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O sol já estava começando a iluminar o quarto, mas eu ainda sentia as emoções da noite agitada que passamos.

Rafe dormia ao meu lado, respirando profundamente, como se o mundo lá fora não importasse.

Ele parecia tão tranquilo, tão diferente de como eu o conhecia. De como nós nos conhecíamos, na verdade.

Acordei antes dele, assim como ontem.

Levantei devagar, tentando não fazer barulho. Sabia que Rafe precisava descansar.

Coloquei a blusa dele que estava no chão e desci as escadas.

A tranquilidade daquela casa, rodeada apenas pelo som do vento nas árvores e das ondas do lago, era um refúgio que eu nem sabia que precisava.

Peguei meu celular na mesa da cozinha e, sem pensar muito, procurei o nome "Vovó" na lista de contatos.

Fazia um tempo que eu não falava com ela. A última vez foi quando decidi dar mais uma chance para Rafe.

Ela era tudo para mim. Minha conexão com minha mãe, minha âncora quando as coisas ficavam complicadas, especialmente depois do que aconteceu com Rafe um ano atrás e minha fuga para a Itália.

Ela sempre soube o que dizer, mesmo quando eu não queria ouvir.

Respirei fundo e apertei o botão de chamada. Levei o celular ao ouvido, enquanto meu coração batia mais forte a cada toque.

- Alô? - a voz de minha avó, suave e acolhedora, ecoou do outro lado da linha, fazendo-me sorrir imediatamente - Bella, querida! Quanto tempo! Como você está, minha menina?

- Oi, vó! Eu tô bem... mais ou menos. - respondi, minha voz saindo mais baixa do que eu esperava. - Senti sua falta.

- Ah, também senti sua falta, Bella. A casa está tão quieta sem você por aqui. Como estão as coisas em Outer Banks?

Hesitei por um momento.

Como explicar tudo o que estava acontecendo sem parecer que minha vida estava um caos? Suspirei e decidi ser honesta.

- Vó... está complicado. Você lembra o que te contei sobre mim e o Rafe, né?

- Uhum, claro que me lembro, Bella. Não faz tanto tempo assim que você ligou, e eu sei o quanto isso te afetou no passado. O que aconteceu agora?

- Os Pogues e o Enzo descobriram. - confessei, sentindo o peso dessas palavras - Descobriram sobre eu e Rafe termos voltado, e agora estão todos... bravos. Não confiam em mim, e muito menos no Rafe. Está difícil.

Houve um breve silêncio do outro lado da linha, mas eu podia imaginar minha avó, sentada em sua cadeira favorita na varanda da casa na Itália, com aquela expressão pensativa que ela sempre fazia quando estava escolhendo as palavras certas.

Quando ela finalmente falou, sua voz era firme e calma, como sempre.

- Bella, eu sei que você está confusa, e não é para menos. Mas quero que você se lembre de algo importante: as pessoas têm medo de mudanças, especialmente quando elas envolvem alguém que já nos machucou antes. Você precisa entender que sua família e seus amigos só querem te proteger. E eu sei que você também quer isso. Mas, querida, se Rafe realmente mudou, eles vão perceber com o tempo.

- Eu sei, vó. Mas é tão difícil. - respondi, minha voz um pouco trêmula. - Eu estou... confusa. Esse fim de semana tem sido incrível. Nós estamos nos reconectando de uma forma que eu não imaginava possível. Ele é diferente agora, de verdade. Eu vejo isso, eu sinto isso. Mas, ao mesmo tempo, eu ainda lembro de tudo que aconteceu antes, de como eu me senti... de como eu sofri.

Minha avó suspirou do outro lado da linha.

- O amor é complicado, minha querida. E eu sei que o que aconteceu com você e o Rafe antes te marcou profundamente. Mas as pessoas podem mudar. O importante é se perguntar se você está disposta a perdoar e seguir em frente, e se ele está disposto a ser a pessoa que você precisa que ele seja.

Fiquei em silêncio por um momento, refletindo sobre as palavras dela.

Era exatamente isso. Estava disposta a acreditar na mudança dele, mas a ferida do passado ainda latejava.

- Eu queria que você estivesse aqui - sussurrei, minha voz embargada - Sinto tanta falta sua, da Itália, de como tudo parecia mais fácil quando eu estava aí com você.

- Sinto sua falta também, Bella! - ela respondeu, a suavidade em sua voz me aquecendo por dentro. - A casa está tão silenciosa e vazia sem você por aqui. Mas, minha menina, eu sei que você tem coisas a resolver aí, em Outer Banks. Esse é o seu lar agora, e você não pode fugir de tudo isso. Sei que está difícil, mas você é mais forte do que imagina.

Sorri, embora soubesse que ela não podia ver.

- Eu queria muito ir te visitar antes do verão acabar.

- Eu adoraria, querida, mas não se preocupe com isso agora. Se concentre em resolver as coisas aí, em entender o que você realmente quer e como quer que sua vida seja daqui pra frente. Eu sempre estarei aqui, esperando por você. Não importa o que aconteça.

Seu tom de voz brincalhão me fez sorrir ainda mais.

- Eu até sinto falta de todas as suas músicas altas e de você falando o tempo todo.

Eu ri, uma gargalhada genuína, a primeira em muito tempo.

- Eu prometo que vou te visitar em breve, vó. Estou morrendo de saudades.

- Eu também, minha menina. E, Bella... qualquer que seja sua escolha, eu estou orgulhosa de você.

Me despedi com o coração mais leve.

Ao desligar o telefone, olhei para o lago que brilhava lá fora, e de repente tudo pareceu um pouco mais claro.

Minha avó sempre soube como me acalmar, como me lembrar do que realmente importava. E o que mais importava naquele momento era isso: o amor, o perdão, e a capacidade de seguir em frente, apesar do medo.

Rafe apareceu na porta, sonolento, mas com um sorriso no rosto.

E naquele instante, soube que, por mais difícil que fosse, estava no caminho certo.

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