. — Ela está vindo para coletar vocês. Um por um. O Conselho quer vocês vivos. E ela sempre entrega a encomenda. A conexão foi cortada, deixando a sala em um silêncio pesado e frio.

Faísca, que havia entrado no meio da conversa, assobiou. — Uau. Nanofios. Essa eu quero ver de perto.

— Você não vai querer — disse o Duelista. — Em um duelo, eu posso ser derrotado. Cérbero não pode. Ela não duela. Ela termina a luta antes que ela comece.

A equipe estava diante de seu maior dilema. Eles não podiam se esconder; Cérbero era a melhor rastreadora do mundo. A ZPS lhes dava proteção, mas se Cérbero decidisse se infiltrar, a base inteira poderia ser paralisada. Eles não podiam lutar contra ela; suas habilidades eram o antídoto perfeito para uma equipe de Calêndulos.

— Ela é movida por contrato — disse Valerius, pensando em voz alta. — Sua lealdade é ao pagamento.

— Não temos como superar a oferta da Rainbow, Comandante — disse Ghost, analisando os dados financeiros da ZPS. — O Conselho tem recursos ilimitados.

Axis, que estava quieto, olhando para o holograma da Terra, finalmente falou. — Não. Mas nós podemos oferecer algo que eles não podem.

Henzo olhou para ele, já entendendo aonde aquilo ia. — Você tem razão, Axis. Não podemos oferecer a ela um pagamento maior. Mas podemos oferecer a ela uma caça melhor.

Axis se virou para a equipe. — Ela é a melhor caçadora do mundo, certo? E o que a Rainbow a mandou fazer? Caçar ex-agentes. Um trabalho de limpeza. É entediante para alguém como ela.

— O que você está sugerindo, Axis? — perguntou Valerius.

— Nós não vamos nos esconder dela. Nós não vamos lutar contra ela. Nós vamos... nos exibir.

Ghost começou a entender, um sorriso lento se formando em seus lábios. — Estamos rastreando as incursões da Terra Ômega. Nossas análises preveem o próximo grande ataque deles. Eles estão mirando na Usina Hidrelétrica de Itaipu, na fronteira do Brasil com o Paraguai. É uma das maiores fontes de energia do mundo, o que significa que é um alvo de Calêndula de valor incalculável para eles.

— Exatamente — disse Axis. — A Terra Ômega vai atacar Itaipu. E nós estaremos lá para impedi-los. E Cérbero, que estará nos rastreando, vai nos seguir até lá.

— É um risco absurdo — disse Bane. — Lutar em duas frentes? Contra os duplos e a melhor caçadora do planeta ao mesmo tempo?

— Nós não vamos lutar contra Cérbero — corrigiu Axis. — Nós vamos deixar ela assistir. Vamos mostrar a ela que, enquanto a Rainbow está caçando seus próprios agentes, nós estamos lutando em uma guerra interdimensional secreta contra alienígenas que se parecem conosco. Vamos mostrar a ela uma caça que ela nunca imaginou existir.

O plano era audacioso, arrogante e incrivelmente perigoso. Era perfeito.

— Ela é uma artista — disse o Duelista, um raro brilho de admiração em seus olhos. — E artistas adoram um palco. Nós vamos dar a ela o maior show da Terra.

Valerius bateu a mão na mesa. — Plano aprovado. Ghost, prepare a inteligência. Faísca, Voltaica, Bane... preparem as armas. O resto de vocês... preparem-se para a sua estreia. O Protocolo Alvorada vai oficialmente à caça. E vamos ter uma plateia muito importante.

Protocolo Alvorada: O Despertar de EixoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora